Claudio Magris: “…como me comovi profundamente” na última visita a Saramago

Logo que soube que tinha sido atribuído o primeiro Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, o escritor triestino Claudio Magris escreveu ao presidente do júri, Guilherme d’Oliveira Martins. Com autorização do remetente, a Fundação José Saramago transcreve na íntegra essa carta em diz que de vez em quando folheia o exemplar de “Os Lusíadas” que comprou aos 14 anos. Termina a missiva com a recordação de encontros com o Nobel português e em particular, da comovente visita que fez a Lanzarote, pouco tempo antes da morte de José Saramago – visita documentada na fotografia que reproduzimos aqui.

É este o texto integral da carta de Claudio Magris:

“Desejo expressar a minha mais profunda gratidão por este grande, generoso e totalmente inesperado reconhecimento que me chega de um país que sempre esteve presente na minha fantasia, nos meus interesses, no meu imaginário.

Não sou um lusitanista e infelizmente não falo português, mas a história, a civilização e a literatura desse pequeno grande país sempre desempenharam para mim um importante papel, sempre me estiveram presentes. Talvez porque se trata de uma enorme civilização de mar, elemento essencial da minha sensibilidade e do meu ser, de um pequeno país que se tornou num império do mundo – no mais lato sentido do termo e não só no político – e como poucos outros foi um teatro de encontro, e como sempre também de confronto, em suma, um palco de protagonismo no grande teatro do mundo.

Estou demasiadamente surpreendido e emocionado com esta notícia para poder elaborar um discurso ordenado e gostaria assim de exprimir tudo o que me vem ao espírito: a grande literatura, lida em tradução, mas que profundamente me marcou – aos 14 anos comprei numa velha livraria de Trieste uma tradução italiana dos Lusíadas, que  frequentemente folheio; mas também a clássica, começando pela excepcional História Trágico-Marítima, que foi essencial na minha educação para o mar e para a poesia do mar.

Em Portugal, na foz do Douro, escrevi um dos meus contos, O Conde, que, deixando de parte a sua eventual qualidade – que não me compete a mim julgar – exprime profundamente a essência daquilo que sou e gostaria de ser; e também em Portugal – mais tout se tient – saiu, em termos absolutos, a primeira tradução de uma obra literária minha de ficção, já que até então apenas haviam sido publicados ensaios em tradução alemã. Refiro-me a Illazioni su una sciabola, Ilações sobre um sabre.

Foi portanto nesse país, tão generoso comigo, que se iniciou a minha navegação na própria e verdadeira literatura. Recordo o quanto me marcou a apresentação desse conto em Lisboa; recordo a presença calorosa e afetuosa de amigos que o ficaram ao longo da vida, e uma fulminante e generosa intervenção de Saramago, ali presente, que me disse:” O teu narrador (o protagonista-narrador do meu conto) não é inocente…” Observação que foi como uma semente que mais tarde germinou.

E recordo ainda, tempos depois, um extraordinário encontro com Saramago, pouco antes da sua morte em Lanzarote, e como me comovi profundamente ao ver que uma prateleira da sua biblioteca era dedicada aos meus livros. Também esse dia foi para mim um grande prémio, ao qual se junta agora este, pelo qual lhe expresso toda a minha gratidão.”

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