De Itália, uma homenagem a José Saramago e a Portugal

“Visitar Portugal de norte a sul, de este a oeste, foi uma homenagem a José Saramago” (Paolo Apa)

Documentário italiano, produzido por Paolo Apa, da visita ao Palácio da Pena, cujas palavras são um excerto de Viagem a Portugal, José Saramago.

 

 

“Explicar o Palácio da Pena é aventura em que o viajante não se meterá. Já não é pequeno trabalho vê-lo, aguentar o choque desta confusão de estilos, passar em dez passos do gótico para o manuelino, do mudéjar para o neoclássico, e de tudo isto para invenções com poucos pés e nenhuma cabeça. Mas o que não se pode negar é que, visto de longe, o palácio apresenta uma aparência de unidade arquitectónica invulgar, que provavelmente lhe virá muito mais da sua perfeita integração na paisagem do que da relação das suas próprias massas entre si. Elemento por elemento, a Pena é a demonstração aberrativa de imaginações que em nada se preocuparam com afinidades ou contradições estéticas. A torre briga claramente com o grande torreão cilíndrico do outro extremo, e este pertence a família diferente dos mais pequenos torreões oitavados que ladeiam a Porta do Tritão. Grandeza e unidade têm-na os fortíssimos arcos que amparam os terraços superiores e as galerias. Aqui encontraria o viajante uma sugestão para Gaudi se não fosse mais exacto terem bebido nas mesmas fontes exóticas o grande arquitecto catalão e o engenheiro militar alemão Von Eschwege, que veio à Pena por mando doutro alemão, D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha, dar corpo a delírios românticos muito do gosto germânico. É porém verdade que sem o Palácio da Pena a serra de Sintra não seria o que é. Apagá-lo da paisagem, eliminá-lo que fosse duma fotografia que registe aquelas alturas, seria alterar profundamente o que já é natureza. O palácio aparece como um afloramento particular da própria massa rochosa que o suporta. E este é decerto o melhor louvor que pode ser feito a um edifício que, nas suas partes, se caracteriza, como já alguém escreveu, por «fantasia, inconsciência, mau gosto, improvisação». Porém, onde essa fantasia, essa inconsciência, esse mau gosto, essa improvisação perdem limites e comedimento é no interior.” in Viagem a Portugal, José Saramago, Editorial Caminho (pp. 458-459)

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