Afonso Reis Cabral vence o Prémio Literário José Saramago de 2019

Afonso Reis Cabral vence o Prémio Literário José Saramago de 2019

O escritor Afonso Reis Cabral, autor de Pão de Açúcar, é o vencedor do Prémio Literário José Saramago de 2019.

O anúncio foi feito esta terça-feira, ao meio-dia, no auditório da FJS, pela presidenta do júri e diretora editorial do Círculo de Leitores, Guilhermina Gomes. Fazem parte também do júri: Manuel Frias Martins, Ana Paula Tavares, António Mega Ferreira, Nelida Piñon e Pilar del Río.

Foto: Neusa Ayeres

Sobre o livro distinguido, escreveram três dos jurados do prémio:

Ana Paula Tavares:
Narrado na primeira pessoa, Pão de Açúcar lida com o espesso e confuso mundo da memória e retira do esquecimento acontecimentos que os jornais e os relatórios da polícia tinham tratado de forma redutora e parcial com silêncios e omissões que o autor se propõe aqui revelar. Afonso Reis Cabral apresenta um trabalho de linguagem (com a linguagem) que alerta o leitor para o que muda e permanece na escrita do romance e na narrativa dos universos recuperados. O autor mergulha na opacidade dos diferentes mundos da cidade velados pelo silêncio e pelo estranhamento e trabalha novos conceitos de vida, da morte e do amor tal como as leis da violência os alargam e tornam perceptíveis. A partir de um acontecimento verdadeiro o escritor desafia-se e desafia o leitor a novos olhares que as regras da escrita e o rigor do texto impõem. Para lá da banalidade do mal e das quietas consciências que com ele convivem, a ciência de contar aproxima do vivido e organiza de forma diferente os acontecimentos que jaziam escondidos nas notícias de jornal e nos relatórios da polícia. A linguagem recupera as vozes e traça a vida verdadeira de todos os implicados.

António Mega Ferreira:
Partindo de um caso de escândalo transformado em caso de polícia, o assassínio do travesti Gisberta, em 2006, num edifício abandonado do Porto, Afonso Reis Cabral constrói uma narrativa tensa, sob cuja linha narrativa crepita a violência dos excluídos e a raiva dos deserdados. Revelando maturidade narrativa e estilística notáveis, fazendo da contenção a arma da progressão do relato, Reis Cabral adota o ponto de vista dos miúdos administrando a construção de um sentimento grupal de medo e ódio (as fronteiras entre um e outro são
ténues) que descarrega no seu elo mais fraco a raiva de uma frustração longamente contida.
A originalidade da narrativa reside precisamente neste ponto de vista, que faz de Pão de Açúcar uma espécie de romance de (de)formação, um texto que relata a formação de um grupo que se reúne num assassinato, na passagem da infância para a adolescência. A ambivalência de sentimentos de todos e cada um em relação a Gisberta mostra que não há trajetos lineares para o crime, nem fatalidades sociológicas num caso que é mais complexo ficcionalmente do que o relato jornalístico habitualmente revela. Neste processo, o narrador não exibe estados de alma nem reivindica anátemas sociais; e é isso, sobretudo, que torna o romance tão descarnadamente efetivo, tão pungentemente cruel. Neste huis-clos que é a cave de um edifício abandonado, onde tudo se joga e tudo se precipita, não há anjos nem
demónios, apenas seres deixados à sorte dos seus instintos mais primários. O narrador não condena nem atenua as culpas: todos as têm, no tecido esgarçado deste romance, que é uma das obras ficcionais portuguesas mais arrebatadoras e poderosas dos últimos anos.

Manuel Frias Martins:
Partindo da estória verídica de Gisberta, um travesti brasileiro assassinado no Porto em 2006 por um grupo de miúdos (doze-quinze anos de idade), este romance inventa um entre a vida e a morte feito de ternura e violência, ingenuidade e malignidade, amizade e preconceito. O registo narrativo exibe um narrador que é simultaneamente autor e personagem (Rafa). O primeiro nunca se desliga da ação, nela se inserindo frequentemente segundo uma espécie de memória dorida da maldade humana. O segundo, um miúdo de doze anos, é a alavanca de que depende o juízo crítico do leitor acerca da miséria, da exclusão e, no fundo, da sociedade que connosco coabita em fantasmagorias demasiado reais. O universo humano e social por que a estória vai evoluindo, apesar de marcado por dores diversas, respira uma compaixão, uma afetividade e mesmo um lirismo a que o leitor nunca fica indiferente. Romance compassivo mas nunca sentimental, Pão de Açúcar é de uma parcimónia exemplar no que respeita à linguagem e à imagística, sobretudo face à dramaticidade comovente dos envolvimentos humanos da sua estória. Há uma frescura estilística notável que acaba por equilibrar o próprio potencial trágico da obra, gerando no leitor aquele interesse ou aquele querer saber que nos prende irremediavelmente ao texto que vamos lendo. Este é um livro que nos traz o prazer da literatura pelo mistério de tocar a alma mais pungente da realidade, mantendo-se sabiamente, ao mesmo tempo, dentro das ilusões da ficção. Em suma, este é um grande romance de um jovem autor de quem a literatura portuguesa se pode desde já orgulhar.

Sobre o prémio

Homenageando a figura do Nobel da Literatura, José Saramago, este prémio, cujo valor pecuniário é de 25 mil €, foi criado em 1999 pela Fundação Círculo de Leitores. Afirmando-se como um dos mais importantes prémios literários atribuídos no âmbito da lusofonia a autores com obra publicada em português, e com idade não superior a 35 anos, foram distinguidos(as) em anos anteriores: Paulo José Miranda, José Luís Peixoto, Adriana Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, João Tordo, Andréa del Fuego, Ondjaki, Bruno Vieira Amaral e Julián Fuks.

 

 

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