Uma casa moderna para Saramago

O choque é imediato quando se entra pela porta da frente da Casa dos Bicos. Quem esperar uma sala forrada a tapeçarias, desengane-se. Aqui é-se recebido por uma enorme escadaria contemporânea. É ela o centro desta casa e o centro da obra de renovação. «Era a memória mais antiga da Casa dos Bicos», explica ao SOL o arquitecto Manuel Vicente, um dos responsáveis pelo projecto. «Havia várias passagens públicas na Muralha Fernandina. A escada era uma dessas passagens. É tão antiga que a Casa dos Bicos teve que se construir em seu redor».

De paredes cor-de-rosa e pretas, a Casa dos Bicos encheu-se de cor para receber Saramago. Com as obras de recuperação do espaço quase concluídas – depois de achados arqueológicos inesperados que as atrasaram mais de um ano – a Fundação Saramago (FS) já está instalada na frente ribeirinha, a desempacotar e a organizar o espólio do Nobel português. Pilar del Río, viúva do escritor e presidenta da FS, não arrisca avançar uma data para a abertura ao público, garantindo apenas que será nesta Primavera. Mas franqueou as portas da Casa dos Bicos ao SOL.

Ver passar os barcos

Por trás da fachada de bicos e arcos manuelinos escondem-se quatro andares de arquitectura contemporânea, uma obra assinada por Manuel Vicente (que já tinha sido responsável pelo projecto de modernização do espaço em 1983, para a XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura) e João Santa-Rita (filho de José Santa-Rita, que assinou com Manuel Vicente o projecto em 1983).

À volta da escadaria, no piso térreo, estão os vestígios arqueológicos ali encontrados, que vão poder ser visitados pelo público, num centro de interpretação das muralhas, gerido pela Câmara Municipal de Lisboa. O resto do edifício ficará para a FS. O primeiro andar é um espaço expositivo, branco, de estrutura circular, que vai receber mostras relacionadas com o escritor (a primeira será uma antológica). No segundo andar estão os serviços administrativos, com escritórios e sala de reuniões.

É neste piso o gabinete de Pilar, que seria o de Saramago, se o escritor fosse vivo. Tem uma grande janela, da qual se pode ver o Tejo. «Ele dizia: ‘Eu vou ver os barcos passar’», conta Pilar, olhando pela janela, para a frente da casa, onde, ao lado de uma azinheira, sob a qual descansam os restos mortais de Saramago, está um banco. «Quando Manuel Vicente disse: ‘Então Saramago não vai ver os barcos passar no rio’, pensei que outros os podiam ver por ele. As pessoas sentam-se ali a ver passar os barcos». É uma das formas de manter o escritor vivo.

Não é a única: no terceiro piso está a biblioteca, onde estudiosos da obra de Saramago vão poder encontrar o seu espólio, com os originais, os livros em várias edições e traduções, os livros que o formaram, textos da juventude, correspondência e diversos documentos. E, no quarto piso, um auditório com capacidade para mais de 60 pessoas pretende dar vida ao espaço através de actividades constantes, desde lançamentos de livros a debates e projecção de filmes.

Saramago, de capacete na cabeça, chegou a passear pela casa em obras, com o chão levantado. Imaginou onde ficariam os livros, os gabinetes. Estava feliz. «Disse que a um escritor pode sempre calhar o Prémio Nobel e que isso é uma honra. Mas que jamais pensou poder vir para a Casa dos Bicos, que para ele era uma satisfação ainda maior que o Nobel», lembra Pilar.

Uma casa canibalizada

Não foi fácil instalar aqui a fundação. Menos de 30 anos depois da sua intervenção, Manuel Vicente mal podia imaginar o estado em que ia encontrar a Casa dos Bicos (que albergou a Comissão para os Descobrimentos até 2002). «Tinha sido muito vandalizada. Foi preciso demolir muita coisa. Parecia que tinha tido uma ocupação selvagem», diz o arquitecto ao SOL. «As pessoas são muito indisciplinadas. Chama-se o homem da marquise de alumínio e faz-se um gabinete. A Casa dos Bicos foi tratada dessa forma. Tinha um ar canibalizado».

Pilar esclarece: «As obras não têm nada a ver com o projecto Fundação Saramago. A casa, que é património municipal, estava a cair, requeria essas obras». A renovação foi assegurada pela Câmara. Agora, cabe à FS torná-la um organismo vivo da cidade, seja através das várias actividades que ali se vão desenvolver, seja através do ‘recheio’. E, salienta Pilar, a cidade não vai pagar pelo património que aqui vai encontrar. «Tem tanto valor que não tem preço. E vem para aqui».

O que vai ser então este espaço? «Além do lugar onde está Saramago e toda a sua obra, será um centro de vida cultural e de debate cívico. Um centro de vida. Saramago escrevia para desassossegar. Pretende-se que este seja um centro de desassossego».

Por enquanto falta consolidar a obra e toda a parte do achamento arqueológico. E depois há que receber o espólio, que virá de Lanzarote. «Serão anos a trabalhar no espólio – ainda se está a trabalhar no de Pessoa, que escreveu menos…», comenta Pilar.

É, pois, no Campo das Cebolas, na frente ribeirinha de Lisboa, que a vida do escritor se vai prolongar, não se sabendo, no entanto, por quanto tempo. A Casa dos Bicos foi cedida à FS, em 2008, por um período de 10 anos. Já passaram quatro. «Se a cidade, daqui a seis anos, quiser pôr fora o espólio de Saramago, que ponha. Está no seu direito», diz Pilar, despreocupada com o futuro: «Estamos aqui. Por quanto tempo? Amanhã vem um tsunami e ficamos fora. Não falo de anos, nem de meses. A casa de Saramago está em Lanzarote, aberta para visita pública. O que [Saramago] construiu e levantou do chão está aqui».

Rita Silva Freire
Sol

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