Saramago mostra seu inconfundível olhar sobre a humanidade no inédito “Claraboia”

Em 2009, “A Viagem do Elefante” (lançado em 2008). Ano passado, “Caim” (ambos da Companhia das Letras). Seria muito triste se 2011 terminasse sem um livro de José Saramago na mesa dos mais vendidos nas livrarias brasileiras. Sorte nossa, o autor que morreu este ano deixou uma obra não publicada. Melhor que isso, deixou um livro que poderia listar entre seus primeiros trabalhos autorais mas tornou-se, a partir de uma recomendação expressa do escritor, um trabalho póstumo.

“Claraboia” (mesma editora) não é um livro conclusivo. Não serve de arremate do trabalho do Nobel de Literatura de 1998. Longe disso, é um caminho para se conhecer a construção de um gênio. A genialidade narrativa, o gosto pela experimentação de Saramago já estava por trás das linhas escritas no início da década de 1950.

Na época, o autor dispunha de algum nome entre os literatos, mas os originais deste livro acabaram esquecidos na gaveta de um editor, sem que nenhuma resposta sobre sua publicação fosse dada nos próximos anos. Quando enfim o mercado editorial acordou para o valor da obra, nos anos 1980, Saramago recomendou que “Claraboia” fosse mantido na gaveta até a sua morte.

“Claraboia” é o olhar de um narrador onipresente na vida de alguns personagens construídos de forma notável, ao estilo Saramago. É primavera de 1952 e vidas se cruzam num pequeno e modesto prédio de Lisboa. Portas, janelas, escadas e os ruídos da vida vizinha a que todos que moram num edifício estão sujeitos a escutar formam os pontos de cruzamento entre os personagens. Indiferentes ou curiosos pela vida alheia, eles são vizinhos.

Se há um personagem central na trama, ele é o sapateiro Silvestre, que no começo é apresentado como mais um trabalhador condenado a assistir o mundo da janela da sua oficina, ao longo da história ganha status de sábio. Ele e seu hóspede, o jovem errante Abel, travam interessantes diálogos. O jovem leva a vida a fugir de amarras e a cortar “tentáculos” que por acaso surjam. Entre eles, as conversas têm a confiança de uma amizade e a força de uma disputa oral.

De sua parte, Abel defende sua opção de negar as convenções. De seguir seu caminho, ainda que cheio de tropeços, em nome de ser livre. Casado com a gorda e amável Mariana, exercendo o mesmo ofício que aprendeu aos doze anos, Silvestre se revela um conhecedor das coisas. Tenta mostrar a Abel que no fim, todos serão os mesmos. E que só amor importará.

Mas não se engane. Silvestre talvez seja o personagem em que mais se identifica o autor, mas nem de longe será o mais instigante. Há as quatro solteironas do último andar: mães, duas filhas e um tia, que passam o dia a ouvir música clássica e a sonhar uma vida que não ousam tentar viver. No mesmo andar, Maria Cláudia é a jovem filha de Rosália e Anselmo. Ela sonha em ser personagem de um conto de fadas, eles pensam formas de garantir um futuro melhor provido para a filha.

No andar de baixo, Lídia é a mulher bonita e experiente mantida por um discreto empresário que a visita religiosamente nos mesmos dias e horários. Sua beleza madura e sua condição solitária fazem de Lídia uma mulher admirada e odiada nas mesmas proporções entre os vizinhos. Ainda neste andar, há a espanhola Carmen e o caixeiro-viajante Emílio, um típico casal que se odeia, pais do inocente Henrique.

Em outro apartamento, Justina e Caetano parecem um desinteressante casal que perdeu o rumo da relação depois da morte da filha vítima de meningite ainda criança. Com o decorrer da trama, no entanto, parte desses personagens as passagens mais marcantes de “Claraboia”, quando os sentidos do desejo e do amor são postos a prova.

Fonte: uol.com.br

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