Refundar a UNESCO?

Temos de reconhecer que – apesar dos seus inúmeros, e sem dúvida extremamente meritórios, programas – não é isto que acontece. O que revela o percurso declinante da mais importante instituição mundial para a cultura, a educação, a ciência, a comunicação e os direitos humanos. E, no entanto, esta instituição – fundada há quase 64 anos, em Novembro de 1945 – já cumpriu, e bem, esse papel. Fê-lo assumindo durante várias décadas a ideia de que a educação, a ciência e a cultura são meios decisivos para a obtenção da prosperidade e da paz, e para contribuir, como justamente se diz no seu “Acto Constitutivo”, para o ” respeito universal da justiça, da lei, dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos, sem discriminação de raça, sexo língua ou religião”.

Hoje, a UNESCO encontra-se perante uma difícil mas incontornável encruzilhada: ou continua o trajecto que cada vez mais a tem fechado sobre si mesma, e a tem debilitado na sua capacidade de falar ao mundo. Ou, inspirando-se no melhor da sua história, se revitaliza abrindo-se às exigências de uma época e de um mundo que mudaram muito nos últimos tempos. Só assim, só avançando com uma nova visão que seja mobilizadora para os seus agentes e que seja atractiva para a opinião pública e para os cidadãos, é que a UNESCO conseguirá reconquistar a inspiradora liderança mundial que já exerceu.

Essa liderança, contudo, só verá a luz do dia se começar por ser uma liderança de ideias e de causas, efectivamente capaz de abrir novos horizontes sobre o mundo e as suas mais perturbantes transformações, e de o fazer numa perspectiva tão global como verdadeiramente civilizacional. Depois de décadas em que o âmbito da acção da UNESCO se alargou mas também, de algum modo, se banalizou, é sem dúvida altura de voltar ao essencial, com a coragem das prioridades que a situação exige.

O último ano tem exibido diariamente a desorientação geral em que todos vivemos: a falta de referências e de bússolas que dêem sentido à vida e ao mundo; os sofismas dos “especialistas” fechados em modelos artificiais, que nada prevêem e quase nada explicam; o impasse das políticas mundiais que possam responder à globalização económico-financeira, inventando novos equilíbrios entre o direito e o mercado; a frivolidade dos media, cada vez mais reféns do instante e do sensacional; a dificuldade das sociedades em terem uma visão de conjunto sobre si próprias, como se estivessem cegas pelo presente e não tivessem história nem futuro. A crise que o mundo vive não será superada sem que se enfrentem estes problemas. Por isso a UNESCO deveria ser, no nosso mundo, tão ou mais importante do que o FMI. É esse o desafio que ela enfrenta.

A nova directora-geral, Irina Bokova, candidatou-se ao cargo que agora exerce com uma visão em que defendia “um novo humanismo para o século XXI”. A expressão pode ser esta ou outra. Mas a intenção é boa, oportuna e vital, porque aponta para o plano dos valores como central para o futuro da humanidade.

De valores que, mais do que um eco do passado da humanidade, sejam sobretudo capazes de abrir horizontes ao seu futuro, e de dar forma – ao lado da política e da economia – aum novo, a um terceiro pilar da globalização: o da cultura, no sentido mais amplo do termo.

A UNESCO do século XXI precisa de uma refundação. Isto é, de uma nova definição da sua missão no mundo, à luz das mutações que ocorreram nas últimas décadas e das inéditas interrogações que surgiram com a crise que se tem vivido. Ao seu “acquis” normativo, tão importante nos domínios do património, da diversidade cultural ou dos direitos humanos, é preciso juntar, agora, uma exigência mais prospectiva, assumindo-se a UNESCO como um verdadeiro laboratório de ideias de vocação universal.

Embaixador português na UNESCO

Artigo publicado no Diário de Notícias e no Le Monde

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