Rio: um saber feito de (quase) nada

Aqui há muitos anos, um conhecido escritor francês, cujo nome agora mesmo resiste a sair-me dos arquivos da memória, proferiu, de caso pensado ou por súbito impulso de alma, quando o barco em que ia se aproximava do Rio de Janeiro (isto foi no tempo das viagens marítimas), uma daquelas frases que logo se vão tornar históricas, género «um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade». Mais discreto, o literato viajante, demonstrando, na ocasião, uma modéstia que nada tinha de francesa, exprimiu o seu deslumbramento pela voz da humildade e da gratidão: «Nunca pensei que os meus olhos valessem tanto», disse ele. O gesto seguinte, porém, não o registou a história, teria sido ajoelhar-se no convés e dar graças a quem inventou os olhos e as paisagens.

Viajei ao Brasil, pela primeira vez, salvo erro, em 1982, levando comigo uns olhos que já tinham nascido cansados e a recordação de muita outra paisagem vista. Cheguei de avião ao Rio, com nuvens baixas, levaram-me do aeroporto à cidade, pelo meio de um trânsito convulsivo, mas pude perceber, de relance, a massa formidável do Pão de Açúcar, e, quase sem saber como, achei-me no hotel. Em Copacabana, claro está.

Suponho que terá sido por aí que começaram os meus desencontros com o Rio de Janeiro. Nas viagens que entretanto tive oportunidade de fazer, e não foram elas poucas se levarmos em conta os apenas oito anos passados, sempre me instalei, ou, para ser exacto, me instalaram, naquela correnteza de palaces e areias, sítio de regalo para turistas, sem dúvida, porém, se não parece mal dizê-lo, impróprio para viajantes. E como essas minhas viagens eram invariavelmente breves (o tempo de um congresso, o tempo de um lançamento editorial), ainda mal chegara, já regressava, ou corria a outros lugares brasileiros, que viria a conhecer tão mal como estava conhecendo o Rio. Da paisagem, apesar de tudo, acreditava ter luzes suficientes, ali estavam as montanhas, as florestas, o mar, mas a cidade desorientava-me, dividida, como está, em três ou quatro partes que se comunicam por túneis, de modo que me via a sair de uma e a entrar em outra sem perceber onde tinha acontecido o momento da passagem ou quando havia cruzado, por assim dizer, uma linha de fronteira. Perguntavam-me os meus amigos se já tinha subido ao Pão de Açúcar ou ao Corcovado, que isso me ajudaria a ter uma ideia da topografia geral da cidade, e eu, fiel ao princípio de que um viajante que se respeite não sobe à Torre Eiffel (como até hoje nunca subi), respondia-lhes que contava vir a compreender o Rio de Janeiro um dia desses, sem recorrer à facilidade de paisanas ascensões.

Por fim, não aguentei mais. O Rio de Janeiro estava a tornar-se para mim numa nova Setúbal, essa onde sempre me perco e onde sou incapaz de encontrar uma rota que me leve a porto seguro. Desdenhei o Pão de Açúcar, por achar que só me ofereceria uma visão muito incompleta do objectivo, e subi ao Corcovado, aprendendo, de caminho, que aquela florinha cor-de-lacre que aparecia por todo o lado, ao longo da estrada, tem o nome de Maria-Sem-Vergonha, palavras que dizem tudo sobre a espécie de intrometida que é. Chegado, enfim, ao alto, pude perceber, num estado de plena adesão dos olhos e do espírito, o que queria dizer o tal francês agradecido. Mas como uma beleza destas é rigorosamente intraduzível em palavras (se eu escrever verde, por exemplo, de que verde estou a falar? e vale? e montanha?), deitei as minhas vistas para a disposição da cidade no terreno, localizei os acidentes orográficos perfurados pelos túneis, tracei mentalmente as vias de comunicação, pus nomes nos bairros, situei as praias, identifiquei as montanhas encavaladas ao redor, inventariei as favelas e áreas de luxo – o Rio de Janeiro deixava de ser uma cidade para tornar-se num mapa plano, lógico, organizado, perfeito. Compreendera tudo, aprendera tudo.

Bastou-me regressar ao nível do mar e a Copacabana para começar a desaprender, mas o meu desenho mental, com a ajuda de um mapa turístico finalmente útil, ainda tinha sentido bastante para evitar que me visse a mim mesmo como o menino perdido na mata e sem o seu cão Piloto. Mas, ai de mim, nunca diremos demasiadas vezes que o óptimo é inimigo do bom. Veio um dia, uma outra viagem, em que subi de helicóptero, por ares e ventos, sobrevoei tudo, desde Jacarepaguá ao Fundão, girei ao redor do Senhor Cristo do Corcovado como anjo zumbidor enviado do céu para perguntar-lhe, olhos nos olhos, se realmente acreditava que valesse a pena continuar ali, pairei sobre o Pão de Açúcar e soube como ele é do lado do mar, tomei a altura dos arranha-céus, fiz levantar as cabeças dos banhistas na praia, desde o Leme a Ipanema, e quando dei por mim tinha perdido outra vez o Rio de Janeiro. Vistos assim do ar, os planos confundiam-se, a inclinação dos vales era perturbada pela inclinação do próprio aparelho, a montanha parecia escorregar e cair, os edifícios tornavam-se construções expressionistas, cenários de Metropolis, as favelas confundiam-se com os bairros ricos que estão defronte, a cidade transformava-se em caleidoscópio, variável até ao infinito. Depois disto, descer não é regressar, mas recomeçar.

Confessado fica aqui, pois, que mal conheço o Rio de Janeiro. Porém, não é ao helicóptero que lanço as culpas. Culpa tem-na (mas inocente culpa) quem me pôs em hotéis de Copacabana, culpa tem-na esta minha vida que só me leva das universidades às livrarias, das sessões de autógrafos às recepções, das conferências às entrevistas, das mesas-redondas aos jantares de circunstância. Um dia, um amigo brasileiro disse-me que é possível viver no Brasil como se o Brasil não existisse. Basta ter os meios para criar um casulo, uma redoma, viver lá dentro e fechar os olhos ao resto. Acho que, no Brasil, também tenho vivido numa redoma. E contudo, se calhar, até nem conheço tão mal assim o Rio de Janeiro. Mas das pessoas, do povo que lá vive, se quiser ser sincero, só saberei dizer que lhes chamam cariocas.

José Saramago

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