Umberto Eco escreve sobre “O Caderno”

Um Blogger chamado Saramago
 
Curiosa personagem, este Saramago. Tem oitenta e sete anos e (diz ele) alguns achaques, ganhou o Nobel, distinção que lhe permitiria nunca mais produzir nada porque seja como for já tem no Panteão o seu lugar garantido (o avaríssimo Harold Bloom definiu-o «o romancista mais dotado de talento ainda em vida… um dos últimos titãs de um género literário em vias de extinção»), eis que aparece a manter um blog onde se mete um pouco com toda a gente, atraindo sobre a sua pessoa polémicas e excomunhões vindas de muitos lados – mais frequentemente não por dizer coisas que não deve dizer, mas porque não perde tempo a medir as palavras – e talvez o faça mesmo de propósito.
 
fjsO quê, ele? Ele que cuida da pontuação ao ponto de a fazer desaparecer, que na sua crítica moral e social nunca leva o problema a peito, mas poeticamente o contorna nos modos do fantástico e do alegórico, de modo que o seu leitor (embora suspeitando que de te fabula narratur) terá de pôr muito de si para compreender até onde vai parar o apólogo – como no seu Ensaio sobre a Cegueira – faz viajar o leitor numa névoa leitosa em que nem sequer os nomes próprios, de que é bastante parco, dão um sinal claramente reconhecível, ele que no Ensaio sobre a Lucidez faz uma opção política decidida com base em enigmáticos votos em branco? E este escritor fantasioso e metafórico vem dizer-nos despreocupadamente que Bush é de «uma ignorância abissal, e uma expressão verbal confusa perenemente atraída pela irresistível tentação do puro despropósito», cowboy que confundiu o mundo com uma manada de vacas, que não sabemos sequer se pensa (no sentido nobre da palavra), robot mal programado que constantemente mistura mensagens que tem registadas lá dentro, mentiroso compulsivo, corifeu de todos os outros mentirosos que o aplaudiram e serviram nos últimos anos? E este delicado tecelão de parábolas usa palavras que não deixam margem para dúvidas quando define o dono da editora que o publica? E este ateu manifesto, para quem Deus é «o silêncio do universo e o homem o grito que dá sentido a este silêncio», repõe Deus em cena para se interrogar sobre o que pensa Ratzinger? E, militante comunista (ainda tenazmente) põe-se a gritar que «a esquerda não tem uma puta ideia do mundo em que vive», e ainda por cima se queixa de não ter tido resposta (sei lá, uma expulsão, uma excomunhão ao menos)? E arrisca-se à acusação de anti-semitismo por ter criticado a política do governo de Israel simplesmente esquecendo-se, na sua irada participação nas desventuras palestinas, de se lembrar – como uma equilibrada análise pretenderia – que há quem negue o direito à existência de Israel? Mas ninguém leva em conta que quando fala de Israel Saramago pensa em Jahvé, «Deus feroz e rancoroso», e neste sentido não é mais anti-semita do que é anti-ariano e certamente anticristão, dado que para todas as religiões procura ajustar contas com Deus – que evidentemente, chame-se como se chamar nas várias línguas, não cessa de o importunar. E ser importunado por Deus é certamente motivo de ira furibunda contra todos os que dele fazem armadura.
 
Se tivesse sempre em conta os prós e os contras, Saramago também saberia que há inventivas e inventivas. Cito (de cor) Borges que citava (talvez de cor) o doutor Johnson que citava o facto daquele tal que insultava assim o seu adversário: «Senhor, a vossa mulher, com a desculpa de ter um bordel, vende tecidos de contrabando». E afinal Saramago não faz cerimónias, ou seja, não o manda dizer por outro e, na sua actividade de comentador diário da realidade que o rodeia, tira a desforra sobre toda a imprecisão sinistra das suas fábulas.
 
Tem se falado muito do ateísmo militante de Saramago. Com efeito, a sua polémica não é contra Deus: uma vez admitindo que «a sua eternidade é só a de um eterno não-ser», Saramago poderia estar sossegado. A sua aversão é contra as religiões (e é por isso que o atacam de vários lados, negar Deus é concedido a todos, enquanto polemizar com as religiões põe em causa as estruturas sociais).
 
Uma vez, precisamente estimulado por uma das intervenções anti-religiosas de Saramago, reflecti sobre a célebre definição de Marx para quem a religião é o ópio dos povos. Mas é verdade que as religiões têm sempre todas esta virtude soporífera? Saramago várias vezes tem atacado as religiões como fontes de conflito: «As religiões, todas elas, sem excepção, nunca servirão para aproximar e reconciliar os homens; pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos indescritíveis, de chacinas, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da mísera história humana» (la Repubblica, 20 de Setembro de 2001).
 
Saramago concluía algures que «se fôssemos todos ateus viveríamos numa sociedade mais pacífica». Não tenho a certeza de que tivesse razão, e parece que indirectamente lhe teria respondido o papa Ratzinger na sua encíclica Spe salvi onde dizia que é o ateísmo dos séculos XIX e XX, se bem que se tenha apresentado como protesto contra as injustiças do mundo e da história universal, que fez que «de tal premissa tenham resultado as maiores crueldades e violações da justiça».
 
Talvez Ratzinger pensasse naqueles sandeus de Lénine e Estaline, mas esquecia-se que nas bandeiras nazis estava escrito Gott mit uns (que significa «Deus está connosco»), que falanges de capelães militares benzeram os arruaceiros fascistas, que inspirado em princípios religiosíssimos e apoiado por Guerrilheiros do Cristo Rei era o massacrador Francisco Franco (independentemente dos crimes dos adversários, foi sempre ele que começou), que religiosíssimos eram os Vandeanos contra os Republicanos que até tinham inventado uma Deusa Razão, que católicos e protestantes se massacraram alegremente durante anos e anos, que tanto os Cruzados como os seus inimigos eram impelidos por motivações religiosas, que para defender a religião romana se puseram os leões a comer os cristãos, que por razões religiosas se acenderam inúmeras fogueiras, que religiosíssimos são os fundamentalistas muçulmanos, os autores do atentado das Twin Towers, Osama e os talibãs que bombardearam os Budas, que por razões religiosas se opõem a Índia e o Paquistão, e por fim que foi a invocar God bless America que Bush invadiu o Iraque.
 
Por isso me punha a reflectir que talvez (se por vezes a religião é ou foi o ópio dos povos) com maior frequência tem sido a sua cocaína. Creio que esta é também a opinião de Saramago e ofereço-lhe a definição – e a sua responsabilidade. Saramago blogger é um zangado. Mas haverá realmente um hiato entre esta prática de indignação diária sobre o transeunte e a actividade de escrita de «opúsculos morais» válidos tanto para os tempos passados como para os futuros? Escrevo este prefácio porque sinto ter alguma experiência em comum com o amigo Saramago, que é a de escrever livros (por um lado) e por outro a de nos ocuparmos de crítica de costumes num semanário. Sendo o segundo tipo de escrita mais claro e divulgador que o outro, muita gente me tem perguntado se eu não despejaria nas pequenas peças periódicas reflexões mais amplas feitas nos livros maiores. Não, respondo eu, ensina-me a experiência (mas creio que o ensina a todos os que se encontrarem em situação análoga) que é o impulso de irritação, a dica satírica, a chicotada crítica escrita à pressa, que fornecerá a seguir o material para uma reflexão ensaística ou narrativa mais desenvolvida. É a escrita diária que inspira as obras de maior empenho, e não o contrário.
 
E pronto, eu diria que nestes breves escritos Saramago continua a fazer a experiência do mundo tal como desgraçadamente ele é, para depois o rever a uma distância mais serena, sob a forma de moralidade poética (e às vezes pior do que é – embora pareça impossível ir mais longe).
 
Mas depois, estará realmente sempre assim tão zangado este mestre da filípica e da catilinária? Parece-me que além da gente que ele odeia também existe a gente que ele ama, e eis as peças afectuosas dedicadas a Pessoa (não se é português em vão) ou a Jorge Amado, a Carlos Fuentes, a Federigo Mayor, a Chico Buarque de Hollanda, que nos mostram que este escritor é pouco invejoso dos colegas e sabe tecer-lhes delicadas e ternas miniaturas.
 
Para não falar (e eis o retorno aos grandes temas da sua narrativa) de quando da análise do quotidiano salta para os grandes problemas metafísicos, para a realidade e a aparência, para a natureza da esperança, para como são as coisas quando não estamos a olhar para elas.
 
Então volta à cena o Saramago filósofo-narrador, já não zangado mas meditativo e incerto. Contudo não nos desagrada mesmo quando se enfurece. É simpático.
 
Umberto Eco
 
Tradução de José Colaço Barreiros
 
La Repubblica, 25/09/09 
 
Em Espanhol: 
 
Un “Bloguero” llamado Saramago
 

 

Curioso personaje este Saramago. Tiene 87 años y (según dice) algunos achaques, ha ganado el premio Nobel, distinción que le permitiría no volver a producir nada porque, total, en el Panteón va a entrar en cualquier caso (el muy tacaño Harold Bloom lo ha definido como “el novelista más dotado de talento de los que siguen con vida… uno de los últimos titanes de un género en vías de extinción”), y le vemos escribiendo un blog en el que la toma con todo el mundo en general, atrayéndose polémicas y excomuniones de muchos sitios -a menudo no porque diga cosas que no deba decir, sino porque no pierde el tiempo en medir sus términos- y tal vez lo haga a propósito.
 
Pero ¿precisamente él? ¿Él, que cuida la puntuación hasta el extremo de hacer que desaparezca, que en su crítica moral y social no afronta jamás los problemas de frente sino que los rodea poéticamente bajo las formas de lo fantástico y lo alegórico, de modo que su lector debe poner algo de su parte para entender adónde quiere ir a parar; él, que -como en su Ceguera- hace que el lector viaje en una niebla láctea en la que ni siquiera los nombres propios, en los que tan parco es, dan una señal claramente reconocible; él, que en Ensayo sobre la lucidez efectúa una decidida elección política basándose en enigmáticas papeletas blancas? ¿Y este escritor fantasioso y metafórico viene a decirnos que Bush es de “una ignorancia abismal, de una expresión verbal confusa perennemente atraída por la irresistible tentación del puro despropósito”, un cowboy que ha confundido el mundo con una manada de bueyes, un robot mal programado que confunde constantemente los mensajes que ha grabado en su interior, un mentiroso compulsivo, corifeo de todos los demás mentirosos que le han aplaudido y servido en los últimos años? ¿Y es este delicado tejedor de parábolas el que emplea palabras que no dejan lugar a la duda cuando define al propietario de la editorial que lo publica en Italia? ¿Y es ese ateo manifiesto, para quien Dios es “el silencio del universo y el hombre el grito que da sentido a ese silencio”, el que saca otra vez a escena a Dios con tal de preguntarse qué pensará de Ratzinger? ¿Y quien, militante comunista (tenazmente aún), no duda en gritar que “la izquierda no tiene ni la más mísera idea del mundo en el que vive”? ¿Y quien se arriesga a una acusación de antisemitismo por haber criticado la política del Gobierno de Israel, olvidándose sin más, al sentirse tan airadamente partícipe en las desventuras palestinas, de recordar que no falta quien niegue el derecho a la existencia de Israel? Nadie tiene en cuenta, sin embargo, que cuando habla de Israel Saramago está pensando en Yahvé, “dios rencoroso y feroz”, y en tal sentido no resulta más antisemita que anticristiano, dado que para cada religión intenta arreglar sus propias cuentas con Dios -que se llame como se llame en los distintos idiomas, le cae rematadamente mal-. Y que a uno le caiga mal Dios es sin duda motivo de ira furibunda contra todos aquellos que de él se sirven como escudo.
Si tuviera siempre en cuenta los pros y los contras, Saramago sabría también que hay maneras y maneras incluso en la invectiva. Cito (de memoria) a Borges que citaba (de memoria tal vez) al doctor Johnson que citaba el caso de un fulano que insultaba de esta manera a su adversario: “Señor, vuestra esposa, con el pretexto de que regenta un burdel, vende telas de contrabando”. Saramago, por el contrario, no se anda con tantos cumplidos, es decir, dejándose de rodeos, en su actividad de comentarista cotidiano de la realidad que le circunda se toma la revancha de toda la vaguedad oblicua de sus fabulaciones.
Se ha hablado del ateísmo militante de Saramago. En efecto, sus polémicas no se dirigen contra Dios: una vez admitido que su “eternidad es sólo la de un eterno no ser”, Saramago podría haberse quedado tranquilo. Su hastío se dirige contra las religiones (y por esa razón le atacan desde distintos frentes: negar a Dios es algo que se le concede a todo el mundo, polemizar con las religiones pone en discusión las estructuras sociales). En una ocasión, estimulado por una de las intervenciones antirreligiosas de Saramago, reflexioné sobre la célebre definición marxista según la cual la religión es el opio del pueblo. ¿Sería verdad que todas las religiones poseen esa virtus adormecedora? Saramago ha azotado a las religiones como germen de conflictos: “Las religiones, todas sin excepción, no servirán nunca para acercar y reconciliar a los hombres; todo lo contrario, han sido y siguen siendo causa de sufrimientos inenarrables, de matanzas, de una monstruosa violencia física y espiritual que constituyen uno de los más tenebrosos capítulos de la mísera historia humana” (La Repubblica, 20 de septiembre de 2001).
Saramago concluía en otra parte que “si todos fuéramos ateos, viviríamos en una sociedad más pacífica”. No estoy seguro de que tenga razón, y parece como si indirectamente le hubiera contestado el papa Ratzinger en su encíclica Spe salvi, donde decía que es el ateísmo de los siglos XIX y XX el que ha provocado que “de tales premisas se hayan derivado las mayores crueldades y violaciones de la justicia”.
Tal vez estuviera pensando Ratzinger en gente descreída como Lenin y Stalin, pero se olvidaba de que en las banderas nazis aparecía escrito Gott mit uns (que significa “Dios está con nosotros”), que falanges de capellanes militares bendecían los gallardetes fascistas, que se inspiraba en principios religiosísimos y se apoyaba en los Guerrilleros de Cristo Rey un culpable de tantas masacres como Francisco Franco, que religiosísimos eran los vendeanos en su lucha contra los republicanos, que católicos y protestantes se han masacrado alegremente durante años y años, que tanto los cruzados como sus enemigos estaban impulsados por motivos religiosos, que por razones religiosas se han encendido muchas hogueras, que religiosísimos son los fundamentalistas musulmanes, los terroristas de las Torres Gemelas, Osama y los talibanes, que son razones religiosas las que oponen a la India y Pakistán, y, para terminar, que fue al grito de God bless America como Bush invadió Irak.
Por todo ello se me ocurre la reflexión de que si tal vez la religión en ocasiones es o ha sido el opio del pueblo, más a menudo ha sido su cocaína. Creo que ésa es también la opinión de Saramago.
Escribo este prólogo porque creo tener una experiencia en común con el amigo Saramago, que es la de escribir libros (por un lado) y tener a mi cargo (por otro) una columna de crítica de costumbres en un semanario. Al ser este segundo tipo de escritura más claro y divulgativo que el primero, son muchos quienes me preguntan si lo que hago es trasvasar a esas breves piezas periodísticas reflexiones más ampliamente desarrolladas en los libros mayores. Qué va, contesto, es la reacción irritada, el impulso que lleva a la sátira, la estocada crítica escrita al hilo de la actualidad lo que proporciona más adelante el material para una reflexión ensayística o narrativa más extensa. Es la escritura cotidiana la que inspira las obras de mayor empeño, y no al contrario.
Y por eso yo diría que en sus breves escritos Saramago sigue alimentando su experiencia del mundo tal como desgraciadamente es, para revisarlo posteriormente con más serena distancia sub specie de moralidad poética. Y además, ¿realmente se muestra siempre tan airado este maestro de la filípica y de la catilinaria? Me da la impresión de que junto a la gente a la que odia está también la gente a la que ama, y así hallamos piezas afectuosas dedicadas a Pessoa (no es uno portugués en vano), o a Amado, a Fuentes, a Federico Mayor, a Chico Buarque de Hollanda, que nos demuestran lo poco envidioso que es este escritor y cómo sabe trazar de todos ellos delicadas y tiernas miniaturas.
Por no hablar de cuando el análisis de la actualidad roza temas (y aquí estamos de vuelta a los mayores asuntos de su narrativa) como los grandes problemas metafísicos, la realidad y la apariencia, la naturaleza de la esperanza, cómo son las cosas cuando no las estamos mirando. Y vuelve a escena el Saramago filósofo-narrador, ya no irritado sino meditabundo, e inseguro. Con todo, no nos disgusta tampoco cuando se enfurece. Resulta de lo más simpático.

 

Umberto Eco 

Traducción de Carlos Gumpert 

La Repubblica, 25/09/09 

 Em Italiano:

Un Blogger di nome Saramago 

Curioso personaggio questo Saramago. Ha ottantasette anni e (dice lui) qualche acciacco, ha vinto il Nobel, distinzione che gli permetterebbe di non produrre più nulla perché tanto nel pantheon c’ entra in ogni caso (il tignosissimo Harold Bloom lo ha definito «il romanziere maggiormente dotato di talento ancora in vita… uno degli ultimi titani di un genere letterario in via di estinzione»), ed eccolo a tenere un blog dove se la prende un poco con tutti, attirandosi polemiche e scomuniche da molte parti più spesso non perché dica cose che non deve dire, ma perché non perde tempo a misurare i termini – e forse lo fa proprio apposta.

Ma come, lui? Lui che cura la punteggiatura al punto da farla sparire, che nella sua critica morale e sociale non prende mai il problema di petto ma poeticamente lo aggira nei modi del fantastico e dell’ allegorico, così che il suo lettore (pur sospettando che de te fabula narratur) deve metterci del proprio per capire dove l’ apologo vada a parare, lui che – come nel suo Cecità – fa viaggiare il lettore in una nebbia lattea in cui nemmeno i nomi propri, di cui è assai parco, danno un segnale chiaramente riconoscibile, lui che in Saggio sulla lucidità fa una scelta politica decisa in base a enigmatiche schede bianche? E questo scrittore fantasioso e metaforico ci viene a dire con nonchalance che Bush è di «ignoranza abissale, espressione verbale confusa perennemente attratta dall’ irresistibile tentazione del puro sproposito», cowboy che ha scambiato il mondo per una mandria di buoi, che non sappiamo neppure se pensa (nel senso nobile della parola), robot mal programmato che costantemente confondei messaggi che ha registrati dentro, bugiardo compulsivo, corifeo di tutti gli altri bugiardi che lo hanno applaudito e servito negli ultimi anni? E questo delicato tessitore di parabole usa parole che non lasciano adito a dubbi quando definisce il proprietario della casa editrice che lo pubblica? E questo ateo manifesto, per cui Dio è «il silenzio dell’ universo e l’ uomo il grido che dà senso a questo silenzio», rimette in scena Dio pur di chiedersi che cosa pensa di Ratzinger? E, militante comunista (tenacemente ancora) si mette a gridare che «la sinistra non ha la più schifosa idea del mondo in cui vive», e per giunta si lamenta di non aver avuto riscontro (che so, un’ espulsione, una scomunica almeno)? E rischia l’ accusa di antisemitismo per aver criticato la politica del governo di Israele semplicemente dimenticandosi, nella sua adirata partecipazione alle sventure palestinesi, di ricordare – come una equilibrata analisi vorrebbe che c’ è qualcuno che nega il diritto all’ esistenza di Israele? Ma nessuno tiene conto che quando parla di Israele Saramago pensa a Iahvé, «dio astioso e feroce», e in questo senso non è più antisemita di quanto non sia antiariano e certamente anticristiano, dato che per ogni religione cerca di regolare i propri conti con Dio – che evidentemente, si chiami come si chiama in varie lingue, gli sta sulle scatole. E avere Dio sulle scatole è certamente motivo di ira furibonda contro tutti coloro che se ne fanno usbergo.

Se tenesse conto sempre dei pro e dei contro Saramago saprebbe pure che c’ è modo e modo anche nell’ invettiva. Cito (a memoria) Borges che citava (forse a memoria) il dottor Johnson che citava il fatto di quel tale che così insultava il proprio avversario: «Signore, vostra moglie, col pretesto di tenere un bordello, vende stoffe di contrabbando». E invece Saramago non fa complimenti, ovvero non la manda a dire e, nella sua attività di commentatore quotidiano della realtà che lo circonda, si prende la rivincita su tutta la vaghezza sinistra delle sue favole.

Si è detto dell’ ateismo militante di Saramago. In effetti la sua polemica non è contro Dio: una volta ammesso che «la sua eternità è solo quella di un eterno non essere», Saramago potrebbe starsene tranquillo. Il suo astio è verso le religioni (ed è per questo che lo attaccano da varie parti, negare Dio è concesso a tutti, polemizzare con le religioni mette in questione le strutture sociali).

Una volta, proprio stimolato da uno degli interventi antireligiosi di Saramago, avevo riflettuto sulla celebre definizione marxiana per cui la religione è l’ oppio dei popoli. Ma è vero che le religioni hanno tutte e sempre questa virtus dormitiva? Saramago a più riprese si è scagliato contro le religioni come fomite di conflitto: «Le religioni, tutte, senza eccezione, non serviranno mai per avvicinare e riconciliare gli uomini e, al contrario, sono state e continuano a essere causa di sofferenze inenarrabili, di stragi, di mostruose violenze fisiche e spirituali che costituiscono uno dei più tenebrosi capitoli della misera storia umana» (la Repubblica, 20 settembre 2001).

Saramago concludeva altrove che «se tutti fossimo atei vivremmo in una società più pacifica». Non sono sicuro che avesse ragione,e sembra che indirettamente gli avesse risposto papa Ratzinger nella sua enciclica Spe salvi dove diceva che è l’ ateismo del XIX e del XX secolo, anche se si è presentato come protesta contro le ingiustizie del mondo e della storia universale, che ha fatto sì che «da tale premessa siano conseguite le più grandi crudeltà e violazioni della giustizia».

Forse Ratzinger pensava a quei senzadio di Lenin e Stalin, ma dimenticava che sulle bandiere naziste stava scritto Gott mit uns (che significa «Dio è con noi»), che falangi di cappellani militari benedicevano i gagliardetti fascisti, che ispirato a principi religiosissimie sostenuto da Guerriglieri di Cristo Re era il massacratore Francisco Franco (a parte i crimini degli avversari, è pur sempre lui che ha cominciato), che religiosissimi erano i vandeani contro i repubblicani che avevano pure inventato una Dea Ragione, che cattolici e protestanti si sono allegramente massacrati per anni e anni, che sia i crociati che i loro nemici erano spinti da motivazioni religiose, che per difendere la religione romana si facevano mangiare i cristiani dai leoni, che per ragioni religiose sono stati accesi molti roghi, che religiosissimi sono i fondamentalisti musulmani, gli attentatori delle Twin Towers, Osama e i talebani che bombardavano i Buddha, che per ragioni religiose si oppongono India e Pakistan, e che infine è invocando God bless America che Bush ha invaso l’ Iraq.

Per cui mi veniva da riflettere che forse (se talora la religione è o è stata l’ oppio dei popoli) più spesso ne è stata la cocaina. Credo che anche questa sia l’ opinione di Saramago e gli regalo la definizione – e la sua responsabilità. Saramago blogger è un arrabbiato. Ma davvero c’ è uno iato tra questa pratica di indignazione quotidiana sul transeunte e l’ attività di scrittura di «operette morali» valide e per i tempi passati e i futuri? Scrivo questa prefazione perché sento di aver una esperienza in comune con l’ amico Saramago, ed è quella di scrivere libri (da un lato) e dall’ altro di occuparsi di critica di costume su un settimanale. Essendo il secondo tipo di scrittura più chiaro e divulgativo dell’ altro, molti mi hanno chiesto se non travasassi nei piccoli pezzi periodici riflessioni più ampie fatte nei libri maggiori. Ma no, rispondo, l’ esperienza mi insegna (ma credo insegni a chiunque si trovi in situazione analoga) che è lo scatto di irritazione, lo spunto satirico, la staffilata critica scritta a tambur battente che fornirà in seguito materiale per una riflessione saggistica o narrativa più distesa. È la scrittura quotidiana che ispira le opere di maggior impegno, non il contrario.

Ed ecco, direi che in questi brevi scritti Saramago continua a fare esperienza del mondo così come sciaguratamente è per poi rivederlo a più serena distanza sotto specie di moralità poetica (e talora peggio di quel che è – anche se pare impossibile andare oltre).

Ma poi, è davvero e sempre così adirato questo maestro della filippica e della catilinaria? Mi pare che oltre che alla gente che odia abbia anche quella che ama, ed ecco i pezzi affettuosi dedicati a Pessoa (non si è portoghese per niente) o ad Amado, a Fuentes, a Federigo Mayor, a Chico Buarque de Hollanda, che ci mostrano come questo scrittore sia poco invidioso dei colleghi e sappia tesserne delle garbate e tenere miniature.

Per non dire (ed ecco il ritorno ai grandi temi della sua narrativa) quando dall’ analisi della quotidianità sfora sui grandi problemi metafisici, sulla realtà e l’ apparenza, sulla natura della speranza, su come siano le cose quando non le stiamo guardando. Allora torna in scena il Saramago filosofo-narratore, non più arrabbiato ma meditabondo, e incerto. Però non ci dispiace anche quando s’ imbufalisce. È simpatico.

Umberto Eco 

La Repubblica, 25/09/09 

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