90 Anos, 90 Palavras (79)

Árvores

Estão presentes em grande parte da sua obra literária e tinha por elas um especial carinho. Saramago recordava os belos olivais da Azinhaga da sua infância, “troncos retorcidos, cobertos de musgo e líquenes, esburacados de locas onde se acoitavam os lagartos”. Essas oliveiras que impiedosamente foram sendo substituídas por outras mais pequenas e mais produtivas, mas onde os lagartos já não conseguiam esconder-se. E mostrava-nos as árvores do jardim dos seus avós, e entre elas destacava a grande figueira ou simplesmente a Figueira, essa que nenhuma outra poderia ultrapassar pelo respeito que a veterana infundia, e aquela oliveira coberta de silvas, a única árvore a que nunca subiu. Mas também nos ensinou que as árvores podem ser amadas e sentir-se amadas, ao falar-nos do avô Jerónimo abraçado às árvores da horta despedindo-se da vida, ou o pensamento do plátano da Quinta da Bacalhoa perante as palavras do seu cuidador, “Quando eu morrer, cá fica ele, diz o homem. O plátano bem o ouve, mas faz de conta. Diante de estranhos não fala, é um princípio que todas as árvores seguem, porém, retirado o viajante, há-de dizer: Não quero que morras, pai.” Saramago era o espelho do que dizia o viajante na Viagem a Portugal, uma pessoa “que de conversa com árvores é especialista”.

 

Jesús del Río
Biólogo
Granada, Espanha

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