Abraçar as palavras por ele escritas

Abraçar as palavras por ele escritas

Hoje, dia 16 de Novembro, José Saramago completaria 92 anos. Na fundação que leva o seu nome, a saudade é permanente, mas torna-se suportável pela presença diária do escritor em forma de palavras, de imagens, de som e de pensamento.

Há três anos teve início uma iniciativa que pretende homenagear José Saramago no dia dos seus anos. O Dia do Desassossego, que neste ano conta com a parceria da Casa Fernando Pessoa, é um chamamento aos leitores para que saíam às ruas, armados de livros, e os façam passear.

Parece-nos ser uma boa maneira de abraçar José Saramago, que no dia 19 de Novembro de 2008, seu aniversário de 86 anos, disse: “Abraço-me pois às palavras que escrevi, desejo-lhes longa vida e recomeço a escrita no ponto em que tinha parado.”

 

86 anos

Dizem-me que as entrevistas valeram a pena. Eu, como de costume, duvido, talvez porque já esteja cansado de me ouvir. O que para outros ainda lhes poderá parecer novidade, tornou-se para mim, com o decorrer do tempo, em caldo requentado. Ou pior, amarga-me a boca a certeza de que umas quantas coisas sensatas que tenha dito durante a vida não terão, no fim de contas, nenhuma importância. E porque haveriam de tê-la? Que significado terá o zumbido das abelhas no interior da colmeia? Serve-lhes para se comunicarem umas com as outras? Ou é um simples efeito da natureza, a mera consequência de estar vivo, sem prévia consciência nem intenção, como uma macieira dá maçãs sem ter que preocupar-se se alguém virá ou não comê-las? E nós? Falamos pela mesma razão que transpiramos? Apenas porque sim? O suor evapora-se, lava-se, desaparece, mais tarde ou mais cedo chegará às nuvens. E as palavras? Aonde vão? Quantas permanecem? Por quanto tempo? E, finalmente, para quê? São perguntas ociosas, bem o sei, próprias de quem cumpre 86 anos. Ou talvez não tão ociosas assim se penso que meu avô Jerónimo, nas suas últimas horas, se foi despedir das árvores que havia plantado, abraçando-as e chorando porque sabia que não voltaria a vê-las. A lição é boa. Abraço-me pois às palavras que escrevi, desejo-lhes longa vida e recomeço a escrita no ponto em que tinha parado. Não há outra resposta.

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