Culturas grandes, culturas pequenas

As minhas primeiras palavras são de agradecimento pelo convite que me foi dirigido para integrar esta Comissão Internacional de Difusão da Cultura Catalã e participar nos seus trabalhos. Dispenso-me de enumerar as razões históricas que justificariam, em qualquer caso, a presença de portugueses neste encontro, apenas me cabendo duvidar se convergem em mim competência e capacidade suficientes para corresponder a uma responsabilidade que nunca poderia satisfazer-se com um simples acto de presença. Farei então o melhor que puder. É uma promessa e é um compromisso.

Não creio que seja claro, já, para todos nós, por que vias se hão-de realizar os objectivos da Comissão. Certamente, após os debates, sairemos daqui mais esclarecidos e com orientações adequadas: neste momento, porém, não vejo outra coisa que um imperioso ponto de interrogação. Permitam-me, pois, que nesta intervenção não venha falar da Catalunha, permitam-me, mesmo, que fale um pouco do meu país, mas só um pouco, porque o essencial do que disser aspira a ter um carácter muito mais geral e precisamente contemplará os chamados países pequenos, e ainda, por maioria de razões, aquelas regiões cuja fisionomia cultural, vivíssima, como no caso da Catalunha, é parte de um conjunto plurinacional, em relação ao qual não poderá deixar-se calar, sob pena de desnaturar-se e perder-se.

Perante uma assembleia informada, como esta, seria descabido pretender traçar um quadro do mundo de hoje, nos seus diversos e complexos aspectos, políticos ou económicos, ideológicos ou culturais, científicos ou tecnológicos. Limitar-me-ei a pedir a vossa atenção para o facto de, hoje, quase só lidarmos com grandes números, lembrar-vos como tudo, actualmente, se conta por milhões e milhares de milhões, tanto fazendo que se trate de dólares ou de ienes, de toneladas excedentárias de manteiga, ou de prováveis, senão confirmadas, vítimas mortais da fome, sem esquecer as lamentações dos devedores e as ameaças dos credores, igualmente aos milhões. As pequenas quantidades são despiciendas, ignoram-nas, praticamente, as estatísticas – e quanto aos países pequenos, não lhes fica muito mais que tentar negociar o seu voto, pelo melhor preço, nos organismos internacionais, se não preferiram, cada vez mais raramente, aceitar os riscos duma independência incómoda e duma personalidade nacional orgulhosa. Mas a regra, ai de nós, não é essa, a regra é uma qualquer forma de servidão forçada a interesses de parceiros mais poderosos, a regra é a mão estendida e resignada à espera da esmola, a humilhação que, de tão habitual, já se vai tornando em estilo de vida. De alguma maneira se poderia, até, afirmar que não sobra neste nosso mundo espaço para os países pequenos, excepto se pertencem ao clube dos ricos, o que, podendo suceder por mérito próprio, algumas vezes dependeu e continua a depender das conveniências alheias.

A voz dos pequenos países, que as normas básicas da participação democrática ainda vão permitindo que se ouça, é geralmente recebida com um curioso misto de impaciência e benevolência, muito semelhante à atitude que os adultos usam tomar para com as crianças. Qualquer representante menor duma grande potência será sempre escutado com atenção religiosa, mas a fala de um país fraco e dependente é o melhor dos pretextos desejáveis para um passeio higiénico aos corredores, em benefício da circulação sanguínea.

E isto não acontece apenas nas disputadas áreas da política e da economia. A indústria cultural do nosso tempo, servida por uma obsessiva e sistemática utilização dos mass media, tendo como último objectivo estratégias de prevalência ideológica que tornaram já obsoleto e anacrónico o recurso a acções mais explicitamente directas, tem vindo a reduzir a mero papel de figurantes os países pequenos, condenando-os a uma espécie de invisibilidade, a um certo grau de inexistência. Há alguns anos, seis altos funcionários do Mercado Comum precisaram de meia hora para descobrirem que país era o meu, apesar de todos os dados que lhes ia fornecendo, com uma paciência cada vez menor e uma indignação que crescia em cada minuto. Excepto o próprio nome de Portugal, disse-lhes tudo: população, origem da língua, religião dominante, superfície territorial, regime político, fronteiras marítimas a ocidente e a sul. Inútil: durante meia hora, nada disto foi suficiente para que conseguissem ver Portugal. No mapa duma Europa que é, precisamente, o seu campo de trabalho, esses funcionários, de cuja competência técnica não me atreveria a duvidar, pura e simplesmente não viam Portugal.

Tenhamos, tenha-se, então, a honestidade de reconhecer que não sabemos ver os países pequenos, tenha-se a franqueza de confessar que, em rigor, não os queremos ver, sequer. É que a entrada de tais países no nosso mapa mental obrigar-nos-ia a uma radical mudança de modos de relação com os outros, sem contar que, inevitavelmente, teríamos de modificar a carta geral do mundo, no que diz respeito à cultura: tornar-se-ia claro como as hegemonias culturais de hoje resultam, fundamentalmente, de um processo de evidenciação e ocultação que teve artes de impor-se como fatalidade inelutável, contando com a resignação, quando não com a cumplicidade das próprias vítimas.

Num congresso realizado, não há muito tempo, em Madrid, sobre o tema «O Espaço Cultural Europeu», dei conta de algumas destas preocupações. Hoje pergunto-me se terá valido a pena. Bem sabemos o que são, geralmente, congressos e mesas-redondas, simpósios e colóquios: não se pode evitar ir lá dizer alguma coisa, mas pode-se sempre simular que nada se ouviu. Permitam-me que repita aqui algumas das minhas palavras de então, graças às quais, com mais atentos ouvidos, talvez alcance maior pertinência a minha intervenção neste encontro. Disse eu, perante a indiferença e os bocejos de alguns grandes senhores e damas da cultura europeia, dessa que do lado de lá dos Pirenéus teima em querer dar-nos lições exclusivas: «Em oitocentos e cinquenta anos de existência nacional não conseguimos ser um país rico (somos hoje, até, o mais pobre da Europa), mas fizemos uma cultura. Por ela, e só por ela, queremos ser identificados, não pelo saldo da conta bancária ou pelas reservas de ouro. Neste lugar em que nos encontramos reunidos, nenhum país, por mais rico e poderoso que seja, poderá arrogar-se uma voz mais alta. E precisamente porque aqui tratamos de cultura, também nenhum país ou grupo de países, tratado ou pacto, pode propor-se como mentor ou guia dos restantes. As culturas não são melhores nem piores, não são mais ricas nem mais pobres, são só, simplesmente e felizmente, culturas. Nisso valem-se umas às outras, e é pelas suas diferenças que se acharão justificadas.» E acrescentava, com a veemência possível e uma convicção que até hoje se mantém inabalável: «Não há, e espero que não venha a haver, uma cultura que pretenda impor-se como una e universal. A Terra é única, mas o homem não. Cada cultura é um universo: o espaço que as separa é o mesmo espaço que as liga, como o mar, aqui na Terra, separa e liga os continentes.»

Não figura nas minhas intenções fazer opor ao chauvinismo das grandes potências um chauvinismo dos países pequenos, unidos nessa atitude por um direito legítimo de fazerem ouvir a sua voz, e, quem sabe, menos nobremente, por despeito natural de quem se viu menosprezado uma e muitas vezes. O que pretendo, sim, é que se reconheça que, em definitivo, não há culturas grandes nem pequenas, e que todas elas respondem ou intentam responder à dimensão própria do homem, e por aí necessariamente se igualam.

Termino. Ouso supor que a minha intervenção não veio a despropósito no quadro de um encontro que pretende servir a difusão da cultura catalã. Falando de Portugal, foi como se estivesse a falar da Catalunha, falando duma cultura, falei da outra. Quero acreditar que cumpri o meu dever aqui.

José Saramago

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