Abdicação de Bento XVI: “Só Saramago podia contar o porquê”

Roberto Casalini e Alberto Grandi, do blogue Resident Reader, da revista Wired italiana, comentam a abdicação de Bento XVI: Saramago “seria a pena mais adequada para contar uma história onde público e privado estão interligados”. O texto traduzido:

“Só um autor poderia interpretar a demissão do Papa, um gesto de alcance histórico mas que vem do mais profundo privado. Pensei imediatamente no Evangelho Segundo Jesus Cristo. Eis porquê:

A demissão do Papa tem um potencial narrativo notável. Não foi por acaso que, profeticamente, Nanni Moretti tratou o tema no filme Habemus Papam [Temos Papa], exibido nas salas em 2011. Não creio que Moretti imaginasse que a sua história podia acontecer na vida real. No filme, descrevi a crise individual de um homem que não se revia no seu papel de pontífice, e na instituição da Igreja que encontrou.

 

Hoje, Bento XVI faz um gesto inovador e surpreendente. Inovador porque a última vez que um pontífice abdicou foi há 600 anos. A abdicação, portanto, não é um gesto antigo mas sim fora do tempo e está fora do leque de actos, certos ou errados, expectáveis no seu pontificado. Nesse sentido, pode falar-se de um gesto inovador, que quebra um hábito. É surpreendente porque, mais uma vez, ninguém esperava. Mas a abdicação de Ratzinger é acima de tudo um gesto humano causado pela vulnerabilidade, a fraqueza, e porque é profundamente privado.

Pensei em dois autores, logo que li a notícia, esta manhã: Lous Ferdinand Céline e José Saramago. O primeiro por uma frase lida na sua Viagem ao fim da noite que me disse muito: “Tudo o que é interessante acontece na sombra. Não se sabe nada sobre a verdadeira história dos homens”. Podemos ter uma ideia sobre o porquê de Ratzinger ter optado por abdicar (o escândalo do IOR [o banco do Vaticano], o escândalo da pedofilia, a saúde precária, o difícil convívio com os cardeais) mas a sua decisão, em última instância, permanece privada, presa no seu íntimo, num diálogo que teve com ele mesmo, com a sua sombra, podemos perguntar, com Deus? Mas não o do Angelus de São Pedro, das declarações exaustivas sobre a oposição da Igreja Católica às uniões de facto e à homossexualidade; não o deus histórico e institucional, mas um Deus muito mais difícil de alcançar, talvez impossível de divulgar, porque totalmente privado. Um Deus que só pode ser falado quando é material (passe o termo) para poetas e romancistas, não para cardeais que fazem declarações calculadas, pesando as implicações políticas, as prováveis repercussões na opinião pública.

José Saramago veio-me à mente porque, na minha opinião, o autor do Evangelho segundo Jesus Cristo, onde Jesus era descrito como um homem que não se reconhecia num Deus Pai carrasco e sanguinário, seria a pena mais adequada para contar uma história onde público e privado estão interligados. Próximos e distantes dentro do mesmo homem.

Se o Papa é um representante de Deus, a partir das 20 horas de sexta-feira 28 de fevereiro – hora e data previstas para a abdicação – ficaremos sem Deus. Temporariamente, apenas. Ficaremos sós. Cada um com o Deus-sombra, privado, sem representante nem assessores de imprensa. Será isso uma coisa terrível?

 

Resident Reader/Wired it

 

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