José Saramago é capa da última revista Bravo!

A revista brasileira Bravo! deste mês de agosto traz Saramago como reportagem principal. A publicação aborda a chegada ao Brasil do ensaio “Da Estátua à Pedra” e dedica oito páginas ao escritor português. 

As imagens que ilustram o artigo são do fotógrafo português João Francisco Vilhena e o texto do jornalista brasileiro Ricardo Viel.

A edição de número 192 será a última da Bravo!. Depois de quase 17 anos a revista será “descontinuada”, como anunciou a editora Abril no começo do mês. Segundo a empresa, a publicação, que tem uma tiragem de cerca de 30 mil exemplares mensais, nos últimos anos tem dado prejuízo. 

O editor da Bravo!, Armando Antenore, publicou uma emotiva carta de despedida na última edição da revista. Nela, José Saramago e o avô Jerónimo são mencionados.

Leia a carta do editor:

A Flip e demais festas literárias que se espalham pelo Brasil são a prova: escrever com desenvoltura e originalidade não significa necessariamente ter aptidão para dar conferências, mediar debates ou mesmo jogar conversa fora num boteco. Nem todos os romancistas, poetas e contistas dominam a narrativa oral. O português José Saramago certamente não pertencia à turma dos ruins de papo. Em geral, quando decidia enfrentar uma palestra ou entrevista, assumia contornos de Sherazade e discorria sobre inúmeros temas de maneira hipnótica. Quem o escutava saía da experiência quase sempre maravilhado. Como mostra a reportagem que ganhou a capa desta edição, Saramago discursou para uma seleta plateia de intelectuais na primavera de 1998, em Turim.

Durante mais ou menos uma hora, relembrou os antepassados, reviu a própria carreira e identificou diferenças entre os livros que publicou – tudo de improviso, com graça e clareza desconcertantes. O pronunciamento, transcrito, resultou em 28 páginas.

O fim da apresentação recuperava uma história que o literato já contara outras vezes e que continua me emocionando. Quando beirava os 73 anos, Jerónimo, o avô materno de Saramago, sofreu um acidente vascular cerebral. O infortúnio não parecera tão grave de início, mas depois se revelou preocupante. O médico recomendou, então, que o paciente abandonasse a aldeia onde morava e se internasse num hospital de Lisboa. Jerónimo – um homem rude, analfabeto, que criava porcos – dividia com a mulher uma casa simples, de apenas dois cômodos e chão de barro. No quintal, plantara umas quantas oliveiras, figueiras e pereiras. Mal a carroça que o levaria à estação ferroviária chegou, o velho, pressentindo que não retornaria, saiu do casebre e abraçou cada uma das árvores. Não emitiu nenhuma palavra. Somente chorou baixinho e enlaçou a minúscula floresta.

O episódio me impressiona sobretudo pela contenção. Para se despedir dos seres mansos e quietos que lhe encheram os dias de sentido, o camponês optou por um gesto igualmente manso e quieto. Não lamentou o rumo que as coisas tomaram, não amaldiçoou as transformações que presenciava nem as que deixaria de presenciar, não fez elogios às árvores, não recordou os bons momentos que compartilharam. Resignou-se em dizer tudo o que gostaria sem dizer nada. Ironicamente, tempos depois, o neto de Jerónimo se notabilizaria justo pelo contrário: pela necessidade incontornável de atar a vida às palavras. Não quaisquer palavras, é claro, mas ainda assim palavras – e copiosas, fluidas, abrangentes.

Ocorre que, em determinadas circunstâncias, atitudes semelhantes às do avô têm impacto maior que posturas como as do neto. Há despedidas que não encontram tradução. O que falar diante de um amigo que se muda para bem longe, um amor que morre, um projeto querido que se interrompe? Às vezes, o melhor – o mais preciso e eloquente – é dar adeus em silêncio.

Armando Antenore
Redator-chefe

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