Visão inicial do centro da terra

A memória é um espelho velho com falhas no estanho e sombras paradas: há uma nuvem sobre a testa, um borrão no lugar da boca, o vazio onde os olhos deviam estar. Mudamos de posição, procuramos, por justaposições sucessivas de pontos de vista, reconstituir uma imagem reconhecível, encadeável com esta a que chamamos presente.

A memória é também uma estátua de argila. O vento passa e arranca-lhe partículas, películas, cristais. A chuva amolece as feições, faz descair os membros, reduz o pescoço. Em cada minuto, o que era deixou de ser, e da estátua não ficaria mais que um vulto informe, uma pasta primária, se também em cada minuto não fôssemos tentando, de memória, restaurar a memória. A estátua vai manter-se de pé, não é a mesma, mas não é outra, como o ser vivo é, em cada momento, simultaneamente, outro e o mesmo. Por isso devemos perguntar quem, de nós, ou em nós, tem memória, e que memória é essa. Mais ainda: pergunto-me que inquietante memória é a que às vezes me toma de ser eu a memória que tem hoje alguém que já fui, como se fosse possível ao presente ser memória de alguém que foi.

Esta minha lembrança não é certamente fiel. O espelho envelheceu, a estátua foi restaurada mil vezes. Não sou, nem sequer, capaz de ver o rapazinho que vai passando entre as árvores, mas sei que está lá: sou eu. Tenho quantos anos? Seis, sete? Ou entrei já na maioridade dos dez? A erva, no chão, ressumbra humidade, há musgo nos troncos das árvores, que são altíssimos freixos rumorejantes, e choupos de um verde translúcido. Estes retoques na estátua é hoje que os faço: a criança recebe apenas imagens, não sabe o que significa translúcido e nunca ouviu pronunciar a palavra ressumbrar. Estou descalço, tinha de estar descalço. Como eram então os meus pés? Não me lembro, e de nada me serve olhar os pés que tenho hoje: são os mesmos, não são os mesmos. Ando aos pássaros. Tenho na mão uma fisga, sigo devagar, de árvore em árvore, um pintassilgo que me faz negaças. Já por duas ou três vezes (duas? três?) estiquei os elásticos, mas no momento de largar a pedra a ave voou, saiu-me da mira. Agora parece tranquila. Está pousada num ramo baixo, solta umas poucas notas do seu canto, a ensaiar, serei o pior dos atiradores se falhar esta oportunidade.

Aponto a fisga. O pintassilgo dobra o primeiro trinado. Já tenho idade suficiente para saber que vou cometer um crime. Se a pedra acertar, levantarei do chão um corpinho sangrento, ainda quente, que não voltará a cantar. Não procuremos mais: o criminoso infantil sou eu. Tenho o alvo na mira, a pedra vai saltar para o espaço. Neste momento, neste preciso momento, sinto que qualquer coisa fria me toca um pé. Olho para baixo e fico gelado, gelado dos pés à cabeça, como se o álgido toque tivesse alastrado por todo o meu sangue. Vejo um sapo grande, horrendo, com aquela pele rugosa, as verrugas, o corpo como um barril, alçado nas pernas tortas. Já se afasta lentamente. Estou petrificado de medo. É o primeiro sapo da minha vida, o primeiro monstro vivo. Sei tudo de rãs, mas este sapo é o primeiro. Agora virou-se para mim, está a olhar-me. O pintassilgo fugiu, as árvores não estão ali, debaixo dos pés sinto ceder o chão mole. É a hora do grande medo. A tremer, aponto a fisga para o sapo, mas logo baixo os braços: não sou capaz de o matar. Estivemos assim, eu e ele, ligados pelo olhar, não sei quanto tempo. Enfim, o sapo começou a afastar-se devagar, parava de vez em quando, olhou-me ainda uma vez, e desapareceu entre as espadanas de um charco.

Ensinaram-me mais tarde que o interior da terra é um magma ardente. Esse magma, explicaram-me também, sai pela boca dos vulcões. É possível, é mesmo certo, se tantas são as provas e as autoridades. Mas creio que deveríamos considerar igualmente a hipótese de haver no centro da terra um enorme sapo, porventura de fogo, e que afinal sejam seus emissários os outros sapos que aí vemos: ao contacto do ar ficam frios, feios, rugosos, transportam consigo os venenos das alquimias profundas – e sempre que podem tocam no pé duma criança, não para lhe fazerem mal: graças ao débil calor humano é que vão conseguindo que neles não se perca de todo a memória do fogo.

José Saramago

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