Mês do Desassossego (12)

Dias de passeio. O deslumbramento dos amigos que nos visitam e que acompanhamos a conhecer a ilha mantém vivo e atento o nosso próprio olhar, impede-nos de deslizar aos poucos para uma perceção rotineira, que resultaria de voltar aos sítios conhecidos e encontrá-los iguais. O que, pensando bem, não há grande risco de que venha a acontecer. Por exemplo, nos Jameos, pela pri- meira vez, vi como um jorro de luz descia de um buraco no teto da caverna e atravessava a água límpida, iluminando o fundo, sete metros abaixo, a ponto de parecer que lhe podíamos chegar com as mãos. Lembrei-me, nesse momento, das últimas palavras que escrevi na Viagem a Portugal: “É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.”
in Cadernos de Lanzarote, Diário II, pág. 176

Pin It on Pinterest

Share This