Dia Mundial da Água: a cooperação é um imperativo, diz a Unesco

“A cooperação no domínio da água é um imperativo, não é uma escolha” – esta é a mensagem lançada pela Diretora-Geral da UNESCO, Irina Bokova, nas comemorações do Dia Internacional da Água realizadas na cidade da Haia (Holanda). O tema deste ano é a cooperação, uma vez que estamos no Ano Internacional da Cooperação pela Água.

Um mês depois do lançamento do Ano Internacional para a Cooperação no domínio da Água na sede da UNESCO em Paris (a 11 de março), a Unesco pretende garantir que este tema será tratado como prioridade na agenda para o desenvolvimento da comunidade internacional para depois de 2015.

Irina Bokova recordou que 90 por cento da população mundial vive em países que partilham os recursos aquáticos com os seus vizinhos. A cooperação, disse, “é mais do que um assunto técnico ou científico”, é também “sobre a luta contra a pobreza e a proteção do meio ambiente”.

“Demasiadas vezes as pessoas pensam que a cooperação no domínio da água é apenas um problema dos estados. Isso não basta. A cooperação deve acontecer a todos os níveis – do local para o global[…] Diz respeito aos governos e ao sector privado, diz respeito a todos nós”.

 

2013 foi proclamado o Ano Internacional da Cooperação pela Água pela Assembleia Geral das Nações Unidas. O compositor e maestro chinês Tan Dun foi hoje designado embaixador da Boa Vontade da Unesco por Irina Bokova, em reconhecimento pelo seu empenho na protecção dos recursos naturais, em particular a água. Ao fim do dia de hoje, o músico dirigirá a orquestra Filarmónica da Holanda na interpretação da sua composição “Music for Water”.

A propósito do Dia Mundial da Água, recordamos as respostas dadas por José Saramago a um inquérito do Greenpeace, aquando da Expo 2008 em Saragoça:

 

1) Relação actual entre o Homem a a Natureza e a tendência para encará-la apenas como fonte de recursos:

José Saramago (JS) – A ideia de que a espécie humana é é dona e senhora da natureza deve ter-nos chegado do livro do Génesis. Aí, no final da criação do mundo, Deus chamou Adão para lhe dizer que tudo aquilo era dele e que o usasse como entendesse.

Desgraçadamente, já conhecemos as consequências desta generosidade suspeita.

 

2) Sustentabilidade do modelo de crescimento constante e a “teocracia do mercado” que atualmente imperam, baseados no crescente consumo dos recursos naturais cujo eixo central é a água e a crença de que o consumo é igual a felicidade.

JS – Sustentabilidade só tem um significado. Se alguém está a cair e lhe damos a mão para que não se magoe, estamos precisamente a sustentá-lo. É lícito dizer que, de algum modo, o mundo entrou em queda livre. São necessárias muitas mãos e muita inteligência para levantá-lo de novo.

 

3) O papel dos países em desenvolvimento e a tendência de alguns deles de ver as campanhas contra o corte de florestas tropicais como ferramentas dos países ricos para controlá-los e limitar o seu desenvolvimento.

JS – Poderia entender-se o argumento se os países em desenvolvimento não tivessem mais riquezas naturais além das florestas tropicais. Seguramente não é assim. As boas causas só podem ser defendidas por boas razões.

 

4) Relação entre a pressão migratória Sul-Norte e a crise mundial da água.

JS – Relação única e exclusiva não me parece que exista, mas a trama de crises gravíssimas que assolam a humanidade é de tal complexidade que o problema da água não poderia estar ausente.

 

5) A visão fetichista da tecnologia e a crença de que sempre existirá uma solução tecnológica que permita o “business as usual”, considerando que a tecnologia nem sempre fornece uma solução mágica e até poderia gerar novos problemas (energia atómica, transgénicos, etc.)

JS – Como indivíduos e como espécie somos uns autênticos aprendizes de feiticeiro. A convicção de que dominamos as tecnologias só porque não nos enganamos demasiado quando pressionamos as teclas de um computador é uma ilusão perigosa. Para saber como funcionava uma máquina de escrever, bastava levantar a tampa. Hoje passamos o tempo a fingir perante nós mesmos e os outros conhecimentos de que temos apenas uma informação superficial.


6) O futuro da Humanidade em relação às múltiplas crises que se entrevêem, das quais a crise da agua é um elemento comum. Sobre a interpretação dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse como a Guerra (Conflito), a Fome (Pobreza), a Peste (Doença) e a Morte (sobrepopulação) como um futuro provável para a Humanidade: uma visão catastrofista ou algo óbvio que se prefere não mostrar nem comentar?

JS – Se estamos rodeados de catástrofes, parece-me prudente ter do mundo a visão que ele merece. Quando o desastre chega não escolhe entre otimistas e pessimistas. Falamos demasiado e não é raro que digamos coisas inteligentes mas totalmente inúteis. Menos palavreado e mais senso comum.

 

7)  Capacidade actual da comunidade internacional e dos seus políticos para enfrentar a crise da água gerando uma mudança de pensamento e estabelecendo novos paradigmas de vida e de comportamento. O papel – positivo ou negativo – dos meios de comunicação.

JS – Francamente não tenho nenhuma ideia do que seja a Comunidade. Internacional será certamente, mas de comunidade não tem nada. Não sejamos ingénuos. Digam-me quem é e onde está esse maravilhoso político capaz de gerar uma mudança de pensamento. Seria coisa para pedir aos filósofos, mas ninguém quer gastar o seu tempo com filosofias.

 

8) Considerando o esgotamento das ideologias, qual o papel que intelectuais como José Saramago poderiam ter na formação e instalaçao destes novos paradigmas.

JS – O chamado esgotamento das ideologias parece não se aperceber de que elas se multiplicam por todo o mundo e talvez tenham hoje mais influência na vida quotidiana das pessoas que as do passado. No que me diz respeito, fiz o que pude e não mudei nada. Esta é a dura realidade.

 

9) Importância de considerar a Água e o Saneamento direitos humanos.

JS – Direito do planeta e de quantos nele vivem.

 

 

 

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