Questão de caras

(Publicado em o diário – 7 de Julho de 1982)

Há dias, durante a discussão do programa do Governo, o primeiro-ministro quis fulminar de uma vez para sempre a bancada comunista, ou, pelo menos, exibi-la nua e confrangida aos olhos do parlamento, tornando-a, desse modo, pela via da representatividade, alvo da irrisão do País todo. É certo que estas artes parlamentares não devem levar-se demasiado a sério: a oratória da Assembleia da República é como o sublimado para a barba, só um por cento do composto é produto activo. Em todo o caso, há-de ter sido dramático lance ver quarenta deputados intimados a declarar, ali e logo, com que cara o partido que representam (essa era a questão) se atreveria a ir para o Governo: se calhar, desdenhava o implacável interpelante, «com a cara que têm», a qual, pelo tom e malícia da apóstrofe, adivinhava-se ser a pior das caras possíveis.

Não frequentando eu as tribunas da Assembleia nem sendo leitor do «Diário» dela, e tendo os jornais omitido o desenlace da cena, fiquei sem saber se a bancada comunista tomou, por sua vez, uma atitude sobranceira, considerando a pergunta mera flor de retórica e deixando-a sem troco, ou se, contrita, humilhada, se pôs a examinar a própria cara ao espelho, a ver se, de facto, tinha merecimento fisionómico para se apresentar nos bancos do Governo. Cuido que o mais simples teria sido responder por estas ou semelhantes palavras: «Tem o senhor primeiro-ministro razão. Seria precisamente com esta cara que temos, com a cara da coerência ideológica, com a cara do respeito pelos princípios que iríamos para o Governo. E teria de ser com essa cara porque outra nunca tivemos.» Se a disciplina de aplauso não fosse ainda mais rigorosa que a disciplina de voto, não faltariam palmas nas bancadas, à esquerda e à direita.

E agora, concluído o episódio parlamentar, desçamos à rua. Ainda estão frescos de cores os cartazes da última campanha eleitoral, e muitos deles intactos, graças ao supersticioso temor que impede o povo português de destruir esses sinais exteriores da democracia, preferindo deixá-los cair de velhos, assistindo ao empalidecimento dos vultos e das palavras de ordem, olhando repreensivamente o eleitor inconformado que infringe a regra e levanta vandálica mão contra o canto solto da propaganda adversária. Observemos Mota Pinto teso na poltrona de couro e entre flores assustadas, o disfarce capilar de Lucas Pires com fundo cultural de livros, aquele monárquico cujo nome sempre esquece, enfim Mário Soares nas suas duas últimas versões, a familiar, de Nafarros, e a de Estado, com acidez de estômago. Mas não faltam outras antigas imagens, ainda muito vivazes, a de Sá Carneiro, que não volta, a de Freitas do Amaral, que voltará, a de Ribeiro Teles, que volta não volta, e a multidão de candidatos às eleições autárquicas, em grande, médio e pequeno formato, e também, para ficar completa a lista, os dois generais, presidente da República um, outro de quem felizmente nos livrámos.

Mas estará completo, em verdade, o mostruário das caras? Não haverá mais retratos, de mais remotas campanhas, que foram colados em lugares altos aonde por preguiça ou desnecessidade se não tornou para colar outros, ou em ruas e prédios que por obscuras razões se tornaram politicamente insignificantes? Sim, há. Contemplemos, por exemplo, este jovem, de gravata desapertada, em mangas de camisa, casaco atirado para as costas, naquela conhecida atitude de quem se pôs à fresca, por estar quente o dia e ter vindo de longo passeio. Apesar dos anos, e dos estragos que anos e cuidados causaram nesta cara, reconhecemos, sem dificuldade, Mário Soares. Vê-lo assim, tão novinho, tão à moda populista do tempo, naqueles dias fugacíssimos que hoje parecem sonho de sonho, tão formidável foi a esperança, é compreender, por comparação inevitável, como na vida de certos homens é extrema a distância que separa um acto de outro acto, uma palavra de outra palavra, uma garantia de outra garantia. Aquele moço do cartaz antigo, com o ar de quem vai merendar com amigos a hortas que já não há, mostra-nos um sorriso quase ingénuo, como que espantado consigo mesmo de tanto ter subido na política, de ser secretário-geral, de vir a ser, cumprindo-se o destino, primeiro-ministro, presidente da República, rei de Portugal, quem sabe, tendo ao redor de si, como de costume, o bom povo português à espera da salvação.

A minha pergunta é esta: com que cara foi, é ou será Mário Soares isso que era, está sendo ou quer vir a ser? Com a cara da coerência ideológica? Com a cara do respeito pelos princípios? Não fico à espera que me responda Mário Soares, já avisou que não faz declarações.

José Saramago

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