Sobre a necessária reinvenção da língua portuguesa

Pronuncio o título desta conferência, ou palestra, ou simples comunicação, e no mesmo instante descubro que nele se denuncia a nula autoridade científica do autor. Que ele se imagine a si mesmo dotado de opiniões próprias, eis o que não será, decerto, motivo da vossa reprovação, antes talvez o devêsseis felicitar pela coragem, mormente se vier a explicar-se em termos que não deixem dúvidas sobre a bondade, ao menos, do propósito. Mas que ouse anunciar uma pretensa necessidade de reinvenção duma língua que há tantos séculos é praticada, e com satisfação bastante, no aquém e no além mar, aí é vossa obrigação não deixar que passe em claro a estultícia do orador, pois não seria sequer admissível que o esteja determinando a menor sombra de desrespeito perlo público que tem a condescendência de ouvi-lo, e pelo lugar onde todos nos encontramos, ele e nós. Tanto mais, torno a dizer, que a este autor falece a competência académica mínima para tratar, de maneira responsável, qualquer assunto que com língua e linguagens se relacione. É verdade que fala, como se está ouvindo, e que escreve, como se tem lido, mas, se é indiscutível que lhe assiste o direito, humano, de fazer uma coisa e outra, confessado ficou já e assente que lhe falta o preparo para tocar, mesmo ao de leve, nos como e nos porquês. Admitamos, então, que o seu ofício de escritor o autorizará, talvez, a manter-se nos limites dos ses e dos mas, que são, aliás, se alguma coisa fui capaz de aprender na vida, bem mais saudavelmente problemáticos.

As línguas, claro está, não se intentam, o que, desde logo, estaria negando a simples hipótese de qualquer sua reinvenção, se não conhecêssemos já o suficiente sobre a maliciosa ductilidade dos sentidos e as suas margens de flutuação e de indeterminação, à beira da contradição absoluta, da vertigem de um não-sentido como intuição preparatória de um sentido novo. Não se inventam, pois, as línguas, mas talvez possam, e devam, ser reinventadas. Paradoxo que assim fica assumido, e graças ao qual, com alargada impunidade, me permitirei avançar.

Uma língua, num instante dado, ainda não existe, noutro instante depois já poderemos identificá-la, reconhecê-la, dar-lhe nome. Entre esses dois instantes, por assim dizer, unívocos, é grande a dificuldade de apurar até que ponto o que há-de ser já está sendo, ou se o que foi já se transformou o bastante para que seja possível antecipá-lo como forma do que será. É a mil vezes repetida história metafórica e alegórica da crisálida, vida entre duas vidas, simultaneamente criador e criatura. Assim, mais ou menos segundo esta figuração, se terá feito a passagem do latim ao português, com aquela crisálida linguística pelo meio a tentar chegar aos mesmos significativos através doutros significantes. Que lugar ocupou neste lento processo o galaico-português donde viemos é questão que afortunadamente não tenho de trazer aqui, por declarada inabilidade, e também por ser muito outro o meu escopo: a reinvenção da língua portuguesa, se ainda estais lembrados.

Abusando dos privilégios generalizadores do ficcionistas, em quem sempre habita, latente, alguma animadversão contra a inamobilidade dos factos, tenho-me arriscado a afirmar que bem mais importante do que o facto em si é o momento em que ele se dá, e que, sem uma compreensão geral de quanto no tempo os envolve, os factos se tornam, não raro, ininteligíveis, apenas os salvando de tornarem-se em enigmas o seu próprio peso bruto, que acaba por consituí-los como evidência mais ou menos incontornável, referência fatal e sem apelo. É por isto que alusões à hora, ao instante, ao momento, à época voltam com tanta insistência a uma reflexão que, aparentemente, deveria orientar-se não mais do que para a situação actual, uma vez que é do estado do português hoje que me propus ocupar-me aqui. Ainda que, perdoe-se-me esta nova desgressão, me fosse de grande gosto, além do proveito que me traria, saber que causas se congregaram para que o português escrito, e presumo que também o falado, atingisse um tão alto grau de beleza e de precisão no século xvii, por exemplo, e que enfermidades o atacaram depois e o trouxeram, com algumas intermitências fulgurantes (Garrett em primeiro lugar), a esta outra crisálida em que se está organizando não sei que insecto, por todos os indícios e demonstrações, provavelmente, um mutante.

Porém, muito mais do que saber que maleitas terão surgido nesse e noutros passados, importaria averiguar, com o arsenal científico de que os especialistas estão apetrechados, e não com a alegre ousadia de que eu próprio dou e darei mostra escandalosa, importaria averiguar, repito, as causas, e propor os remédios, se ainda os há, para a celerada e acelerada degradação que, não é novidade para ninguém e as excepções apenas o confirmam, está corroendo a língua portuguesa, essa que tanto nos envaidece chamar língua de Camões, sem ao menos nos perguntarmos se o mesmo Camões não a cuspiria da sua boca. É aqui que dói a matadura. E se eu não vim à Venezuela, como um fanático anunciador de catástrofes, a profetizar a morte da língua portuguesa, devo perguntar se, em Portugal e fora dele, estaremos a fazer sequer o estrito necessário para defender-lhe a vida.

Eu sei, ai de mim, que os optimistas são doutro parecer: dizem eles que a língua não precisou de quem cuidasse dela durante todos estes séculos e nem por isso se finou, que uma língua é um ser vivo, como ele eminentemente adaptável, que essa capacidade de adaptação sucessiva é a própria condição da vida, e que, agora metaforicamente falando, depois de bem baralhados os naipes, sempre estarão na mesa as mesmas cartas, isto é, ainda haverá língua portuguesa bastante para que os portugueses saibam do que estão a falar. Oxalá. Mas eu, se é preciso dizê-lo, por deformação original do espírito ou cepticismo que veio com a idade, não sou optimista. A convivência pacífica nunca foi característica principal das coexistências linguísticas: por modos mais ou menos sub-reptícios sempre se estabeleceram modalidades de cerco, sempre se delinearam manobras de penetração, mas os vagares da História e a rudimentaridade das técnicas de comunicação, no passado, retardaram e alongaram os processos de envolvimento, absorção e substituição, o que nos permitia, sem maior inquietação, considerar que tudo isso era da ordem do natural e do lógico, como se na torre de Babel tivesse ficado decidido o destino de cada língua, vida, paixão e morte, triunfo e derrota, ressurreição nunca.

Ora, as língua, hoje, batem-se. Não há declaração de guerra, mas a luta é sem quartel. A História, que antes não fazia mais que andar, agora voa, e os actuais meios de comunicação de massa excedem, na sua manifestação mais simples, todo o poder imaginativo daqueles que, como o autor destas linhas, fazem da imaginação, precisamente, o seu instrumento de trabalho. Tecnicamente, a única diferença entre Homero e nós é que ele, segundo consta, apenas falava, e nós, mesmo quando falamos, temos uma escrita a informar o nosso discurso. Claro que desta guerra de falantes e escreventes não se esperam, apesar de tudo, resultados definitivos de retardamento, mas as consequências derradeiras, verificáveis não sei quando, mas previsíveis, mostrarão, então demasiado tarde, que o emurchecimento prematuro da mais alta folha daquela árvore anunciava já a extinção de toda a floresta.

Línguas que hoje ainda se apresentam como hegemónicas em superfície tenderão a penetrar nos tecidos profundos das línguas subalternizadas, sobretudo se estas não souberam, a tempo, encontrar em si próprias uma força vital que lhes permitisse oporem-se ao desbarato a que, de forma quase sistemática, se vêem sujeitas, agora que as comunicações no nosso planeta são o que são. Num livro de viagem que escrevi há alguns anos, precisamente chamado Viagem a Portugal, dei a um breve capítulo da parte consagrada ao Algarve o título: «O português tal qual se cala.» Não preciso explicar porquê. Hoje, uma língua que não se defende, morre. Não de morte súbita, já o sabemos, mas aos poucos irá caindo num estado de agonia desesperada que poderá levar séculos a consumar-se, dando em cada momento a ilusão de que continua viva, e por esta maneira afagando a indolência ou mascarando a cumplicidade, consciente ou inconsciente, dos seus suicidários falantes.

O quadro é, evidentemente, negro. Não faltará quem alegue, para contrariá-lo, a nova possibilidade de renovação e florescimento da língua que nos é oferecida pelos países de África que, miraculosamente, no acto da independência, decidiram adoptar o português para sua língua oficial. Foi um acontecimento de grande importância, sem dúvida, mas que não seria prudente sobrestimar: mais do que uma decisão motivadamente sociocultural foi uma atitude de política pragmática, que o futuro virá a confirmar ou não, quer por força das razões próprias de cada um desses países quer da pressão envolvente doutras línguas, conforme já se vai verificando no caso da Guiné-Bissau, sugada, literalmente, para a área francófona. Acresce ainda que seria um acto de inadmissível abdicação entregar a outrem responsabilidades que são conjuntamente nossas, de nós, portugueses, que, se não merecemos mais do que outros a língua por termos sido seus criadores, também seguramente a não merecemos menos, tanto em direitos como em deveres. Aliás, eu diria mesmo que a frente principal (desculpai-me o arrebatamente bélico) da luta pelo sobrevivência da língua portuguesa está no próprio país de origem: se nele se perder, há muitas probabilidades de que venha a perder-se também nos outros lugares do mundo que a falam. Não esqueçamos que as línguas se cercam uma às outras, não esqueçamos que a língua inglesa as cerca a todas, e a todos nos cerca.

Seria agora a altura de entrar no exame da situação do português em Portugal. Não o farei. Aquilo que em tom irónico disse no princípio destes pontos de vista, sangrando-me em saúde, repito-o agora sem nenhuma ironia e com um pesar que não disfarçarei: como escritor, sou um prático, sei somente o que aprendi, o que fui capaz de aprender, na leitura e releitura de tanta gente que escreveu e escreve melhor do que eu. Por isso é que me está vedado penetrar em arcanos teóricos que justamente agora seria necessário convocar. Limitei-me aos ses e aos mas, tal como havia prevenido, mas, após ter desfiado o que suponho serem fundamentadas razões de cuidado, ainda me autorizarei duas questões, com o que esta comunicação ficará rematada, e espero que justificada.

A primeira refere-se ao ensino da língua portuguesa nas escolas. Que não sei hoje como se faz. Claro está que não duvido da competência de quem ensina, nem da irreprimível vontade de aprender que certamente mora na alma dos estudantes, e ainda menos duvidaria da excelência científica dos programas. A mim próprio estou, portanto, retirando aqueles motivos imediatos que porventura me explicariam o baixíssimo nível de conhecimentos e a confrangedora inépcia com que gerações de estudantes de todos os graus lidam com a língua portuguesa, quando a escrevem e quando a falam. Dizem-me que se trata de um fenómeno geral, que até no estrangeiro, em França, por exemplo, a língua sofre tratos semelhantes: lá, o erro de ortografia é rei e pouco lhe falta para ser lei. Seja ou não seja assim, bastem-nos as preocupações que são nossas. E é por me preocupar eu muito que submeto à vossa atenção uma evidência que desde há algum tempo se transformou em obsessão minha: é que, em rigor, a escola, que tão mal ensina a escrever, não ensina, de todo, a falar. A aprendizagem elementar da fala e o desenvolvimento da língua estão entregues às famílias, ao meio técnico e cultural em que a criança vai crescer, o que, em si mesmo, não é um mal, uma vez que assim costuma decorrer todo o processo de aprendizagem, pelo exemplo e pela exemplificação, sucessivos e constituidores. Mas a escola, não intervindo, como não intervém, no processo de edificação da fala, demite-se duma responsabilidade em que deveria ter parte privilegiada, e, pelo contrário, vai receber o influxo negativo dos surtos degenerativos externos, assim «oficializando», indirectamente, o errado e o vicioso contra o harmonioso e o exacto. E é facilmente verificável que a escola, não só não ensina a falar, como fala mal ela própria.

A segunda questão, adivinho, soará como uma impertinência aos vossos ouvidos, e é bem possível que a benevolência com que até este momento fui ouvido se mude, no próximo minuto, em contrariedade ou irritação mal disfarçada. Porque vou ser, eu, aquele sapateiro grego que não se limitou a criticar a desenho da sandália que Apeles calçara a uma figura sua, e atreveu-se a apontar defeitos na anatomia do joelho. Com a diferença de que não me contentará desdenhar do joelho da língua (perdoai-me a expressão libérrima), antes irei apontar uma falha na cabeça, sede do entendimento, e que tão excelente é para criar inovações, como para execrá-las e combatê-las. Não é gratuita esta referência à inovação. Inovar seria, precisamente, introduzir, a partir dos primeiros graus de ensino secundário, aquela disciplina cujo programa claramente se deduzirá da sua designação: História da Língua. Sim, a História da Língua a partir dos primeiros graus do ensino secundário. A minha inteligência, sabei-lo já, não ultrapassa uma honesta mediania, mas é capaz de surpreender-se ao ver estudar, por exemplo, a História da Literatura como se o suporte dessa literatura não fosse a língua, como se fosse indiferente, para cada tempo literário, o estudo concreto do processo de transformação desse mesmo suporte. Mais ainda: como se não houvesse relação directa entre uma impressão que se quer comunicar e o instrumento que tornará a expressão dela possível.

Perguntar-me-eis se, chegado a este ponto, já reinventei a língua portuguesa. A ironia é merecida. Mas dizei-me vós se não parece que uma escola que ensinasse, de facto, a escrever e a falar, a falar, insisto, uma escola que fizesse da História da Língua a matéria vertebradora duma formação humanística –, dizei-me se essa escola não estaria revitalizando a maltratada língua portuguesa, reinventando-a todos os dias no espírito de cada estudante, a quem finalmente poderíamos dar, no sentido profundo da palavra, o nome de iniciado.

José Saramago

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