“Dançar Saramago”, por Carlos Reis

“Dançar Saramago”, por Carlos Reis

Num dos textos fundadores do que são hoje os estudos narrativos, texto publicado em meados dos anos 60 do século passado, Roland Barthes tratou de abrir a análise do relato a campos discursivos e a contextos culturais que, na época, não eram, para isso, considerados. Dizia Barthes: “Há em primeiro lugar uma variedade prodigiosa de géneros, distribuídos entre substâncias diferentes, como se toda a matéria fosse boa para que o homem lhe confiasse as suas narrativas”; e acrescentava: “A narrativa pode ser sustentada pela linguagem articulada, oral ou escrita, pela imagem, fixa ou móvel, pelo gesto ou pela mistura ordenada de todas estas substâncias (…).” (R. Barthes, «Introduction à l’analyse structurale des récits », Communications, 8, p. 1).

A citação é longa (mais longa até do que aquilo que aqui fica), mas basta-me para o que vem ao caso. Barthes mencionava o gesto, mas não a dança; mais à frente, falava na pantomima, a par do drama, do vitral e de outras manifestações aparentemente “narrativizáveis”. O que me leva à questão que agora me interessa: é a dança “narrativizável”? Por outras palavras: um bailado pode contar uma história? Devo dizer que, depois do que foi, nos últimos anos, a chamada viragem narrativista das ciências humanas e, com ela, a valorização do princípio da transnarratividade, tem-se agudizado o debate em torno de questões como aquela e outras que lhe estão associadas. E assim, a pintura, numa tela isolada (isto é, não em políptico), conta histórias? E a música? A música só por si, sublinho, não as palavras (a letra, para nos entendermos) que muitas vezes a acompanham. E a dança?

O desafio está relançado, a propósito do centenário do nascimento de José Saramago, que celebraremos de 16 de novembro deste ano a 16 de novembro de 2022. Do programa que está a ser finalizado constam, pelo menos, três produções de dança, nascidas e desenvolvidas a partir de textos de José Saramago: uma adaptação do Ensaio sobre a Cegueira, pela Companhia de Dança Contemporânea de Évora, um espetáculo já estreado e cuja apresentação se prolongará durante o centenário; um bailado intitulado Sinais de Pausa, pela Companhia Paulo Ribeiro, de Viseu, anunciado como criação inspirada no universo literário saramaguiano; uma adaptação de Memorial do Convento, pelo grupo “Dança em Diálogos”, a estrear em junho de 2022.

Já deixei sugerido aquilo que, nos três casos, constitui um repto muito interessante: até que ponto os gestos e os movimentos do corpo, a interação entre os bailarinos e a relação destes com a música e com os demais dispositivos cénicos são capazes de relatar os amores de Baltasar e Blimunda, a construção da passarola ou a deambulação dos cegos num cenário agreste e hostil. Tudo isto aquém da palavra e da sua articulação em discurso narrativo, quer dizer, prescindindo daqueles recursos verbais que nos dizem quem é esta figura, como se chama, a quem ama e a quem odeia, de onde vem e para onde vai, por que razão fez isto e não aquilo. Uma história, em suma, onde podemos ler grandes sentidos que atormentam a condição humana, conforme a ficção de José Saramago magistralmente a modelou. Estando em causa romances conhecidos (Memorial do Convento e Ensaio sobre a Cegueira), o propósito de recontar a história pela coreografia pode ser ajudado, do lado do espectador, pelo conhecimento prévio que a leitura faculta; se, mais difusamente, se trata de um bailado inspirado em grandes sentidos representados na literatura saramaguiana, o relato propriamente dito não é convocado de forma explícita, mas permanece o desafio: fazer das palavras lidas uma substância e uma forma outras, tomando como referencial temático a obra de um grande escritor.

Em suma: pelos riscos e pelas dificuldades que a empresa comporta, dançar Saramago será um dos acontecimentos mais ousados, fecundos e consequentes do centenário que aí vem.

Carlos Reis
Comissário para o Centenário de José Saramago

 

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