Saramago ou a Literatura como Heterodoxia

Questão prévia: o que leva a que um escritor com o prestígio e com a relevância histórico-literária de José Saramago se envolva, à beira de cumprir 87 anos, numa querela como a que o romance Caim desencadeou. Resposta clara: uma constante e militante vocação para desassossegar imagens feitas, representações cristalizadas e mitos (aparentemente) inatacáveis.

1. Questão prévia: o que leva a que um escritor com o prestígio e com a relevância histórico-literária de José Saramago se envolva, à beira de cumprir 87 anos, numa querela como a que o romance Caim desencadeou? Resposta clara: uma constante e militante vocação para desassossegar imagens feitas, representações cristalizadas e mitos (aparentemente) inatacáveis. Assim tem sido com José Saramago, ao longo de uma vida literária de muitas décadas; e assim tem sido quando, para o escritor, estão em causa figuras históricas, poderes públicos, religiões e suas contradições, derivas políticas ou episódios que envolvem a nossa identidade e o nosso destino colectivos. Deste ponto de vista, ninguém, goste ou não de Saramago, negará ao autor do Memorial do Convento uma coragem que vai de par com a recusa à acomodação que para outros seria mais conveniente.

Dir-se-á: algumas das querelas em que José Saramago, enquanto escritor, se tem envolvido eram desnecessárias. Discordo, mesmo quando também discordo (e algumas vezes isso tem acontecido) das posições assumidas pelo escritor. Do meu ponto de vista, a grande arte e a grande literatura, bem como aqueles que as fazem, são e serão o último reduto da rebeldia e da incomodidade, da revolta e da desmistificação, justamente por força da sua desnecessidade. O que é coisa bem diferente de inutilidade. Mesmo quando pareceria mais confortável tornear a controvérsia, é lá, nessa irrefutável desnecessidade, que reside a legitimidade própria da literatura e dos debates que ela suscita, visando afrontar poderes instituídos, olhar e dar a olhar a face oculta da lua. Sem esse direito, que é também, de um outro ângulo de análise, um dever, a literatura que nos útlimos séculos temos lido deixaria de fazer sentido.

2. O que fica dito não procura defender José Saramago do que quer ou de quem quer que seja. O que até agora escrevi procura apenas recordar algumas coisas óbvias, tão óbvias que parece estranho ter de as recordar, sobretudo quando escutamos certas reacções vindas de pessoas responsáveis, momentaneamente desconcentradas pelo ardor da discussão. E foi assim que ouvi o padre Peter Stilwell declarar: “Esta polémica é um circo que serve para vender livros”. Faço a justiça de reconhecer que a inteligência e a cultura literária de Peter Stilwell, autor de uma tese sobre A Condição Humana em Ruy Cinatti (Presença, 1995), vão muito além da estreiteza daquelas palavras, que só podem ser ditas quando se esquece ou ignora a projecção nacional e internacional de José Saramago: custe ou não reconhecê-lo, ele é, em toda a nossa história literária, um dos escritores mais editados, reeditados, traduzidos, premiados e estudados de sempre. E isto, só por si, não é pouca publicidade.

De diferente ordem e certamente menos pacíficas foram as declarações de um ilustre estudioso da Bíblia, o padre Carreira das Neves. Ao ler Caim, Carreira das Neves concluiu que “aquilo é uma sátira, é um romance satírico porque ele dá ferroadelas sempre que pode a tudo o que é Deus, a tudo o que é religiões”; e a isto acrecentou: “O romancista não pode ferir milhões de católicos, milhões de judeus, milhões de protestantes, milhões de ortodoxos.”

Compreendo e aceito que um católico, um judeu, um protestante ou um ortodoxo se sintam feridos ao ler Caim. Não compreendo nem aceito que, a propósito de um romance (ou de um poema ou de uma escultura ou de um texto dramático ou de um filme), se diga não pode. Porque aquele não pode está situado no início de um caminho que bem sabemos como começa e melhor sabemos como acaba; a História ensina que, sempre por razões que alguns, às vezes poucos, impuseram como legítimas e legitimadas, o não pode acabou por desembocar no condicionamento do pensamento e da sua expressão, na violência física, no exílio e às vezes no suicídio. Grandes escritores como Gil Vicente e Camões, Flaubert, Baudelaire e Zola, Clarín, García Lorca e Pablo Neruda, Mayakovsky e Anna Akhmatova, D. H. Lawrence e Nabokov (fico por aqui) viveram a amarga confrontação com um qualquer não pode, não raro contrariado pela coragem com que o enfrentaram. Por essa coragem e também pela lucidez de leitores e pela independência de juízos críticos que acabaram por fazer justiça à grandeza de obras que um certo não pode preferiria rasurar da nossa memória. Das que não foram mais do que gratuita subversão pela subversão não reza a História; mas nem mesmo a essas é curial dizer não pode.

3. Como n’Os Lusíadas se diz, com uma prudência que os ares do tempo aconselhavam, “passo esta matéria perigosa”. E passo-a para notar o seguinte: tem sido graças à querela desatada por Caim que se tem reconhecido (num outro testemunho, em debate ameno com Saramago, o padre Carreira das Neves confirmou-o com louvável honestidade intelectual) algo que, além das incidências propriamente religiosas que encerra, reveste, antes tudo, uma dimensão cultural: por muitos séculos, a Bíblia, em especial o Antigo Testamento, esteve afastada da leitura dos católicos. Sabe-o bem qualquer pessoa que, como é o meu caso, teve uma formação católica e que, mesmo do Novo Testamento, só pôde conhecer, nesse tempo de formação, textos escolhidos e descrições ad usum delphini.

De modo que a reconhecida (pelo próprio Saramago) leitura literalista do episódio de Caim encerra, pelo menos, um mérito, que é o de implicitamente sublinhar, pelo regresso a essa dimensão literalista, o seguinte: em toda a civilização ocidental não há, como com a Bíblia acontece, outro conjunto de textos em que a questão da interpretação se coloque de forma tão aguda e tão potencialmente controversa, até ao ponto de ser factor de dissensões e de cismas nalguns casos assinalados com o selo da violência. De tal forma assim é que uma disciplina auxiliar dos estudos literários, a que chamamos crítica textual, traz inscrita na sua matriz fundacional a preocupação com o estabelecimento do texto autêntico da Bíblia, como base literal de onde se parte para operações exegéticas; e pela sua natureza, tais operações exegéticas só podem suscitar debate e diferença, ambos fundados no livre, individual e responsável diálogo de um leitor com um texto. O que Saramago faz, ao regredir a um ponto de partida “literal” aparentemente esquecido, é lembrar o início de um trânsito cultural e exegético milenar, que só ganha pleno sentido quando encarado desde esse princípio; e, noutra acepção, ele não é outra coisa senão um princípio de liberdade. Também por isso é a ficção literária (como quem diz: a literatura) o refúgio onde aquela liberdade se postula e o lugar de onde ela se dissemina.

4. De resto, tudo isto está longe de ser novo, como bem se sabe. Logo que estalou a discussão em torno de Caim e da leitura saramaguiana de certos passos da Bíblia, lembrei-me de um texto já relativamente antigo de Umberto Eco, no Diário Mínimo, texto que suponho (não pude verificar) inserto na edição portuguesa da Difel, de 2008. Pois bem, antes mesmo de o localizar no original italiano, reencontrei-no no blogue Sine Die, publicado por Eduardo Maia Costa.

Não se diz no blogue, mas convém lembrar que o texto de Eco faz parte de um conjunto de “pareceres” de leitura em que, em jeito obviamente paródico, são recomendados a uma editora os originais de grandes obras da cultura ocidental. O que se diz da Bíblia? Entre outras coisas (vale a pena ler o texto na íntegra), que ali “tudo é acção, e acção é tudo o que o leitor de hoje pede a um livro de evasão: sexo (em profusão), com adultérios, sodomia, homicídios, incestos, guerras, massacres, e assim por diante”; que “as histórias de Noé são Salgari puro, a fuga do Egipto é uma história que aparecerá mais cedo ou mais tarde nos écrans”; que, no conjunto, estamos perante “uma antologia de vários autores, com numerosos, excessivos, trechos de poesia, alguns francamente lamentáveis e aborrecidos, perfeitas jeremíadas sem pés nem cabeça”, cujo resultado final “é um conjunto monstruoso, arriscando-se a não agradar a ninguém, por tanto ter de tudo.” Por fim: “Eu diria que se fizessem contactos a ver se será possível publicar separadamente os primeiros cinco livros. Seria andarmos mais pelo seguro. Com um título como ‘Os Desesperados do Mar Vermelho’.”

Mas há mais. Escritores do nosso cânone, objecto de leitura (é o que desejamos…) por parte dos estudantes do Ensino Secundário, não fugiram à tentação de reescrever a Bíblia, num registo de irrisão a que aguns chamarão heresia. Sabem os críticos de Saramago o que se encontra no capítulo III d’A Relíquia? E lembram-se dos termos em que Alberto Caeiro, no poema VIII d’O Guardador de Rebanhos, viu “Jesus Cristo descer à terra”? Curiosamente, ambos os episódios surgem como sonhos, sendo possível ler tais sonhos também e alternativamente na acepção corrente de desejo e aspiração. Assim mesmo, tal como no discurso famoso (“I had a dream…”).

Pois bem, n’A Relíquia, já no final de uma longa reelaboração da paixão e morte de Cristo, alguém relata o que depois se passou: o corpo de Cristo fora deslocado do seu túmulo inicial para um outro túmulo, porque o vinho narcotizado que lhe havia sido dado, para simular a morte, acabou por ser fatal; e assim, prevê o narrador anónimo, “depois de amanhã, quando acabar o Sabat, as mulheres de Galileia voltarão ao sepulcro de José de Ramata, onde deixaram Jesus sepultado… E encontram‑no aberto, encontram‑no vazio!… «Desapareceu, não está aqui!…» Então, Maria de Magdala, crente e apaixonada, irá gritar por Jerusalém: «Ressuscitou, ressuscitou!» E assim o amor de uma mulher muda a face do mundo e dá uma religião mais à humanidade!” Ou seja: um Eça tributário da leitura de Renan (“esse heresiarca sentimental”, disse Teodorico) reduz o a origem do Cristianismo ao equívoco de uma mulher apaixonada.

De outra feição, certamente mais chocante até porque mais “natural”, é o paganismo primordial de um Alberto Caeiro cuja “inculta” inocência confina, afinal, com a mais subtil das perversidades. É o poeta quem recolhe o testemunho de um Jesus Cristo “tornado outra vez menino”, falando de um céu em que “era tudo falso, tudo em desacordo/ Com flores e árvores e pedras”. Dele guarda a “criança tão humana que é divina” a memória de ter dois pais, “um velho chamado José, que era carpinteiro,/E que não era pai dele;/E o outro pai era uma pomba estúpida,/A única pomba feia do mundo/Porque não era do mundo nem era pomba.” Desse Deus de que se libertou diz o menino que é “um velho estúpido e doente,/Sempre a escarrar no chão/E a dizer indecências. /(…)E o Espírito Santo coça-se com o bico/E empoleira-se nas cadeiras e suja-as./Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.”

5. Cito estes bem conhecidos textos sem outro propósito que não seja o de lembrar o seguinte: qualquer um deles configura um imaginário da religião dotado de uma legitimidade que lhes é incutida pela específica lógica que rege os mundos possíveis por eles modelizados. Podemos tentar refutar esse imaginário pela formulação de juízos de natureza literária; mas não é tolerável que aquela legitimidade (e repito: pelo menos um daqueles textos está ao alcance de qualquer estudante do Secundário) seja posta em causa a partir de juízos de ortodoxia, para mais quando esses juízos são fundados em operações exegéticas e em normativos que delas decorrem.

Acontece que, deste ponto de vista (ou seja: o que equaciona os textos e as práticas culturais em função de critérios de ortodoxia, seja ela de que natureza for), a literatura em geral e a de Saramago em particular existem para afirmar, de forma variavelmente expressiva, o princípio da subversão da ordem (da norma, da doxa, da verdade em que se crê). A ordem que as rege é, por paradoxal que pareça, o constante movimento que aponta para a sua derrogação. E isto sabendo-se bem que da heterodoxia à heresia vai um passo curto que os escritores e os artistas não raro foram acusados de dar, muitas vezes pagando por isso um preço alto. Quando assim é, entramos irremediavelmente no terreno da moral. Fora dele está a literatura – e, de forma às vezes provocatória, a grande literatura.

Carlos Reis,

Professor Universitário

Artigo publicado no Jornal de Letras a 04 de Novembro de 2009

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