A invenção de presente

Seja-me permitido que antes de me instalar no presente, nesta actualidade nossa, ou de questionar a necessidade de inventá-lo, que é o tema deste seminário, faça uma breve viagem ao passado, ao já distante século xviii, quando vivia e florescia um célebre gramático francês, Nicolas Beauzée, que manifestou sobre o presente do seu tempo, ou sobre o presente em geral, ideias que, não sendo de uma claridade meridiana, aspiravam, no entanto, a uma expressão totalizante disto que a toda a hora quer fugir dos tranquilizadores enquadramentos do sentido comum. Precisamente, o presente. Para Beauzée, gramático e metafísico, uma definição exclusiva e unívoca mostrava-se decididamente como inaceitável. Quem sabe se o angustiaria a impossibilidade de dar resposta satisfatória à pergunta inquietante: «Onde estou eu quando estou no presente?» Fosse ou não esse o motivo, o certo é que elaborou um conjunto de denominações, segundo o qual o presente se distinguiria em: presente actual ou propriamente dito (vejo, escrevo), presente anterior (empregado para o passado), presente posterior (empregado para o futuro), presente geral ou indefinido (empregado para exprimir proposições de verdade eterna), presente simultâneo (sinto-me feliz quando a vejo), etc. A utilidade duma tal classificação é mais do que duvidosa, mas devemos reconhecer que o engenho do nosso gramático era muito grande, e também, se não abusamos do sentido geral das suas propostas, que elas nos conduzem à conclusão paradoxal de que todo o tempo, afinal, seria redutível ao presente.

Ingenuidades duma ciência ainda pouco segura dos seus caminhos, objectar-me-ão. Mas que diremos, por exemplo, da definição de presente oferecida por um dos mais modernos e autorizados dicionários da língua portuguesa, o de Aurélio Buarque de Holanda? Reza ele assim: «Presente: o período de tempo, de maior ou menor duração, compreendido entre o passado e o futuro.» Não é verdade que reencontramos aqui a mesma perplexidade que levou o gramático francês a fracturar, por assim dizer, o presente? Não é verdade que, tal como em Beauzée, também aqui o presente é passível de alargar-se ao passado, e que, graças a métodos de previsão que já quase aspiram à infalibilidade, o próprio futuro não estaria a salvo de ser adivinhado (passe a impropriedade do termo) pelo presente, e portanto invadido por ele?

Este não será, porém, o meu ponto de vista. Mais radicalmente, embora sem qualquer originalidade, o que ponho em questão é a existência de um presente, ou melhor, a existência de algo a que seja possível dar esse nome por mais tempo do que a própria palavra (e já é conceder muito) leva a ser pronunciada. Aceito que, por motivos práticos de comunicação, tenhamos de utilizar uma noção de presente entendido como tempo actual (o que ocorre no agora), aliás também ele dificilmente determinável, se o tomarmos como sinónimo perfeito (se os há) de presente. Mas, o que neste caso ponho em questão é somente a minha relação pessoal com o tempo, e nessa não encontro eu lugar senão para um passado (o tempo vivido) e um futuro (o tempo por viver): o presente não seria, portanto, mais do que (consinta-se a metáfora) um cursor deslizando ao longo duma escala, e esse cursor caracterizar-se-ia por não ser, sequer, mensurável, não mais que um ponto móvel, infatigável, uma luz que corre para as trevas e deixa atrás de si as trevas.

A necessidade de metaforizar mostra bem quanto este discurso está longe duma postura minimamente científica ou filosófica. O que aqui se tenta indagar (como explicação que a mim próprio vou encaminhando) é, precisamente, o ponto de vista de um escritor sobre a matéria, os objectivos e os meios do seu trabalho, isto é, porquê, para quê e como produz ele essas composições literárias a que damos o nome de romances, e também que relações estabelecem elas com o tempo, um tempo uno, não dividido. À sofismática pergunta: «Para onde vai o tempo?», permitir-me-ia eu responder, tranquilamente: «O tempo não vai para nenhum lugar, o tempo fica no tempo.»

Tenho rejeitado, às vezes com uma impaciência que não consigo disfarçar, a clalssificação de romances históricos que certa crítica, mais expedita do que atenta, tem dado a alguns dos meus livros. Em minha opinião, trata-se dum rótulo que deveria ser pura e simplesmente retirado do instrumental analítico, em nome da clara evidência de que toda a ficção literária (e, em sentido mais lato, toda a obra de arte) não só é histórica, como não pode deixar de ser. E um romance que tentasse e lograsse apresentar-se como «leitura» deste preciso momento em que estamos, não teria mais remédio que utilizar heranças de toda a espécie (ideológicas, lexicais, etc.), tanto as imediatamente anteriores quanto as mais longínquas, acaso renegadas e abominadas em nome de qualquer modernidade, como, com alguma monotonia, vamos assistindo. Sempre os modernismos vão a essa batalha, sempre a essa batalha não poderão deixar de ir. E sempre a vencerão porque inapelavelmente a perdem sempre.

É histórico um romance porque nele se trata do século xviii? Muito bem. E um romance onde se escreve sobre o que aconteceu em 1936, é igualmente histórico? Em que data começa a actualidade? A que horas principiou o presente? Quando, em que minuto do tempo futuro, o que é hoje actual vai tornar-se em passado? Não se argumente com um suposto carácter especioso destas perguntas. Afinal, é o próprio tema que inevitavelmente as sugere, para não dizer que elas são, no quadro deste debate, matematicamente incontornáveis. Só se inventa o que ainda não existe, inventa-se porque, conscientemente ou não, uma necessidade imperiosa o exigia.

Ora, não é indiferente que empreguemos a palavra passado ou a palavra história. É certo que ambos os conceitos se referem ao tempo que foi, ao que chamámos tempo vivido, mas nenhum historiador, por exemplo, cometeria o lapso grosseiro de chamar a um livro O Passado de Espanha em vez de História de Espanha. Ele sabe muito bem que o passado é o tempo informe, e se escolheu ser historiador foi exactamente para fazer do passado história, organizando-o. A história é, pois, passado organizado, mas não todo o passado, apenas uma parte dele, uma selecção, uma antologia, um ajuste de factos. À história, digamo-lo assim, autoriza-se o ilogismo de tomar uma parte pelo todo e comete a proeza de fazer-se aceitar, pelo menos nos seus traços gerais, como indiscutível e inabalável. Assim, por uma operação em que há algo de mágico, o presente, que tão mal ou de todo não se conhece a si próprio, e que sempre tem de esperar tornar-se em certo passado para voltar a examinar-se retrospectivamente e encontrar então definições suficientes, o presente supõe, pela história, conhecer o passado e mesmo julgá-lo, buscando nele, não raro, lições que são inevitavelmente parciais porque sempre são parcelares.

Não se deduza daqui um propósito, que pelo menos seria estulto, de condenar a história. Pelo contrário. Trata-se, sim, de verificar os limites em que ela se move, com prejuízo, aceitemos agora sem restrições a palavra, do presente. Quero com isto significar que, segundo este elementar modo de entender as coisas, a invenção do presente dependeria, acima de tudo, da possibilidade duma reinvenção do passado, isto é, de um reexame, de uma reordenação, de uma reavaliação dos factos pregressos, como condição, inclusive, do futuro. Um presente assim inventado, sobre os dados novos ou renovados do passado, orientar-nos-ia para um futuro seguramente diferente do que parece prometer-nos este preciso momento em que vivemos. E àqueles que vêm anunciando, com grande aparato de razões, o fim da história, ousaria eu responder que a história, entendida assim, ainda nem começou.

Que lugar tem, então, de que meios se serve, que fins quer alcançar o meu trabalho de romancista? A resposta ficou aí, implicitamente dada, e, mais do que a contestação de um escritor interpelado por um tema, é uma visão, sem dúvida tosca na substância e na expressão, de uma humanidade como transportadora de tempo, uma ideia, também, de que toda a apreensão do mundo e da vida é ficcionante, histórica para o passado, caótica para o presente, utópica para o futuro.

José Saramago

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