Mês do Desassossego (11)

“…o fogo arrasou completamente toda a nossa comarca, além de outras zonas da Catalunha. Foi como um instante, uma tarde de pânico-luta-impotência-indignação (…) Houve gente que perdeu a casa, só dois a vida, muitos o gado. Era horrível ouvir os gritos das vacas queimando-se. (…) Um incêndio que vinha de longe, de muito longe, mas tão veloz que os homens não podiam sequer segui-lo.(…) Pus o cão a salvo, mais ou menos, e as disquetes da [minha] tese e dos trabalhos de José numa mochila, molhei toda a casa e fui-me com os demais. (…) como sempre acontece nesta época do ano, a televisão mostrou os incêndios.” (…) Este relato de Jèssica, porém, torna a tragédia subitamente mais real. Ela quase não descreve o incêndio, só diz, como de passagem, umas quantas palavras diante das quais a memória das imagens empalidece. Refiro-me aos ‘gritos das vacas queimando-se’. Como toda a gente, eu sabia que as vacas mugem, agora sei que também gritam.
in Cadernos de Lanzarote, Diário II

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