Sobre um encontro de intelectuais e artistas em Valência de Espanha

Há precisamente dez anos (que rápido passa o tempo…) fui de jornada a Valência de Espanha, correspondendo ao convite que me havia sido feito para participar num encontro de intelectuais e artistas que naquela cidade se iria realizar e com o qual se comemoraria o cinquentenário de uma outra reunião, essa já pertencente à história, quase mítica, o Congresso de Escritores Antifascistas em Defesa da Cultura, celebrado no ano já distante de 1937. Não pertencendo eu à família de congressistas que chegam, olham, dão duas voltas pelos corredores a mostrar-se, conversam com os amigos, combinam outros congressos e vão-se embora, dei-me ao trabalho de escrever e levar comigo de Lisboa, onde então ainda vivia, umas quantas esforçadas páginas, com a esperança de que no meio de todas as fortes e profundas razões que certamente lá iria escutar, a minha modesta contribuição, mesmo que por desgraça pertencesse ao número das mais débeis e inconsistentes, também poderia merecer a sorte de apresentar-se ao julgamento da magna assembleia, a que, acolitado por Mano Vargas Llosa e Jorge Semprún, presidia Octavio Paz. Não coroou o destino as minhas doces expectativas, se é que não foi antes alguma conspiração silenciosa dos poderosos que me impediu de subir os degraus da tribuna dos oradores e arengar às massas…

Reflectindo ultimamente nas assombrosas mudanças por que está passando o nosso continente, e de um modo geral o planeta, quis o benévolo acaso que os desdenhados, pálidos e já esquecidos papéis me tornassem às mãos, estimulando-me a uma nova leitura, e, podendo ser, proporcionando-me a confirmação das ideias que neles tinha então expendido e a sua hipotética sobrevivência nos conturbados momentos que andamos a viver, dez anos passados. Tomarei pois o essencial do que escrevi naqueles dias, fazendo votos por que a compreensão do pouco que decidi aproveitar não venha a ser prejudicada pela falta do muito que tive de eliminar.

Distribuído com larga e previsora antecedência pelos convidados, um denominado Documento Fundador desse Congresso de 1987 começava por afirmar, com toda a gravidade, que o Congresso Anifascista de 1937 havia sido «um acontecimento de alcance mundial, por muitas razões e alguma sem-razão». Julgando eu conhecer umas quantas das ditas razões, que são, aliás, do conhecimento de toda a gente, admitia com humildade que iria receber ali informação sobre algumas mais. Porém, o que acima de tudo esperava era que me fosse explicado em que consistira a denunciada «sem-razão» de um acontecimento em que a minha insuficiência intelectual só conseguia ver razões, e todas de peso. Evidentemente, estava por completo de acordo que uma reflexão crítica que incidisse sobre esse passado já remoto, se era isso o que se pretendia fazer em Valência, só teria real sentido se se abrisse para uma reflexão sobre o futuro, o próximo, isto é, este em que nos encontramos, e aquele que nos espera. Mas duvidava de que tal abertura viesse a ser possível e de utilidade bastante se não começasse por ser esclarecido o que desde logo se me afigurou ser um preconceito de fundo, facilmente deduzível dos termos em que o dito Documento Fundador havia sido redactado: refiro-me à acusação, expressamente formulada, de que os intelectuais dos anos 30 haviam cultivado falsos ídolos, haviam errado, haviam cometido funestos enganos – ao passo que nós, segunda e fácil dedução, os intelectuais dos anos 90 ali presentes, iríamos definir as únicas certezas realmente seguras, colocaríamos nos altares outros deuses, todos eles autênticos, e solenemente proclamaríamos que a partir desse dia só a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade, sairia das nossas, enfim, regeneradas bocas…

Dizia também o Documento Fundador, espécie de bússola desnorteada que apontava o rumo e as conclusões do debate antes mesmo de ele se ter realizado, que era já tempo de proceder a um esclarecimento teórico sobre o papel dos intelectuais e sobre a exacta natureza do seu compromisso. Uma tal confiança em si mesmos (estou a referir-me aos principais, senão os únicos, responsáveis pelo conteúdo e pelo estilo do Documento, isto é, Paz, Semprún e Vargas Llosa) não poderia deixar de provocar um reparo irónico: pelos vistos, aqueles escritores dos anos 30 não tinham a mínima ideia do que fosse «o papel dos intelectuais» nem a «exacta natureza do seu compromisso». No meu escrito, com falsa ingenuidade, perguntava-me então se um congresso de intelectuais e artistas que venha a reunir-se no ano de 2037, quem sabe se naquela mesma cidade de Valência, para debater, meio século depois, as razões e as sem-razões dos nossos compromissos de agora ou da ausência deles, se não estaria, esse congresso, obrigado a fazer um levantamento dos erros que estamos a cometer hoje nós próprios, dos ídolos falsos que andamos a cultivar, em suma, dos enganos, sem dúvida não menos perigosamente funestos, que neste mesmo minuto estamos praticando ou permitindo que se pratiquem, cada um de nós e todos juntos. Deste reparo não se deveria concluir, claro está, que tivessem de ser calados os actos malvados, os erros, as injustiças, os mil crimes, tudo mais do que abundantemente sangrento, que é parte do deve-haver dos anos 30, na Europa e no mundo. Mas nunca do ponto de vista, afinal também ele autoritário, de uns quantos intelectuais e artistas que a si mesmos se arvorassem em supremos juízes, supostamente possuidores do conhecimento total dos factos e das suas consequências históricas até ao fim dos tempos. Porque, queiramo-lo ou não, nós somos já parte culpada do nosso tempo, e, com congresso ou sem ele, seremos inevitavelmente julgados dessa culpa daqui a cinquenta anos. Ou no ano que vem. Ou sê-lo-íamos agora mesmo, se quiséssemos responder lealmente às interrogações da nossa consciência.

Muito mais sensato seria, sugeria eu, que examinássemos e corrigíssemos os erros que estivéssemos cometendo, sem esquecer nunca o que uma elementar sabedoria dos factos da vida nos devia ter ensinado já, isto é, que o erro é inseparável da acção justa, que a mentira é inseparável da verdade, que o ser humano é inseparável da sua negação. De facto, não sei por que maravilhosas razões poderiam aqueles intelectuais, contemporâneos meus, maravilhosamente reunidos em congresso na cidade de Valência e pontificando do alto de uma justiça maravilhosa e abstracta, definir, de uma vez para sempre, as verdades absolutas que os intelectuais dos anos 30 haviam estupidamente ignorado e que os intelectuais do século XXI e seguintes não iriam ter mais remédio que acatar obedientemente…

Ressalvando o respeito de princípio que devo às opiniões em contrário, parecia-me que, sem desprezar a necessidade de «um enfoque novo, pluralista, mas teoricamente coerente, das relações entre política e cultura, tecnologia e valores morais, ciência e complexidade, compromisso e solidão criadora», que o Documento Fundador preconizava – mas muito mais imperioso do que todas essas inegáveis urgências, seria o exame, tão objectivo e rigoroso quanto possível, da situação do mundo, e também do lugar, da parte, da culpa ou da responsabilidade que nela ou dela têm os intelectuais e artistas de hoje. Aqueles intelectuais e artistas dos anos 30 que participaram no Congresso de Valência não usaram de capciosos sofismas nem de outras bizantinas cautelas quando a sua consciência os determinou a apoiar a legalidade republicana espanhola e a defender a cultura ameaçada pelas obras nefastas da mentalidade fascista. As suas convicções arriscaram humanamente o erro, ao passo que isto que ainda nos resta das nossas, insípidas, inertes e inodoras, não alcançou mais que a reunir em Valência um congresso supostamente evocativo, mas claramente mal intencionado, a coberto de definir «espaços culturais» e de «fundar estratégias do fazer intelectual». Quanto melhor seria, escrevi então e ouso repeti-lo agora, que nos resolvêssemos a proclamar a necessidade de uma insurreição moral (digo moral, não digo moralista) dos intelectuais e dos artistas, sem distinção de objectos e de épocas, sem prévia hierarquização, tanto para condenar como para justificar, dos crimes cometidos, de todos sem excepção, e de quem os cometeu ontem ou estiver cometendo agora. Sob pena, seja-me desculpada a metáfora banal, de lançarmos fora a criança no mesmo movimento com que despejarmos a água suja do banho…

Se Bento de Jesus Caraça, cujos breves quarenta e sete anos de vida, mais do que o cinquentenário da morte, estamos a celebrar aqui, tivesse ido ler a Valência, em 1937, a sua conferência A Cultura lntegral do Indivíduo – Problema Central do Nosso Tempo, não tenho dúvida de que os três organizadores da reunião de 1987 o haveriam incluído no bando dos «sem-razão» que estavam decididos a exautorar. Diriam, por exemplo, que o problema central deste tempo em que estamos já não é a «cultura integral do indivíduo», mas a liberalização do comércio mundial. E teriam toda a razão ao dizê-lo: esse é, de facto, o problema central dos tempos de agora, precisamente porque representa uma ameaça mortal, não apenas ao que Bento Caraça designou por «cultura integral», mas à simples «cultura», sem mais adjectivos ou classificações. Todos sabemos que algumas das análises e previsões formuladas por Caraça na sua conferência de 1933 foram contrariadas pela brutalidade dos acontecimentos europeus e mundiais verificados nos sessenta e cinco anos que nos separam dela, todos sabemos que a possibilidade de uma «cultura integral do indivíduo» se afasta cada vez mais do que imaginámos ser o seu previsível horizonte, todos sabemos que a «alma colectiva das massas», que Bento de Jesus Caraça queria ver despertar, nem sempre é boa conselheira. De certo modo, ele já o estava admitindo quando escreveu: «Sei demasiado […] quanto são falíveis ainda os juízos mais prudentes, e, se não receio o erro, é só porque estou sempre pronto a corrigi-lo..» Magnífica lição, direi mesmo que a melhor de todas, porque essas palavras constituem, a meu ver, o núcleo mais fértil do seu discurso, aquele com que mais nos convém aprender. É ocioso dizer que Bento Caraça, hoje, escreveria diferentemente sobre o tema da «cultura integral do indivíduo», é até duvidoso, tendo em conta as circunstâncias actuais do mundo, que considerasse de utilidade abordá-lo, mas o que não é duvidoso nem ocioso é pensar que aquelas palavras – «Se não receio o erro, é só porque estou sempre pronto a corrigi-lo» – voltariam a acudir à sua mente e que as escreveria com a mesma profunda convicção. E talvez repetisse ainda, letra por letra, agora com mais motivos do que então poderia supor: «O poder revolucionário duma ideia mede-se […] pelo grau em que ela interpreta as aspirações gerais, dadas as circunstâncias do momento em que actua. Assim, uma ideia ou teoria que, em dada época, é revolucionária, pode, noutra em que as circunstâncias sejam diferentes, ter perdido por completo esse carácter.» O que Bento Caraça está a dizer aqui, se não interpreto mal as suas palavras, lembra singularmente a parábola do vinho e dos odres que se pode ler em S. Marcos: «Ninguém deita vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho acabará por romper os odres e perder-se-á o vinho juntamente com os odres. Mas o vinho novo deita-se em odres novos.» Tenho a certeza de que Bento Caraça, apesar de comunista, laico e republicano, não se importaria de subscrever estas palavras do evangelista. O vinho novo é a nova ideia que virá tomar o lugar da antiga, o odre novo é a consciência em que essa ideia se vai formando e que do mesmo passo é formada por ela. Quando «os interesses egoístas dos dirigentes se sobrepõem aos interesses gerais», diz Caraça, «dá-se um ancilosamento da classe dirigente; a doutrina ou teoria, em cujo nome antes lutara e vencera, perde o seu carácter revolucionário, torna-se, primeiro, conservadora, e mais tarde, quando os antagonismos são flagrantes e se trava a luta, reaccionária». São palavras sábias, estas. Quanto sofrimento físico, quanta dor moral, quantos desalentos e frustrações se teriam evitado se as tivéssemos recordado em alguns momentos da nossa história recente!… É que se é certo que as ideias, por serem ou para serem novas, não têm de aparecer necessariamente como contrárias ou inimigas das antigas, também as próprias ideias antigas deveriam ser capazes de gerar, a tempo, no seu interior, a semente do novo que lhes sustentaria a vida e prolongaria o espírito. É talvez uma questão de cultura, essa que para Bento de Jesus Caraça constituía o problema central do seu tempo, e, provavelmente com mais razão ainda, digo, do nosso. Quando Bento Caraça, à pergunta «O que é um homem culto?», responde: «É aquele que tem consciência da sua posição na sociedade a que pertence, aquele que tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano, aquele que faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida» – está a interpelar-nos directamente. Diga cada um de nós que parte tem e que lugar ocupa nesta definição, ou se, pelo contrário, nos estamos resignando a ser como aquela gente que Nietzsche satiriza, os que vão pela vida piscando os olhos uns aos outros, dando-se ares de entendidos, como quem acredita conhecer tudo só porque conhece o que lhe permitiram conhecer. É por isso que um conjunto de questões que terá começado por parecer limitado ao âmbito da cultura é, na realidade, em sentido absoluto, uma questão social. Velhos, muito velhos, antigos, muito antigos, são já Marx e Engels, e escreveram, em A Sagrada Família, as palavras que considero mais iluminadoras e para sempre novas de todo o materialismo histórico, estas que também poderiam ser um resumo do pensamento humanista de Bento de Jesus Caraça: «Se o homem é formado pelas circunstâncias, então será preciso formar as circunstâncias humanamente.»

Sabemos como o mundo inteiro anda a vestir o corpo com as mesmas roupas e a usar os mesmos conceitos para expressar os mesmos e cada vez mais repetitivos e monótonos circuitos mentais. No entanto, em áreas comunitárias europeias não oficialistas, por exemplo, para não irmos mais longe, começaram a manifestar-se, ainda de que uma maneira imprecisa, alguns sinais de preocupação. Começou a compreender-se, não só que os factores culturais têm sido sobranceiramente menosprezados, mas também que o próprio processo integrador que levou à União Europeia, pela sua irreflectida e suspeita precipitação, se converteu numa espécie de monstro voraz que parece comprazer-se com as sucessivas amputações do já de si exangue corpo das culturas e das identidades europeias. Parece pois que nada mais teremos que fazer na vida que não seja esperar as decisões que Bruxelas for preparando para nós, os rumos, os caminhos, as orientações, uns planos que não precisarão de ser «quinquenais» para serem igualmente rígidos, igualmente abusivos, arrumando-se de passagem todas as despiciendas mas teimosamente embaraçosas questões ideológicas, que, a acreditar nos arautos filosóficos e literários do neoliberalismo económico, foram a causa de todos os males da humanidade desde o pecado original.

Simplificando muito para esta ocasião, direi que se defrontam hoje na Europa dois campos de forças desiguais. Há o campo daqueles, de maior poder, e em maior número, que têm da cultura e para a cultura uma visão e um projecto meramente mercantilistas, como alguém que, tendo tido a incrível sorte de herdar espiritualmente Dante, Cervantes e Camões, só pensasse agora no modo mais fácil e lucrativo de convertê-los em boa moeda sonante, euros ou dólares, tanto faz. E há o campo dos outros, em tudo minoritário, o campo daqueles que não esqueceram nem querem que se esqueça a vocação criadora europeia, rica em invenções e experimentações, o campo dos que pensam que uma cultura condicionada e determinada pelas ferozes e exclusivas leis do mercado acabará fatalmente por entrar em rápido processo de decadência e estiolamento. Como parece evidente que já está a suceder diante dos nossos olhos e perante a nossa indiferença.

Dando expressão a estas inquietações, chegou a ser discutida há poucos anos, em alguns meios literários europeus, a necessidade de uma Europa refundada que afirmasse a sua paixão pelas diferenças culturais, uma Europa de culturas plurais e não de Estados forçadamente e falsamente unidos, uma Europa de pólos de intensidade e não de capitalidades culturais, uma Europa não centralizada, uma Europa descentrada, uma Europa cujo centro pudesse estar, ao mesmo tempo, em todos e cada um dos lugares da Europa. Se nestas ideias não havia o objectivo meramente táctico de oferecer aos descontentes algo com que se distraíssem enquanto a lógica implacável do mercado prosseguia o seu caminho, se essas ideias se tivessem transformado em passos efectivos para uma compreensão irradiante da Europa por si mesma e da sua relação cultural com o resto do mundo – então ainda seria possível, talvez, acreditar na viabilidade de uma Europa generosa e espiritualmente viva, cuja esperança de que algum dia venha a concretizar-se muitos de nós persistimos, contra ventos e marés, em guardar no coração. A responsabilidade dos dirigentes políticos comunitários não poderá limitar-se à ponderação e resolução mais ou menos afortunadas dos problemas políticos e económicos da Europa, ao mesmo tempo que as questões culturais e sociais lhes merecem uma atenção insignificante, se não preferirmos antes chamar-lhe, com muito mais realismo e verdade, desprezo.

Parecerá porventura estranho que, estando até aqui a falar de questões relacionadas com a cultura, tivesse passado quase sem transição às questões sociais. De facto, tenho de dizer que sempre me surpreendeu não encontrar qualquer referência à cultura, nem sequer de raspão, quando se fala ou escreve sobre o labiríntico conjunto das questões que costumamos designar por «sociais». Sabemos que desde há muito deixou de haver fronteiras entre uma política e uma economia que reciprocamente se contaminam e pervertem, que ao redor do mundo em que vivemos a Especulação paira sobre as nossas cabeças como antes se acreditava que o Espírito pairava sobre as águas, e não achamos nada estranho que assim seja. Porém, não parecemos dispostos a compreender que uma consideração realmente englobante e construtiva daquilo que em sentido amplo entendemos por «social» não será possível enquanto a dimensão cultural da existência humana não for inteiramente assumida em todas as suas consequências sociais. Não como um território à parte, com fronteiras, linhas defensivas, passaportes, alfândegas e pautas proteccionistas, mas como o tecido conjuntivo da identidade de cada pessoa na sua pertença a um grupo, a um país, a uma civilização. O que de imediato nos leva ao tema escaldante do nacionalismo, esse nacionalismo que certa curteza de vistas da Esquerda (tenhamos a coragem de o reconhecer de uma vez) abandonou às mãos da Direita, que dele se tem servido para os seus objectivos próprios de domínio e para as suas manipulações de consciências. Ora, se há na Europa uma questão que esteja a reclamar um trabalho urgente e profundo de revisão conceptual e prática, essa é exactamente o nacionalismo. E se algum dia, neste nosso perplexo continente, vierem a ressurgir – ou estarão ressurgindo já? – os conhecidos nacionalismos autoritários, intolerantes e xenófobos, bom será que nos interroguemos se a responsabilidade desse ressurgimento não a tivemos nós todos porque nos recusámos a reconhecer e a compreender o que a história nos mostrou mil vezes: a desesperada resistência daqueles que não querem morrer, a recusa de comunidades étnicas, linguísticas e culturais qualificadas a deixarem-se extinguir para benefício do maior número.

Aquela Europa de culturas plurais, aquela Europa descentrada, aquela Europa de diferenças, pela sua nova natureza, estaria obrigada a observar e respeitar uma relação de paridade operacional entre as suas diversas culturas componentes, todas elas, sem qualquer excepção. Teria de reconhecer o espaço próprio de cada uma como parceira de pleno direito, sem sujeição àquelas outras, mais privilegiadas, que, até hoje, por razões que foram (e continuam a ser) de ordem política e estratégica geral, se têm comportado como hegemonizantes, daí recolhendo toda a espécie de vantagens e lucros, incluindo os mais grosseiramente materiais, que qualquer tipo de domínio, desde a noite dos tempos, costuma conferir e facilitar. Uma Europa assim, termo próximo de um binómio complexo em que o outro termo seria o Universal, por sua vez diverso ele próprio, nunca poderia ser uma Europa dominada culturalmente por um ou dois dos seus países, e menos ainda por um país extracontinental. Essa Europa, finalmente rejuvenescida, seria a da pluralidade de culturas, a sonhada e desejada Europa sem centro, uma Europa não de consumidores e clientes, mas simplesmente de cidadãos, ou, mais simplesmente ainda, de pessoas. Sem excepções que matam nem hegemonias que assassinam – o que pressuporia, inevitavelmente, a necessidade de um entendimento também ele novo daquilo a que vimos chamando Democracia. Mas isso já seria assunto para outra conversa…

José Saramago

Pin It on Pinterest

Share This