Crítica ao romance <i>Claraboia</i> no jornal británico <i>The Guardian</i>

Crítica ao romance Claraboia no jornal británico The Guardian

Claraboia, romance escrito por José Saramago em 1953, mas publicado postumamente, chega agora ao Reino Unido traduzido por Margaret Jull Costa. O jornal britânico The Guardian publicou nesta semana uma crítica sobre o livro assinada por Ursula K Le Guin. “O livro lança luz não somente sobre o lento desenvolvimento de um artista radicalmente original como é em si mesmo um romance interessante por direito próprio”, escreve a crítica. Para lê-la em inglês, carregue aqui.

A seguir, o texto integral publicado no periódico londrino e traduzido para português (trad.: Rita Paes):

 

CLARABOIA DE JOSÉ SARAMAGO – AMOR, VIDA E PERDA EM LISBOA

Ursula K Le Guin

(Quarta-feira, 23 de julho 2014)

Foram precisas seis décadas para que este romance dos primórdios deste Português notável chegasse a ser publicado. Agora lança luz sobre o desenvolvimento de um artista radicalmente original.

José Saramago enviou o manuscrito de Claraboia em 1953 a um editor de Lisboa. Não tendo recebido resposta, e aparentemente não tendo procurado obter uma, mergulhou, diz a sua mulher, Pilar del Río, na sua introdução, «num silêncio doloroso e indelével que durou décadas». Conseguiu, contudo, um nome como jornalista e editor antes de voltar a escrever ficção, em 1977. Em 1989, tendo já três romances publicados, trabalhava num quarto quando o editor a quem enviara Claraboia lhe escreveu dizendo que tinham redescoberto o manuscrito e que seria uma honra publicá-lo. Saramago dirigiu-se até lá de imediato e trouxe-o para casa. A sua mulher conta-nos que ele nunca o leu e que apenas disse que «nunca seria publicado enquanto vivesse». Teremos de assumir que nada disse sobre o que deveria ser feito com ele após a sua morte.

Uma humilhação com tantos anos poderia estar na origem da sua negligência em relação ao manuscrito, ou talvez, dado o seu segundo recomeço tardio, não tivesse querido perder tempo num regresso a esta obra iniciática mais convencional. De qualquer modo, penso que a decisão da sua mulher ao publicá-lo agora foi contundente. O livro lança luz não somente sobre o lento desenvolvimento de um artista radicalmente original como é em si mesmo um romance interessante por direito próprio. A tradutora é a irrepreensível Margaret Jull Costa.

Se o manuscrito tivesse sido aceite, e tivesse tido sucesso, manteria Saramago a mesma plácida indiferença à opinião que lhe permitiu descobrir gradualmente os seus próprios e incomparáveis linguagem, estilo e temática? Impossível dizê-lo.

Paragrafado e pontuado de forma convencional, Claraboia segue uma fórmula ficcional familiar: um conjunto de personagens atiradas ao mesmo tempo para um mesmo lugar. Neste caso um pequeno prédio da classe trabalhadora pelos anos 50, em Lisboa, e seis apartamentos, 15 pessoas, 10 delas mulheres. As suas vidas são frágeis, frugais, duras. Adriana e Isaura conseguem à justa sustentar a mãe e a tia. Ao serão, as quatro mulheres ouvem Beethoven na rádio com uma intensidade nostálgica, enquanto a jovem Claudinha na porta ao lado escuta um ragtime jazístico. Os pais de Claudinha são infelizes no casamento. Emílio, o caixeiro de praça, e a sua mulher espanhola odeiam-se mutuamente. O brutal Caetano e a diabética Justina, perseguidos pela perda de uma filha, passam de um velho ódio à violência declarada.

A sexualidade explícita do livro (que pode ter levado a que não fosse próprio para publicação no Portugal de Salazar em 1953) é agora notável apenas por ser tão compassiva. A empatia de Saramago com as duas irmãs cujo desejo sexual não encontra um escape é profunda e subtil, assim como o é o seu respeito por Lídia, a mulher por conta, que apesar de desprezar quem a mantém, respeita o seu próprio profissionalismo na mais desprezada das profissões. Através de uma magnífica reversão de poder erótico, Saramago consegue mesmo redimir o batido e algo pornográfico lugar-comum de uma mulher reagindo à violação com paixão.

Frustração, miséria moral, insegurança, tudo em espaços fechados, geram inevitavelmente competitividade e maldade. Mudando de personagem para personagem, a estória de enredo vago contém uma boa dose de mesquinha perversidade, muito na tradição de Balzac e dos naturalistas. Contém também humor negro e pelo menos uma tranquila cena doméstica desvendada subitamente como quase visionária:

«Depois, foi o jantar. À volta da mesa, quatro mulheres. Os pratos fumegantes, a toalha branca, o cerimonial da refeição. Para aquém – ou talvez para além – dos rumores inevitáveis, um silêncio espesso, confrangedor, o silêncio inquisitorial do passado que nos contempla e o silêncio irónico do futuro que nos espera.»

O personagem mais forte no livro é Silvestre, o sapateiro. Nos romances posteriores de Saramago, trabalhadores honestos como ele irão aparecer, sempre significativos, sempre usando a sua relevância discretamente. Silvestre é casado com Mariana, «Tão gorda que fazia riso, tão boa que dava vontade de chorar» ‒‒ um casamento de almas tranquilas, de gente generosa, meticulosamente bom. Os reacionários que à época controlam o seu país esmagam a impetuosidade de Silvestre nas suas esperanças sociais e políticas, mas não o seu espírito. Ele é um homem paciente, e a sua paciência, o seu contentamento, ultrapassam de longe a mera acomodação à derrota.

À beira da pobreza, Silvestre e Mariana alugam o quarto disponível a um inquilino, Abel. Tem mais ou menos a idade do autor do livro, 31 ou 32, e é difícil não o identificar em certa medida como um retrato do artista quando jovem. Evitando propositadamente uma conexão estreita ou compromisso com quem quer que seja ou com o que quer que seja, Abel aparece como um padrão literário do seu tempo: o jovem indiferente, reservado, percetivo, inerentemente superior, essencialmente taciturno. Embora vença nas suas argumentações com Silvestre, Abel surge-me como não sendo tão adulto ‒ ou tão sabedor ‒ como supõe ser. Serão as suas atitudes existencialistas um pouco autocomplacentes? Silvestre foi alvo do seu desapontamento da maneira mais dura, escorando-se a si próprio numa ação de comprometimento radical. Abel não vai desperdiçar a sua vida com ilusões. Mas aonde o leva o seu não comprometimento? É um realista preservando-se para atuar quando a ação acontecer, ou um idealista negando o seu próprio entorpecimento?

Na sua derradeira conversa, Abel tem a última palavra, na verdade as últimas palavras do livro: «O dia em que será possível construir sobre o amor não chegou ainda…» No silêncio final após esta afirmação, sinto uma refutação não dita, ou reserva, que é o facto de a vida de Silvestre, uma vida dura e responsável, ser construída, da forma mais modesta, limitada e prática, sobre o amor.

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