Curiosity chegou a Marte, mas não chegamos aos nossos semelhantes

O robô Curiosity chegou com êxito ao planeta Marte, pouco depois das 05.31 TMG (06.31 em Lisboa). “O contacto (com o solo) foi confirmado”, anunciou um membro da missão de controlo, en Pasadena, Califórnia. O Curiosity deverá levar a cabo uma missão de dois anos em Marte. Alimentado por um gerador nuclear, tentará descobrir se o ambiente marciano foi propício ao desenvolvimento da vida microbiana.

Para tal, o robô possui numerosas ferramentas, entre as quais um mastro com câmaras de alta definição e um laser para estudar alvos até sete metros.

Outros instrumentos analisarão o ambiente para aí procurar moléculas de metano, um gás frequentemente ligado à presença de vida, já detetada em Marte em várias ocasiões por uma sonda norte-americana em órbita. O robô poderá também furar o solo para fazer recolha de amostras e analisá-las.

“Chega-se mais facilmente a Marte neste tempo do que ao nosso próprio semelhante”, disse José Saramago no brinde do Pemio Nobel, em 1998. José Saramago considerava imprencindíveis os avanços científicos e defendia que no nosso tempo, e com a tecnologia de que se dispõe, poderia vencer-se a gfome, a miséria absoluta e a ignorância. Este é o texto integral do discurso do brinde que, pela sua oportunidade, hoje reproduzimos:

  “Cumpriram-se hoje exactamente cinquenta anos sobre a assinatura da Declaração Universal de Direitos Humanos. Não têm faltado, felizmente, comemorações à efeméride. Sabendo- -se, porém, com que rapidez a atenção se fatiga quando as cir- cunstâncias lhe impõem que se aplique ao exame de questões sérias, não é arriscado prever que o interesse público por esta comece a diminuir a partir de amanhã. Claro que nada tenho contra actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que pro- nuncie aqui umas quantas palavras mais.

Como declaração de princípios que é, a Declaração Uni- versal de Direitos Humanos não cria obrigações legais aos Es- tados, salvo se as respectivas Constituições estabelecem que os direitos fundamentais e as liberdades nelas reconhecidos serão interpretados de acordo com a Declaração. Todos sabemos, porém, que esse reconhecimento formal pode acabar por ser desvirtuado ou mesmo denegado na acção política, na gestão económica e na realidade social. A Declaração Universal é ge- ralmente considerada pelos poderes económicos e pelos po- deres políticos, mesmo quando presumem de democráticos, como um documento cuja importância não vai muito além do grau de boa consciência que lhes proporcione.

Nestes cinquenta anos não parece que os Governos te- nham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que, moral- mente, quando não por força da lei, estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se no mundo, as desigualdades agra- vam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade que é capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte neste tempo do que ao nosso próprio semelhante.

Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os Governos, seja porque não sabem, seja por- que não podem, seja porque não querem. Ou porque não lho permitem os que efectivamente governam, as empresas multi- nacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a uma casca sem conteúdo o que ainda restava de ideal de democracia. Mas também não estão a cum- prir o seu dever os cidadãos que somos. Foi-nos proposta uma Declaração Universal de Direitos Humanos, e com isso julgá- mos ter tudo, sem repararmos que nenhuns direitos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem, o primeiro dos quais será exigir que esses direitos sejam não só reconhecidos, mas também respeitados e satisfeitos. Não é de esperar que os Governos façam nos próximos cinquenta anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra e a iniciativa. Com a mesma veemência e a mesma força com que reivindicarmos os nossos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa começar a tornar-se um pouco melhor.

Não estão esquecidos os agradecimentos. Em Frankfurt, onde estava no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que disse foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel de Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos volto a agrade- cer. E agora quero também agradecer aos escritores portugue- ses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de agora: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam, portanto.”

Fonte: Diário de Notícias

Pin It on Pinterest

Share This