“Alabardas” leva José Saramago a um reencontro com o Porto

“Alabardas” leva José Saramago a um reencontro com o Porto

Meses depois da morte de José Saramago, a Casa da Música encheu-se para render homenagem ao escritor português. Passados quatro anos do seu falecimento, a “cidade invicta” voltou a ser palco de uma sessão em memória do Nobel de Literatura.

Nesta segunda-feira (10), nem a chuva e o vento, nem o jet lag de Valter Hugo Mãe, atrapalharam a apresentação do romance Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas. Centenas de leitores encheram a Casa da Música para escutar Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago, o escritor Valter Hugo Mãe e o editor Manuel Alberto Valente falarem sobre o livro deixado a meio caminho por José Saramago. A obra, que já havia sido apresentada em Lisboa e em Lanzarote no mês passado, foi devidamente mostrada aos leitores do Porto.
“É um livro incompleto, são três capítulos que José Saramago nos deixou, mas é Saramago no seu melhor e que nos deixa uma mensagem forte contra a violência, a guerra e a indústria das armas”, disse o editor da Porto Editora no começo da sessão. “Saramago estará vivo enquanto tiver leitores, e estamos empenhados para que isso aconteça”, completou.

alabardas(Valter Hugo Mãe, Pilar del Río e Manoel Alberto Valente durante a apresentação de Alabardas na Casa da Música)

Pilar del Río explicou que, após escrever os três primeiros capítulos da obra que agora se deu a conhecer, Saramago chegou a um momento da história que exigia uma pesquisa profunda sobre o funcionamento de uma fábrica de armas. “Era um trabalho entediante, mas necessário. Precisava de saber como funcionava, mesmo que não a fosse descrever”. Foi nessa altura que a morte chegou. A presidenta da FJS contou que em agosto de 2010, logo após o falecimento de Saramago, houve um encontro dos seus editores em Lanzarote, e ficou decidido que Alabardas não seria publicado naquele momento. “Foi uma decisão emocional. Enquanto o manuscrito de Alabardas estivesse ao lado do computador existia a esperança de que Saramago voltasse para terminá-lo”, disse. A jornalista espanhola respondeu com bom humor à provocação de Manuel Alberto Valente, que quis saber como ela havia recebido algumas críticas que classificavam a publicação de Alabardas de oportunista. “Acho que deveríamos ser não oportunistas mas oportunos. É o que tem faltado à cultura nestes tempos diante da voracidade dos negócios, que tantas vezes nos atropela”. O facto de 2014 ser o ano em que se assinala o centenário da Primeira Guerra Mundial foi um impulso para a publicação do romance inacabado, acrescentou. “Saramago escolheu um tema difícil, duro, mas pôs-se a escrever um livro porque tinha algo que contar. Dizia que o mundo estava pior do que quando ele havia nascido, e esse era o seu desassossego”, completou Pilar, para quem além de um acontecimento literário, Alabardas é um “acontecimento moral”: “Porque como dizia Kafka, a literatura tem que ser um soco no estômago ou nas consciências”.

Valter Hugo Mãe, que esteve no final de semana em São Paulo, enfrentou mais de dez horas de viagem de avião para estar na sessão no Porto. “Eu nunca deixaria de vir, já me havia comprometido e é um prazer estar cá”. Para o escritor, Saramago comportava-se como um dialogante com os seus leitores, marca que está presente neste livro, além do poder de antecipação da literatura. “A característica que me interessa nesta obra é que abre os olhos dos leitores para algo que está prestes a acontecer”. O autor de A Máquina de Fazer Espanhóis disse que, embora a morte tenha impedido que se conhecesse toda a história de Alabardas, trata-se de uma “obra gigante”.

A sessão no Porto terminou com a leitura de excertos do livro feitas pelo ator José Carlos Tinoco, que foi acompanhado ao piano por Marco Figueiredo. Foi ao som de Alabardas que a sessão foi encerrada.

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