Encontro amigável Portugal/Espanha: o humor contra a indiferença

Uma hora e meia de riso, debate e reflexão é o resultado do encontro amigável Portugal/Espanha que no fim da tarde de segunda-feira, dia 15 de abril, animou o auditório da Fundação José Saramago. Os portugueses das Produções Fictícias, do Inimigo Público, do Eixo do Mal  e do Contra Informação com (e não contra) os responsáveis do jornal satírico espanhol Mongolia, numa conversa sobre o papel do humor na crise em que os dois países vivem.

Mais satíricos e mestres de um humor iconoclasta, Eduardo Bravo, Fernando Oribe, Darío Adanti e Eduardo Galán explicaram que lhes interessa o humor como arma política. Exemplificando com algumas capas do jornal mensal que começou a ir para as bancas há um ano, deixaram claro que não recuam perante poderes instituídos, da monarquia espanhola à Igreja Católica e ao Governo.

Nuno Artur Silva, das Produções Fictícias, moderou a sessão e foi lançando questões para o debate, envolvendo Rui Cardoso Martins, escritor e responsável pelo programa televisivo (extinto) Contra Informação, Luís Pedro Nunes, diretor do jornal Inimigo Público, e o artista plástico António Jorge Gonçalves, cartonista do Inimigo Público.

 

Das diferentes opções e visões patentes entre os vários intervenientes, pode concluir-se que o alvo prioritário dos humoristas são os poderes dominantes. Mas ao longo da sessão, em que a conversa foi complementada por imagens, foram colocadas questões ideológicas e teóricas reveladoras de que os oito participantes têm estes temas muito pensados e todos recusam a piada gratuita.

Para os autores do jornal Mongolia, a utilização da sátira como arma política é uma forma de luta e não uma forma de fazer rir. “Entre uma piada que fizesse rir todas as pessoas do mundo mas que não tivesse qualquer efeito e uma outra que não fizesse rir ninguém mas fizesse cair o Rei, escolheríamos sem dúvida a segunda”.

Com oito homens na mesa, era inevitável a questão vinda do público: onde está o ponto de vista feminino? Ambas as “equipas” revelaram que têm humoristas mulheres a escrever e, sobretudo, que entre os criadores mais jovens surgem mulheres com muita qualidade.

O jornal mensal Mongolia é vendido em banca, com uma tiragem de 40 mil exemplares e uma venda superior a 20 mil. Com uma equipa reduzida que “faz tudo” e que inclui um advogado como elemento essencial, o jornal concilia a sátira agressiva com o jornalismo de investigação e com a denúncia das notícias não autorizadas nos meios de comunicação social. A opção pela edição em papel prende-se com a eficácia da mensagem (uma capa exposta numa banca é como um cartaz) e com a necessidade de ganhar dinheiro – os seis fundadores do Mongolia eram “rapazes que foram despedidos dos empregos”. A utilização das redes sociais, para os “mongolianos”, coloca problemas e, desde logo, “não dá dinheiro”.

O congénere Inimigo Público tem uma génese e uma prática diferentes do Mongolia. Nasceu há dez anos como suplemento do jornal Público, com 16 páginas, e hoje está reduzido a quatro. Embora tenha sido criado por jornalistas – Rui Cardoso Martins e Luís Pedro Nunes têm essa formação e essa prática – o suplemento não produz informação, trabalha antes sobre notícias já mediatizadasa e figuras reconhecíveis.

Pilar del Río fechou a sessão reafirmando a disponibilidade da Fundação a que preside para este tema: “Sem neutralidade, sem temor e sem resignação”, utilizando uma frase de José Saramago.

 

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