Escrever na Europa? Escrever em Portugal

Começarei por algumas considerações de carácter geral que espero possam ajudar-me a penetrar, com suficiente proveito, no tema particular destes debates.

É patente que estamos respirando hoje,  no sentido literal da expressão, uma mais desanuviada atmosfera, em contraste com as ansiedades, as tensões, os iminentes riscos que ainda há poucos anos faziam parte ameaçadora do nosso quotidiano. Trata-se de um facto novo que transporta em si extraordinárias potencialidades no sentido duma harmonização de relações no plano  internacional, que, não excluindo nem podendo excluir as contradições entre  sistemas políticos, sociais e económicos diferentes, passaria a tomar como suprema referência o respeito da vida e da dignidade
do ser humano.

Nos tempos históricos, desde a antiguidade, sempre as culturas viajaram de país para país, tanto nos fardos dos comerciantes como na ponta das lanças. Como processos radicais de expansão, o comércio e a guerra levavam consigo a cultura de um lugar a outro, servindo a força militar  e o domínio económico de mecanismos de pressão cultural directa e indirecta que, se algumas vezes fecundaram positivamente as populações sujeitas a um poder exterior, também não raro foram causa do efinhamento das culturas autóctones. Os  exemplos de culturicídio (permita-se o neologismo) abundam, não parece necessário chamá-los aqui.

Ora, ainda que com o cuidado de não  cair em tentação de prematuros optimismos, é fácil verificar que nunca, como hoje, desde há longos anos, esteve tanto ao nosso alcance fazer dialogar as culturas, colocando-as como tal frente a frente, sem que por trás delas tenha de surgir a antes habitual presença dos canhões, ou, não enos ostensivamente, do dinheiro. Que continuam lá, evidentemente, mas disfarçados. Seria demasiada ingenuidade, minha e vossa, supormos que essas demonstrações de força se retiraram da arena e do arsenal das políticas culturais.

Porém, grave desatenção seria também não  reparar em como estão crescendo forças culturais mais ou menos independentes dos poderes políticos centrais e como ganham uma consciência cada vez mais clara do papel que poderá caber-lhes no concerto do mundo. O diálogo, a cooperação e a paz são bens demasiado preciosos para continuarem entregues exclusivamente ao exercício dos políticos, por muito abnegados e competentes que sejam ou possam tornar-se. Não é pois despropositado que os escritores se ocupem destas questões e  doutras que com elas têm mais do que evidentes afinidades ou relações de interdependência.
Ao ser informado do tema escolhido para este ciclo de conferências, em que  vêm participar autores de diferentes países europeus, pensei, e ao pensá-lo creio não ter abusado do direito, que a cada um de  nós assiste, de especular sobre dados que, embora apresentando-se com alguma vaguidade conceptual, desde logo acordam em nós estímulos de contestação – pensei, dizia eu, que também esta cidade de Málaga  decidira juntar-se ao múltiplo movimento que, desde o económico ao cultural, procura,  com melhores ou piores resultados, fazer da Europa uma moda na Europa. Por princípio, e em geral, não lanço suspeitas sobre a bondade das intenções alheias, e  particularmente as que levaram a vossa «Cidade  do Paraíso» a eleger esse tema para comunicação, e debate, no quadro das suas  actividades. Tenho, porém, sobre estas prolixas questões, algumas dúvidas antigas  e modernas, e é delas que começarei por  dar-vos conta, esperando que mas recebam com benevolência, mesmo não indo elas a avor de teses que vos sejam caras e que certamente terão constituído o motor deste encontro.

Perante uma assembleia tão informada quanto esta é, não teria cabimento pretender traçar um panorama do mundo  de hoje, nos seus vários e complexos aspectos, tanto políticos como económicos, tanto culturais como ideológicos, tanto científicos como tecnológicos. Limitar-me-ei, nesta primeira abordagem, a pedir a vossa atenção para um facto, suponho que incontroverso: no governo dos países e do mundo trabalhamos quase exclusivamente com grandes números, tudo nos nossos dias se conta por milhões e milhares de milhões, quer se trate de dólares ou de ienes, de toneladas excedentárias de alimentos ou de prováveis, senão confirmadas, vítimas da fome, sem esquecer as lamentações impotentes dos devedores e as ameaças quantas vezes insolentes dos credores, tudo contado igualmente em milhões.

As pequenas quantidades passaram a ser  despiciendas, as estatísticas, quando não podem ignorá-las, desprezam-nas – e quanto aos pequenos países não lhes resta muito mais que tentarem negociar o seu voto pelo melhor preço possível, se não preferiram, coragem que se vai tornando cada vez mais rara, aceitar os riscos duma soberania incómoda aos desígnios de terceiros e afirmar uma personalidade nacional que, para ser digna, não necessitaria ser agressivamente orgulhosa. A regra, insistimos, não é esta, a regra veio a tornar-se numa qualquer forma de obediência aos interesses de parceiros mais poderosos, a regra veio  a ser a mão estendida e resignada à espera dessa panaceia do nosso tempo que é o subsídio, enfim, a humilhação que, de tão costumada, já se converteu em estilo de vida.

De alguma maneira se poderá mesmo dizer que não sobra no mundo espaço para os países pequenos, excepto quando  pertençam ao clube dos ricos, o que, podendo suceder por méritos próprios, também algumas vezes dependeu e continua a depender das conveniências históricas ou conjunturais doutros países. Estou a pensar no caso da Suíça que, no centro duma Europa possessa de todos os horrores da guerra, escapou ilesa por duas vezes neste século – o que levaria um espírito excessivamente ingénuo a crer que, afinal de contas, é possível viver em paz, embora a esse ingénuo espírito devêssemos nós argumentar que não é dado a todos preencher uma condição essencial: ser banqueiro do mundo.

A voz dos pequenos países, que os princípios básicos da participação democrática ainda vão permitindo que se ouça, é geralmente recebida nos organismos internacionais com um curioso misto de impaciência e de tolerância distraída, muito parecida com a atitude que os adultos  costumam assumir na sua relação com as crianças. Qualquer representante duma potência importante será sempre escutado com um respeito pouco menos que religioso, mas a oratória de um país fraco e dependente é o melhor dos pretextos para um passeio higiénico pelos corredores, em benefício da circulação sanguínea. Os votos, mesmo antes de anunciados, já estão contados.

Argumentar-me-eis que esta reunião é  muito diferente, que aqui não se  debaterão moções nem probabilidades de acordo, não se defrontarão potências, não se combaterão estratégias, não se aliciarão, por persuasão ou pressão mal disfarçada,

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