Gore Vidal e José Saramago: a reescrita da modernidade

Os romances de Gore Vidal e de José Saramago são “exemplos de resistência contra os abusos da representação oficial da memória da nação”, defende a investigadora Adriana Alves da Paula Martins numa obra em que analisa e compara as obras dos dois escritores.

“A construção da memória da nação em José Saramago e Gore Vidal” é o título do estudo daquela académica da Universidade Católica Portuguesa,  publicado pela editora alemã Peter Lang em 2006, e que é uma versão revista da sua tese de doutoramento.

“Acredito que os romances saramaguianos e vidalianos, ao porem em xeque as representações literária e histórica do passado através do desencadeamento de um processo de revisão da memória da nação, refletem, em certa medida, a perda da confiança espistemológica no projeto da modernidade, procurando, por outro lado, tentar redimensioná-lo”, defende Adriana Martins, que diz ainda: “Apesar de as propostas de reconfiguração simbólica da memória da nação feitas por Saramago e Vidal serem ficcionais, elas acabam, de alguma forma, por ganhar o estatuto de memórias ‘oficiais’, sobretudo quando se considera o facto de ambos os escritores serem personalidades de relevo nacional e internacional, que têm um papel importante de intervenção nas vidas política e cultural dos seus países”.

 

A análise feita pela autora do estudo é minuciosa e contempla diferentes obras dos escritores, sublinhando as diferenças e os pontos de contacto.

Na conclusão, aponta:

“Ao interrogarem as representações do passado através do questionamento sobre a construção da memória da nação e ao exporem as manipulações a que a memória colectiva está sujeita, os romances dos dois escritores declaram, ainda que em graus bem diferentes, guerra ao conhecimento totalizador subjacente à historiografia oficial e assumem uma dimensão que é cognitiva, didática e ideológica, que, por sua vez, é projetada na reconfiguração simbólica da memória da nação que deles releva. (…) Nesse sentido, encaro os romances dos dois autores como momentos de reescrita da modernidade, na medida em que, com Milan Kundera, acredito que eles se constituem em respostas às obras que lhes antecederam, ao conterem em si toda a experiência anterior do romance enquanto género.”

Adriana Alves da Paula Martins, da Universidade Católica Portuguesa, tem extensa obra publicada na área da Literatura Comparada, incluindo análise às obras de Ohran Pamuk, J.M. Coetzee, George Orwell, José Saramago, Fernando Pessoa, António Lobo Antunes ou Lídia Jorge.

 

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