Conferência sobre Rafael Alberti

As minhas primeiras palavras serão de agradecimento pela honra com que fui distinguido ao convidarem-me para falar em nome dos escritores iberoamericanos neste acto de homenagem a Rafael Alberti. Gostaria de pensar que a generosa ideia se deveu, não a supostos merecimentos de representatividade, que não conseguiria encontrar na minha pessoa, mas ao propósito, mais generoso ainda, de aqui imaginar, conceber e recuperar para o mundo iberoamericano a sua verdadeira dimensão, isto é, aquela que, por simples acatamento da Geografia e respeito da História, sempre haverá de abranger os dois países atlânticos de língua portuguesa, Portugal e Brasil, cada um em sua margem. Em geral, quando dizemos «mundo iberoamericano», é no «mundo hispanoamericano» que estamos a pensar, como se o grande Brasil e o pequeno Portugal pertencessem a continentes diferentes, como se não fossem, no bom e no mau, no sublime e no trágico, carne daquela mesma carne e espírito daquele mesmo espírito. E se é certo que não venho habilitado com cartas credenciais para representar hoje Portugal e Brasil, é também em nome deles que agradeço ter sido um escritor de língua portuguesa o escolhido para, neste acto, durante alguns minutos, ser a voz dos escritores iberoamericanos de todas as falas, de onde quer que sejam e onde quer que estejam, elas e eles.

Querido Rafael,

Ainda antes que no teu formoso Marinero en tierra tivesses reunido num amplexo poético insolitamente moderno algumas das velhas objectividades da terra e os novos e resplandecentes mitos do mar, já havias criado quatro versos que bem poderiam ser colocados no limiar de toda a obra literária, como uma espécie de epígrafe universal. São estes:

Le quité el antifaz a una palabra

Y mudos frente a frente nos quedamos

Todos os que escrevemos conhecemos esse instante de mudez perplexa, quase angustiante. A palavra apareceu-nos de súbito nua, desarmada, surpreendida pela luz, será preciso deitar-lhe a mão rapidamente, não a deixar escapar-se, não lhe dar tempo a que se esconda outra vez. Escrever é aprender a ver, escreve-se por se ter visto a palavra que estava por trás da palavra. Ela terá, uma por uma, as mesmas letras, mas tornou-se noutra a partir desse momento. A poesia, muito mais que a expressão dramática ou novelesca, é a revelação da palavra que havia oculta.

Quando, com apenas vinte e cinco anos, publicaste Sobre los ángeles, já as máscaras das palavras haviam caído todas diante de ti, já o teu olhar havia captado definitivamente as fulgurantes claridades de som e de sentido que se resguardam sob a opacidade que é consequência fatal do hábito de não ver o que se olha e da rotina indiferente da fala.

Ninguno comprendíamos el secreto nocturno de las pizarras ni por qué la esfera armilar se exaltaba tan sola cuando la mirábamos, Sólo sabíamos que una circunferencia puede no ser redonda y que un eclipse de luna equivoca a las flores y adelanta el reloj de los pájaros.

Ninguno comprendíamos nada; ni por qué nuestros dedos eran de tinta china y la tarde cerraba compases para el alba abrir libros

Sólo sabíamos que una recta, si quiere, puede ser curva o quebrada

y que las estrellas errantes son niños que ignoran la aritmética.

Umas vezes curva, outras vezes quebrada, porque a haveriam de torcer e romper dolorosamente as circunstâncias do tempo e do mundo, a linha recta que espiritualmente Rafael Alberti foi desde sempre, recta e íntegra se manteve até hoje. Quanta razão tiveram aqueles seus ascendentes que, como Rafael escreveu em Sermones y moradas, «predijeron que él sería un árbol solo en medio del mar»… Na aparência semelhante a uma daquelas estrelas errantes que seriam as crianças sem gosto pelos números, Rafael Alberti, destinado à frequentação das matemáticas superiores da poesia, podia, ternamente, fazer de conta que ignorava as aritméticas elementares. Ou talvez que no caso do poeta que ele é, o elementar e o superior sejam tão indissociáveis como a luz e a sombra, como o côncavo e o convexo, como a pedra e os olhos que a interrogam. Sobre los ángeles e Sermones y moradas são os picos altíssimos donde Rafael Alberti poderá contemplar a larga vida que vai ter por diante. Casou com María Teresa León, companheira em espírito e em corpo, ser admiravelmente humano, não uma daquelas musas inconsistentes de que com falsidade certos poetas fingiam necessitar, e juntos vão enfrentar os exaltantes e trágicos anos que se avizinham. É possível identificar (eu, ao menos, creio identificá-los) alguns traços premonitórios dessas esperanças e dessas ameaças num poema aparentemente enigmático de Sermones y moradas:

Amigos,

no sentís como andan las islas? No oís que voy muy lejos? No veis que ya voy a doblar hacia esas corrientes que se entran

lentísimas en la inmortalidad de los mares sin olas y los cielos

paralizados?

Oigo el llanto del Globo que quisiera seguirme y gira hasta quedarse

mucho más fijo que al principio,

tan borrado en su eje que hasta los astros menos rebeldes transitan por su órbita.

No oís que oigo su llanto?

Siento que andan las islas.

Sonhos, ansiedades, presságios, jangadas de pedra, nuvens pousadas sobre o mar, não é raro que as ilhas andem, porém nem sempre caminham na boa direcção. O poeta disse: «Siento que andan las islas», e estaria a pensar na ilha maior, que é o mundo, pensaria também, certamente, numa ilha pequena, a sua Espanha. Por enquanto ainda não se vislumbram motivos para chorar, mas Rafael Alberti já começou a ouvir o pranto do mundo. Pergunta: «No oís que oigo su llanto?» Primeiro que o mundo, chorará Espanha. De dores, porque nenhuma lhe foi poupada, mas também de ira, de indignação, como um animal traiçoeiramente ferido. Foi um tempo em que a coragem se chamou povo, um tempo em que as palavras mais simples foram as mais necessárias, um tempo em que a poesia se tornou realmente companhia dos homens. Tomo como exemplo o poema dedicado às Brigadas Internacionais, publicado em Capital de la gloria, e que é um canto à solidariedade mútua daqueles que se buscaram e reconheceram iguais em dignidade.

Venís desde muy lejos… Mas esta Lejanía,

que es para vuestra sangre, que canta sin fronteras?

La necesaria muerte os nombra cada día,

no importa en qué ciudades, campos o carreteras,

De este país, del otro, del grande, del pequeño,

del que apenas si al mapa da un color desvaído,

con las mismas raíces que tiene un mismo sueño,

sencillamente anónimos y hablando habéis venido.

No conocéis siquiera el color de los muros

que vuestro infranqueable compromiso amuralla.

La tierra que os entierra la defendéis, seguros,

a tiros con la muerte vestida de batalla.

Quedad, que así lo quieren los árboles, los llanos,

las mínimas partículas de la luz que reanima

un solo sentimiento que el mar sacude: Hermanos!

Madrid con vuestro nombre se agrada y se ilumina.

Mas é também em Capital de la gloria que Alberti escreve: «Siento esta noche heridas de muerte las palabras», como se percebesse já o avançar das sombras que durante quarenta dolorosos anos virão cobrir de luto e melancolia o rosto de Espanha.

O exílio chegou, é preciso partir. Rafael e María Teresa trabalham como locutores em Paris. É o tempo em que María Teresa baterá à porta de editores franceses para que lhe publiquem os contos, e receberá como resposta estas palavras geladas de indiferença: «As coisas de Espanha não interessam, madame…» Sim, as coisas de Espanha não interessavam, como também não interessavam as coisas de Portugal, essas duas excrescências transpirenaicas, esse páramo incompreensível às requintadas sensibilidades do centro europeu. É olhando o Sena que Rafael Alberti escreverá o poema dedicado à memória de Antonio Machado, publicado em Entre el clavel y la espada, versos que a Sorbonne talvez considerasse bárbaros, mas que ressoaram e continuarão a ressoar como uma voz profunda da terra ibérica.

Pienso en ti, grave, umbrío,

el más hondo rumor que resonara a cumbre,

condolido de encinas, llorando de pinares,

hermano para aldeas, padre para pastores,

pienso en ti, triste río,

pidiéndote una mínima flor de tu mansedumbre,

ser barca de tus pobres orillas familiares

y un poco de esa leña que hurtan tus cazadores.

Descansa, desterrado

corazón, en la tierra dura que involuntaria

recibió el riego humilde de tu mejor semilla,

Sobre difuntos bosques va el campo venidero.

Descansa en paz, soldado.

Siempre tendrá tu suelto la gloria necesaria:

álamos españoles hay fuera de Castilla.

Guadalquivir de cánticos y lágrimas del Duero.

Muito anos depois, vivendo já em Itália, outra memória de poeta o visitou.

Federico.

Voy por la calle del Pinar

para verte en la Residencia.

Llamo a la puerta de tu cuarto.

Tú no estás.

Federico.

Tú te reías como nadie.

Decías tú todas tus cosas

como ya nada las dirá.

Voy a verte a la Residencia.

Tú no estás.

Federico

Por estes montes del Aniene,

tus olivos trepando van.

Llamo a sus ramas con el aire.

Tú si estás.

Entre os poucos meses que durou o exílio em Paris e os catorze anos passados em Itália, Rafael Alberti viveu durante vinte e três anos na América. Foram vistos e admirados, ele e as suas pinturas e os seus desenhos («Diérame ahora la locura / que yo aquel tiempo me tenta, / para pintar la Poesía / con el pincel de la Pintura»), foi ouvido, aplaudido, amado em Argentina, Uruguai, Chile, Cuba. Venezuela, Peru, Colômbia, e aonde não chegou a ir ele, chegaram os seus poemas e as suas exposições. Trinta e sete anos longe da sua terra e, como tantos outros exilados, sempre com ela no coração, plantando-a nos seus jardins, dizendo-a nas suas conversações, suspirando-a dia a dia, patriota cabal que manteve a esperança e viveu para nos reunirmos hoje, uma margem e outra margem, o poeta oficiando a cerimónia da palavra e a coerência, universalidade total e definitiva lograda pela dimensão do amor e da lealdade. Quando em 1977 regressou a Espanha, à nova Arboleda e à nova família, a María Asunción, aos amigos, aos camaradas, Rafael Alberti poderia ter dito, como poderia com todo o direito repeti-lo aqui, aqueles versos de Abierto a todas horas que são o seu retrato de corpo inteiro:

Éste ha sido estos años mi destino:

no callar y seguir abiertamente,

entre flores y espadas, mi camino

Yo nunca he sido un viento contra viento;

pero si un huracán quiere tumbarme,

resistiré mi desmoronamiento.

No quisiera vivir en escapada,

no me fuera posible aunque quisiera,

yo soy un hombre de la madrugada,

comprometido con la luz primera.

Me pide el sol que cante en cada aurora

y yo no puedo al sol decirle «espera».

Lo confirmo, Rafael. Lo confirmamos todos. Gracias.

José Saramago

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