“Clarabóia” no blog A Deshoras, de Raúl Viso

“Não deixará indiferentes, aos devoradores de livros mais sofisticados, a inteligência com que se desenvolvem todos e cada um dos diálogos do romance, pronunciados com a voz particular de cada uma das diferentes personagens, cuidadosamente elaborados com uma mestria que me pareceu semelhante à de John Steinbeck quando construía os sólidos e humanos protagonistas dos seus romances. Um sapateiro que, apesar do ofício humilde que exerce, é mais sábio do que muitos homens de carreira; Abel, hóspede em casa do sapateiro, que se torna prisioneiro dele mesmo devido à sua vontade de não se ligar a nada nem a ninguém nesta vida; duas irmãs que partilham uma vida lacónica junto da mãe e da tia, que terão de esconder um segredo escaboroso; Lídia, mulher atraente e prostituta escondida, que suporta o amante devido ao modo de vida que este lhe proporciona; Maria Cláudia, jovenzinha com vontade de se expandir profissional e sentimentalmente, à qual o amante de Lídia dá trabalho e tenta seduzir; um casal que assiste com tédio ao declinar da sua relação amorosa e usa o filho comum como arma de arremesso; Justina, esposa de um ser desprezível, putanheiro e maltratante encoberto, pelo qual começa a sentir uma atração sexual mais próxima do sadismo do que do amor… Uma exaustiva rede de histórias individuais, simples na sua quotidianeidade mas cheias de voltas e traições, que se irão cruzando umas com as outras, e que dão força e veracidade à citação de Raúl Brandão que abre o livro: “Em todas as almas, como em todas as casas, alé, de uma fachada há um interior escondido.”

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