“Estranha impressão”, homenagem aos avós

A crónica de José Saramago sobre o avô Jerónimo (“O meu avô, também”, Deste mundo e do outro) ocupa um lugar especial na casa de Maria de Lurdes Poças, 44 anos, a vencedora do prémio “Retratar um livro”. Maria de Lurdes trouxe de Penafiel, da Escritaria de 2007, uma grande caixa onde figura um excerto dess texto e tem-na colocada na sala, bem à vista. É uma homenagem a José Saramago, que conheceu nesse encontro literário, e ao avô, António Maria, que a educou no gosto pela música, pelo teatro e pelo cinema.

Maria de Lurdes tinha acabado de comprar uma nova máquina fotográfica quando uma amiga lhe falou do prémio lançado pela Fundação José Saramago, este ano na segunda edição e dedicado a “O ano da morte de Ricardo Reis”. À medida que ia lendo o livro, assinalava passagens para ilustrar e foi descobrindo em casa objectos que lhe haviam de servir para compor as imagens. Leu também entrevistas do escritor, mobilizou família e amigos para fazerem figuração. No caso da fotografia vencedora – “Estranha impressão” – fotografou um amigo de fato e chapéu diante de um roupeiro que pertenceu aos avós. “Imaginei a situação para que a imagem ficasse difusa e esta foi uma das últimas fotografias que tirei”. Nunca pensou que a foto seria premiada, até porque a cor não estava exactamente como queria – hesitou em inclui-la no conjunto que enviou.

Jurista da Segurança Social, Maria de Lurdes gosta de desenho e fotografia mas não fez formação nessas áreas. Com o avô materno viu muitas óperas, filmes e peças de teatro na RTP2, e o pai deu-lhe a conhecer escritores como Fernando Namora, Miguel Torga e Saramago. O pseudónimo que usou para o concurso é feito do nome do avô – António Maria – e do apelido da avó – Dorinda Pereira, uma forma de carinhosa de recordá-los.

Em Penafiel, filmou a intervenção de José Saramago: “À primeira vista parecia uma pessoa seca, mas tinha um coração grande, sempre preocupado com o que se passava em volta, uma pessoa justa e crítica, com coragem para dizer o que pensava”.

Tinha pensado ir de férias este ano para Lanzarote mas o preço das viagens desviou-a para outra ilha de escritores – a Irlanda. “Mas tenho de ir ver Lanzarote,   o projecto fica à espera”.

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