Borges e Saramago: “O Jogo das Coincidências”

O embaixador da Argentina em Portugal, Jorge Argüello, publicou no jornal Expresso um artigo em que procura pontos de contacto entre Jorge Luis Borges e José Saramago, para concluir que “é mais o que os une do que aquilo que os pode separar”. Com autorização do autor, aqui reproduzimos este tão interessante texto, chamando a atenção para o espetáculo que a Embaixada promove em Lisboa para comemorar o 114.º aniversário de Borges, no Jardim do Arco do Cego, na sexta-feira 23 de agosto às 18h30.

 

Procurar definições gerais sobre figuras universais como Jorge Luis Borges (1899-1986) ou José Saramago (1922-2010) envolve muitas vezes o risco de incorrer em estereótipos rápidos, uma ousadia que se torna imprudente se a abordagem for feita sob o limitado prisma da política.

Se assim fosse, se se levasse em conta como estes dois génios literários viam a realidade política, de forma tão antagónica, se se avaliasse como cada um interpretava ideologicamente o compromisso social e a sua relação com o poder, então poderia dizer-se que as coincidências entre Saramago e Borges começam e acabam, quase, no pouco ou muito sangue português que corria nas suas veias.

Os antepassados paternos de Borges, produto de uma típica mistura argentina crioula europeia, eram certamente portugueses. O seu bisavô tinha partido para Rio de la Plata desde Moncorvo, em Trás-os-Montes, Alto Douro.

 

Nos anos 20, o jovem escritor viveu uns anos em Espanha e veio para Portugal em busca da sua família, mas na lista telefónica “havia tantos Borges que era como se não existisse nenhum. Tinha cinco páginas de parentes. O infinito e o zero são semelhantes. Não podia telefonar a cinco páginas de pessoas e perguntar: ‘Diga-me uma coisa: existiu na sua família um capitão chamado Borges que embarcou para o Brasil no final do século XVIII ou início do século XIX?”.

Em 1984, dois anos antes de morrer, o autor de “Ficções” visitou Lisboa, mas o cansaço de ancião impediu-o de chegar até àquela povoação para fechar o círculo que tinha aberto o seu bisavô Francisco Borges. Então, declarou-se comovido por pisar terra portuguesa, embora sobre o assunto já tivesse dito quase tudo num poema escrito muito antes, “Os Borges” (1960): “Nada ou bem pouco sei dos meus ancestrais/ Portugueses, os Borges: vaga gente/ Que na minha carne, obscuramente/ Prossegue os seus hábitos, rigores e temores./ Ténues como se nunca tivessem sido/ E alheios aos trâmites da arte/ Indecifravelmente fazem parte/ Do tempo, da terra e do olvido./ Melhor assim. Cumprida a odisseia/ São Portugal, são a famosa gente/ Que forçou as muralhas do Oriente/ E se deu ao mar e ao outro mar de areia.”

Dito isto, que Borges (eterno candidato ao Nobel da Literatura) e Saramago (ele sim, Nobel em 1998) tenham vivido e escrito ao longo do mesmo século, que se tenham lido, influenciado e até comentado mutuamente, bem pode ter sido fruto de um acaso temporal, o mesmo que juntou tantos intelectuais da época. Então?

Num texto borgeano (“A Morte e a Bússola”, 1944), um obstinado investigador responde à reconstrução de um polícia sobre o sucedido: “Possível, mas não interessante. Você responderá que a realidade não tem a menor obrigação de ser interessante. Eu lhe responderei que a realidade pode prescindir dessa obrigação, mas não as hipóteses.”

Pois bem. Autorizados pelo próprio autor a procurar outras e mais interessantes hipóteses, propomos uma: Borges e Saramago tiveram em comum mais do que possa imaginar um leitor desprevenido de notícias genéricas.

Como leitores aficionados e agradecidos, sabemos do apreço de Borges e de Saramago pelos ‘heterónimos’, esses autores de fantasia por trás dos quais alguns escritores gostam de jogar com textos apócrifos. O argentino já o tinha feito em 1936, atribuindo a um advogado indiano de sucesso na Grã-Bretanha, Mir Bahadur Alí, a novela policial “A Aproximação a Almotásim”. Muitos entusiastas a procuraram nas livrarias de Londres, mas era tudo uma invenção borgeana.

O antecedente vale porque Borges o repetiu em “Exame da Obra de Herbert Quain” (1941), a quem atribui, entre outras novelas, “The God of the Labyrinth”. E vale ainda mais porque quatro décadas depois é Saramago quem publica “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984), em honra a outro heterónimo, o de um grande da literatura portuguesa e mundial: Fernando Pessoa.

Nessa obra, o médico português Ricardo Reis, residente no Brasil, embarca em 1936 para Lisboa, convocado via telegrama por Álvaro de Campos (também heterónimo) com motivo da morte de Pessoa. No camarote do navio, encontra um livro aberto. Qual? “The God of the Labyrinth”, de Herbert Quain! Saramago chegaria a perguntar-se pouco antes da sua morte por que não tinha sido Borges o autor das andanças de Ricardo Reis, tão natural teria sido para ele.

Iremos mais além. A fim de manter o ânimo tão literário quanto profundo, digamos também que o olhar que ambos tinham sobre a morte os aproximava com uma força inusitada.

Dizia o Borges ancião e cego: “Além de alguns temores de índole religiosa, tenho a certeza de que vou morrer inteiramente. É um grande consolo, que dá muita força a um homem. O saber que é efémero. A ideia de ser duradouro é horrível, realmente. A imortalidade seria um castigo. O Céu, se durasse muito, seria o Inferno. O sofrimento é efémero, o prazer também. Está bem que seja assim, se não seria tudo muito tedioso.”

Saramago, em “As Intermitências da Morye” (2005), um dos seus últimos escritos, dedicou-se exatamente ao mesmo assunto, e com similares conclusões. Como seria um país onde as pessoas deixassem de morrer de um dia para o outro? Também ali apresenta os terríveis dilemas de uma velhice eterna e as contradições das religiões incapazes de conceber semelhante alternativa. ‘Flor de coincidência’, diriam em Buenos Aires.

A favor da nossa hipótese, em 2008, no Arco do Cego (a referência à cegueira tão-pouco deve ter sido casualidade), Saramago assistiu à inauguração de uma escultura dedicada a Borges. O monumento “é simples, evocativo, muito melhor do que um busto ou uma estátua perante a qual ficaríamos cansados à procura de semelhanças”, escreveu mais tarde nos seus cadernos.

Nessa ocasião, Saramago chamou a Borges “o último dos gigantes literários” e, dias depois, incluiu-o na sua “família do espírito”, a par de Camões, Cervantes, Kafka e Gogol, entre outros poucos. Ao argentino, o autor português atribuiu-lhe a descoberta da ‘literatura virtual’, “essa literatura sua que parece ter-se desprendido da realidade para revelar melhor os seus invisíveis mistérios. Há mundos que existem a partir do momento em que ele os criou.”

Nesse mesmo ano, em Lanzarote, Saramago tinha aludido ao “castigo das máscaras”, de que padecem os grandes escritores, obrigados a suportar a imagem que o resto das pessoas fabrica sobre eles com a qual têm de conviver, embora não seja autêntica. “Levam essa cruz como uma máscara que não podem arrancar”. Máscaras que mostram diferente o que, provavelmente, não o é.

Saramago tinha também a sua própria hipótese a respeito de Borges e que coincide com a nossa em relação a ambos: “É um autor difícil de ler… Na segunda, na terceira ou na quarta leitura damo-nos conta de que o que podia parecer uma história relativamente plana tem diferentes leituras e mesmo nas entrelinhas há algo para ler e é algo que não se encontra facilmente.”

Visto que ambos coincidiram em filiar-se a ideias semelhantes sobre a morte, agora que já não estão, tudo parece ter ficado como devia. “Eu, que imaginava o paraíso como uma espécie de biblioteca”, escreveu Borges.

Então, ali estarão a ver-se, porque, se é mais o que os une do que aquilo que os pode separar, essa coincidência passa pelos livros e por como torná-los únicos e geniais, criando novos mundos que nos convidam a visitar para salvar o nosso. Pelo menos, essa é a nossa modesta hipótese.

(A Embaixada da República Argentina em Portugal comemora o 114.º aniversário do nascimento de Jorge Luis Borges com um concerto da Seleção Nacional de Tango, com a participação de Katia Guerreiro, no Jardim do Arco do Cego, em Lisboa, sexta-feira, às 18h30, com entrada livre.)

 

 

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