Hoje é o Dia Internacional da Alfabetização, dedicado à Paz

A Unesco distiguiu com o Prémio de Alfabetização de 2012 projetos realizados no Butão, na Indonésia, na Colômbia e no Ruanda, no âmbito do Dia Internacional de Alfabetização que hoje se comemora.

O tema deste ano é a Alfabetização e a Paz, sublinhando a necessidade de dotar as populações atingidas por situações de guerra de ferramentas que lhes permitam dar solidez à paz, sabendo-se que a alfabetização é essencial para a melhoria das condições na saúde, da agricultura e no emprego.

“Num país onde a taxa de analfabetismo é de 27% não haverá mudança enquanto se considerar que o analfabetismo é um problema exclusivo do ministério da educação. É preciso que todos o sintam como um problema seu.” Estas palavras referem-se ao Sudão do Sul (o país com maior taxa de analfabetismo no mundo) e são da especialista da Unesco Jessica Hjarrand, que ali se encontra depois de ter feito missões no Afeganistão e no Iraque.

“O grupo encarregado do HIV e da Sida no Iraque é um exemplo disso”, disse a especialista em entrevista publicada no site da Unesco, recordando as palavras de um outro responsável: “Um medicamento nas mãos de um analfabeto pode transformar-se num veneno se a pessoa for incapaz de ler as instruções”. 

Afirma ainda Hessica Hjarrand: “Um dos funcionários com que trabalhamos disse que em cada uma das línguas faladas no Sudão do Sul a palavra paz traduz-se como “não guerra” E por isso um dos temas da Conferência Nacional de Alfabetização deste ano será ‘No Sudão do Sul já não temos guerra. Mas temos paz?’ Os cidadãos estão a começar a conceber a paz como a ausência das condições suscetíveis de gerar um conflito e esta ideia relaciona-se diretamente com o desenvolvimento do país. A construção da paz, para ser duradoura, requer muito tempo.”

“A alfabetização é a medula do direito humano à educação”, prossegue a especialista. “Quando se cria a motivação necessária para aprender a ler e escrever, as pessoas investem nelas próprias e isso leva os outros a perceber que elas merecem que se invista nelas”. 

 

Jessica Hjarrand recorda experiências vividas no Afeganistão e no Iraque. “No Afeganistão, sentei-me no chão de uma mesquita enquanto os alunos faziam exames. Alguns estudantes tinham 80 anos e eram ensinados por um professor que ainda não tinha terminado o ensino secundário. Este jovem professor alfabetizava de manhã e à tarde tinha assuas próprias aulas. Os alunos elogiavam-no como um dos melhores docente que tinham tido.”

“No Iraque, era impressionante o orgulho das pessoas por o país ter tido em tempos o melhor sistema educativo do Médio Oriente, incluindo o ensino das mulheres. Na década de 1980, a Unesco declarou o Iraque país livro do analfabetismo. Hoje, depois do exílio de muitos intelectuais e com a permanente insegurança, o Iraque sofre um dos índices de analfabetismo mais altos da região, Mas mantém-se uma arreigada recordação dos dias gloriosos e as pessoas que conheci estavam decididas a voltar a eles. Um estudante do secundário do Curdistão disse-me: “foi a nossa cultura que ensinou o resto do mundo a ler e a escrever”.

Já sobre a situação no Sudão do sul, assinala: “Há muitíssima capacidade e motivação mas o problema está no financiamento e outros fatores que escapam ao controlo dos funcionários que têm a cargo a alfabetização. Na primeira semana em que lá estive, visitei um centro de formação profissional para mulheres que tinham estado envolvidas na guerra, promovido pela Organização Internacional para as Migrações. Este centro faz parte do promeiro programa de desarmamento, desmobilização e reintegração. Um grupo de mulheres aprendia a cozinhar, para abrir restaurantes, e preparou-nos comida deliciosa. Depois de comer, cantámos e dançámos, algumas delas com os bebés atados às costas. Cantavam: antes lutávamos com armas, agora lutamos com papel e lápis.

Com o pessoal da Unesco no Iraque, fizemos um cartaz didático sobre o ensino relativo ao HIV e à Sida nos programas de alfabetização. A princípio estava cética: falar de sexo e educação sexual no Iraque? Mas na última reunião que fizemos com funcionários governamentais, alfabetizadores e gente das ONG, os participantes mostraram-se muito gratos pela experiência, confessando que também tinham tido dúvidas no início. Alguns deles percorreram o país para ir a essa reunião – vinham do Curdistão, do Sul ou de Bagdade – e tiveram de atravessar zonas onde a segurança era muito precária. O êxito do projeto radicou na sensação de camaradagem, na vulnerabilidade partilhada que se criava ao abordar um tema tão polémico e aprender a aceitar os desacordos. Disseram que se sentiam membros da mesma família, pediram mais fundos pata continuar a trabalhar e até criaram uma página no facebook para se manterem em contacto.”

Fonte: Unesco

 

 

 

 

 

 


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