Ensaio sobre a Cegueira e Ensaio sobre a Lucidez apresentados em Pequim

No dia 11 de março, o Instituto Cervantes de Pequim recebeu a sessão de apresentação de duas novas publicações de autoria de José Saramago na China. O relato da sessão chega-nos através da Rádio Internacional da China:

“O grande escritor português, José Saramago, reestreia no palco literário da China com a publicação de versões chinesas de duas de suas obras: o Ensaio sobre a Cegueira e Ensaio sobre a Lucidez. O primeiro foi republicado e, o outro, editado agora pela primeira vez. Ambos foram traduzidos pelo sr. Fan Weixin, condecorado pelo ex-presidente português, Jorge Sampaio, em 1997.

Na cerimônia de lançamento, realizada em 11 de março no Instituto Cervantes, em Beijing, foram convidados o escritor titulado com o Prêmio Man Booker Internacional, Yan Lianke, o comentarista literário, Zhi’an e a jovem escritora, Ren Xiaowen, que compartilharam com dezenas de leitores chineses seus próprios entendimentos e sentimentos sobre as obras do mestre, assim como o valor da essência das obras de José Saramago.

Ensaio sobre a Cegueira é uma das obras mais bem conceituadas de José Saramago e o tornou o único escritor do mundo lusófono a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Já incluída na lista dos “Cem Melhores Livros de Todos os Tempos”, do Instituto Nobel, esta obra conta uma história de ficção. Na situação imaginária criada por Saramago, uma cidade inteira sofre uma epidemia de cegueira. Com o alastramento da doença, cada vez mais pessoas são contagiadas, passando a ter o escuro absoluto como companhia diuturna. Em consequência, a sociedade local cai no caos completo. As pessoas perdem dignidade e civilidade, passando a viver como animais. Num ambiente extremo, a natureza humana é questionada em seus mais primordiais referenciais, expondo animalescos desejos, que escaparam aos atentos olhos da vigilância social.

O escritor Yan Lianke leu o Ensaio sobre a Cegueira há 18 anos. Para ele, que leu a obra em uma sentada, o romance não ofereceu enredo complicado, mas causou-lhe indelével impacto. Segundo Yan, a grandeza de José Saramago reside no fato de que este deu vida e voz a uma ideia inusitada e até absurda, a de que os seres humanos retornam ao seu status original, revelando beleza e fealdade na conduta de pessoas, através da exposição constrangedora de peculiaridades que somente a miséria moral e socioemocional poderia oferecer.

Para os livros alegóricos, é mais cômodo e até mais fácil elaborar sátira afiada, mas o difícil é provocar emoções. Comparado com o La Peste, do escritor francês Albert Camus e 1984, do britânico George Orwell, Ensaio sobre a Cegueira consegue integrar, em si, dois aspectos: acionar o alarme da consciência e, ao mesmo tempo, comover a todos. “Neste sentido, José Saramago até supera George Orwell e Albert Camus”, concluiu Yan Lianke.

O erudito Zhi’an comparou Ensaio sobre a Cegueira com o livro bíblico Gênesis, considerando que este é uma epopeia da civilização humana e, aquele, uma retrospectiva do processo de civilização humana.

Devido ao toque épico que enseja, muitos leitores comparam a obra de José Saramago a Cien Anõs de Soledad, de autoria de Gabriel Garcia Marquez, que atualmente desfruta de significativa repercussão na China. Quanto a essa comparação, Zhi’an opinou: “Marquez descreveu apenas a história de centenas de anos da América Latina mas, Saramago, todo o espectro da humanidade”.

Outra característica de José Saramago é sua grande capacidade de combinar a rica imaginação e as experiências da vida, o que faz com que os seus leitores mergulhem em uma realidade absurda, sem estranheza. Como contou ele próprio, tudo o que aconteceu nesta obra pode encontrar-se na realidade. A alquimia entre o surrealismo e o realismo definiu a posição de José Saramago como grande mestre literário. Com perspicácia singular e penetrante, ele consegue pensar em coisas que outros não imaginaram, e descobrir o que outros não veem.

“Parece que havia um feixe de luz na mente de José Saramago, que iluminou todos os cantos sem perder nenhum pormenor”, disse Zhi’an.

Para Yan Lianke, os grandes escritores “têm que ser uma pedra de tropeço para o progresso de outros escritores”. E José Saramago é exatamente essa “pedra” para os escritores chineses. Após ler o Ensaio sobre a Lucidez, Yan Lianke repensou a literatura chinesa. Este romance conta uma farsa de sufrágio realizada na cidade, quatro anos depois de vencida a epidemia de cegueira, denunciando de forma profunda as contradições da democracia e da liberdade na sociedade humana. Da criação literária, à maneira de narrar, o português deu uma lição. Ao fazer uma introspecção sobre a literatura nacional, Yan Lianke falou: “Costumamos evitar a política e evitar os temas como democracia e liberdade. Para nós, uma obra literária tem de evitar a política. O Ensaio sobre a Lucidez prova exatamente que a política também pode ser um dos temas na criação literária.”

Em 2014, serão traduzidas e publicadas na China mais obras de José Saramago, a saber, Memorial do Convento, História do Cerco de Lisboa, O Homem Duplicado e As Pequenas Memórias.”

Notícia publicada na Rádio Internacional da China

Pin It on Pinterest

Share This