Uma rainha no Alentejo

(Publicado em O Jornal – 04-Abril-1985)

Não sou especialmente curioso de vidas alheias. Mesmo o meu trabalho de romancista, quando se trate de pôr a mexer personagens com lógica e coerência bastantes, vai muito mais por adivinhação ou presunção do que por directo decalque de experiências observadas. E sou avesso a confidências, tanto na modalidade de fazê-las como de recebê-las: se passam de nós para outros, não aliviamos a carga que nos pesa, e cada segredo alheio que nos é confiado entretece de nós cegos os nossos próprios, segredos sejam ou nós apertem. Posto isto, que é o geral do meu comportamento, admito excepções, e duma delas venho precisamente falar hoje: a viagem de Isabel II ao Alentejo.

Teria dado alguma coisa do que não me faz falta para assistir ao acerto do programa da real visita: o mapa de Portugal (isto é um supor) estendido sobre a mesa, ao redor os representantes dos protocolos, o debate de propostas e sugestões, a ponderação dos índices de popularidade, os dispositivos e as exigências da segurança, os horários, a extensão das passadeiras, as condecorações, os mil e tal contos para as flores do Teatro D. Maria, o número de embarcações que haveriam de desfilar no Douro apitando muito – e, depois de mil consultas, a aprovação final do itinerário. Que, veio a saber-se, incluía Évora, e esse é o meu espanto: digo que é, porque dele anda não saí.

Afinal, nós vivemos em Portugal, ou quê? Pois não é certo que os nossos governantes aborrecem de alma e coração a terra alentejana, que ela só lhes tem dado preocupações e insónias, incluindo a do remorso quando lhes assalta a mente fatigada a lembrança de alguns mortos e muitos espancados? Então, sendo assim, que prazer masoquista foi esse de viajar e fazer viajar até às escaldantes planícies onde, a par de bandeiras nacionais, e outras partidárias, se têm hasteado as bandeiras negras, que são de fome e sofrimento? Deveremos entender esta viagem como um primeiro sinal dos arrependimentos do Governo? Estará para vir a felicidade, o desbloqueamanto da barragem de Alqueva, o cumprimento enfim das sentenças judiciais que mandaram restituir terras às cooperativas, o acerto honrado de contas em atraso, a redefinição de Sines como factor de desenvolvimento posto ao serviço da grande região transtagana? Teria o Governo escolhido a ilustre visitante para testemunha qualificada do advento de novos tempos?

São perguntas loucas, já sei. Tanto quanto depender do Governo, o que foi, continuará a ser: os paredões de Alqueva acabarão por cair de velhos, as sentenças acumularão pó, bolor e teias de aranha, às cooperativas não se pagará o que lhes é devido, Sines crescerá como um gigante trôpego enquanto a CEE não lhe achar proveito (a hipótese é minha) ou a NATO serventia (agora me veio este pressentimento), e da rainha Isabel II, lá aonde foi, poderemos dizer, parafraseando o poeta: no Alentejo tu não viste nada. Viu, sim, o ritual da coroação de Henrique VI de Inglaterra, viu os paramentos ingleses do século XVI que foram de Portalegre, viu os cavalos de Alter do Chão. Viu portanto pouco, é nada o que viu se compararmos ao que poderia ter visto: por exemplo, a mareação de uma reserva ilegal, com prévio desfile das forças da Guarda Nacional Republicana, os homens armados, os cães pela trela, o automóvel do reservatório a fechar a parada, levando dentro o funcionário encarregado de escriturar o termo, ou acta, ou lá como lhe chamam, um papel que, ao contrário daqueles em que foi escrita a sentença dos tribunais, não terá tempo de amarelecer em vão. E, resistindo os trabalhadores ao esbulho, a carga sempre gloriosa da brigada ligeira, o desbarato das hostes rurais e desarmadas, o triunfo da Autoridade e da Propriedade.

Acaso Isabel II mostraria no fatigado olhar alguma tristeza se, entre os números do programa alentejano, lhe mostrassem o quadro desolador das terras abandonadas e invadidas pelos matos, as árvores arrancadas, as águas perdidas, os rostos carregados de homens e de mulheres que nem mesmo a visita duma rainha pôde fazer sorrir. E sendo pessoa bem preparada para a real profissão, conhecedora competente da história do seu país, talvez lhe acudissem à memória paralelos históricos inoportunos, incómodos para quem de visita está e há-de mostrar boa cara a tudo o que vê, por exigência do protocolo. Talvez então se lembrasse da Irlanda, do longo calvário irlandês, tão longo que passou de duzentos anos a sua duração, os camponeses condenados à miséria, à fome, à emigração, forçados pela violência a deixar as terras de que eram simples rendeiros, uma história shakespeareana de ruído e de furor, feita de matanças, deportações em massa, confiscações de bens, tudo caldeado de intolerância religiosa. Não chegámos a tanto no Alentejo, a Deus graças, mas não saberemos aonde realmente chegámos enquanto lá não formos perguntar. Com os nossos governantes não contemos: os olhos não lhes servem para ver, os ouvidos não lhes servem para ouvir, a boca para alguma coisa lhes servirá, mas, dez anos passados a ouvi-los eu, ainda não sei para que lhes serve.

Repito: apesar de tão pouco curioso de vidas alheias, gostaria de ter estado nas conversações para a visita de Isabel II a Portugal. É que não consigo perceber por que foi que levaram a rainha de Inglaterra a Évora. Documentos antigos, paramentos e cavalos não faltariam noutros lugares. Mas no Alentejo havia mais para ver, e ela não viu. Nem tinha obrigação. Quem a tem?

José Saramago

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