Um novo livro de José Saramago volta a gerar polêmica

Um novo livro de José Saramago volta a gerar polémica. Ainda bem. O pior seria a indiferença. Refiro-me a “Caim”, que já li quase todo, no momento em que escrevo, e que me pareceu extremamente interessante, estimulante e útil, embora claro, com uma ponta de provocação, que o torna especialmente picante. A mim, obrigou-me a confrontá-lo com a leitura (parcial) da Bíblia, na nova edição muito cuidada do Circulo de Leitores, dita “para todos” e “edição literária”. De certo, para a tornar mais compreensível.

Tinha lido, aos saltos, a Bíblia – numa edição popular – há muitas décadas. Uma vez que estive preso no Forte de Caxias. Como estava isolado e não permitiam que recebesse livros, requeri à autoridade prisional, que me autorizasse receber a Bíblia, uma vez que um regime dito católico não podia negar a leitura da Bíblia a um português, portanto, de raiz cultural, em princípio, cristã.

Recebi a Bíblia. Mas, felizmente, para mim, não tive tempo de a ler toda. Longe disso: fui posto uma ou duas semanas depois em liberdade! Li, contudo, do Velho Testamento, o Génesis, cuja imagética me pareceu confusa e privada de qualquer racionalidade, à luz da Ciência, o Livro de Job, também estranho, no plano moral e alguns Provérbios. Nem todos, diga-se, edificantes. E o Novo Testamento, que me limitei a folhear, pareceu-me um livro diferente e sob muitos aspectos, contrário ao Velho Testamento…

Saramago fez a sua leitura pessoal da Bíblia, aliás, no “Evangelho segundo Jesus Cristo” tinha já feito o mesmo, com sucesso, embora provocando então reacções muito sectárias e, em si mesmo, inaceitáveis. Não estamos, como disse Saramago, no tempo da Inquisição… Agora a reacção oficial da Igreja foi bem mais contida e até cordata, suscitando – na televisão e nos jornais – debates estimulantes, que nos obrigam a reflectir. Como disseram um teólogo e um sacerdote, ambos bastante dialogantes e compreensivos.

Por mim, na medida do possível, dadas as minhas obrigações, vou acabar, com muito gosto, a leitura de Caim e voltarei à Bíblia e talvez também, se tiver tempo, ao Corão. Para que o quadro fique mais claro, para mim, visto que são leituras que me obrigam a reflectir. Sobretudo, sendo adepto de uma cultura de paz, preciso de compreender como tantas guerras tiveram – e têm – as suas origens nos sectários dos textos “sagrados” das diferentes religiões.

Quanto aos políticos e comentadores que atacaram Saramago, o melhor será ignorá-los. Parece que só pensam em promover-se à custa do Nobel. Como aquele Secretário de Estado, cujo nome não me recordo, que da outra vez, em circunstâncias análogas, também o atacou sem proveito para ninguém…

Isto é: suscitando um interesse que só fez que se vendesse mais o livro. Mas Saramago – convenhamos – não precisava dessa ajuda.

Mário Soares

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