Mês do Desassossego (2)

“Os governos não os cumprem [os Direitos Humanos]. Não interessam às empresas multinacionais e às nacionais. A cidadania está apática. Os direitos humanos continuam a ser uma espécie de comédia, pior que uma comédia, uma farsa e, pior que uma farsa, uma tragédia, porque só servem para a retórica parlamentar ou política quando convem; mas depois põe-se-lhes uma pedra em cima e acabou-se. “

“Na Colombia não há guerrilhas, mas bandos armados”, El Tiempo, Bogotá, 28 de novembro de 2004 [Entrevista de Yamid Amat] 

 

“Quando a guerra [contra o Iraque] começou, uma amiga em Espanha perguntou-me: ‘E agora o que fazemos?’ Respondi-lhe: ‘Queres uma outra causa? Está aí: chama-se Direitos Humanos.’ Essa é uma das caricaturas mais trágicas do nosso tempo: temos 30 direitos consignados numa Carta e se os lermos agora é de cair em gargalhadas ou em lágrimas. Nada daquilo se cumpre. Se penetrasse no espírito da chamada opinião pública esse escândalo tinhamos aí muitos motivos para ações políticas, com caráter social e até conspiratório.

“José Saramago. Uma homenagem à Língua Portuguesa”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, n.o 994, 4-18 de Novembro de 2008 [Entrevista de Maria Leonor Nunes] 

 

in “Saramago das suas Palavras”, pág. 475

“UMA BOA IDEIA

Talvez não seja mais que uma gota de água doce caindo no amargo oceano do cepticismo e da indiferença, mas creio que deveríamos alegrar-nos por uma boa ideia agora posta em marcha em Espanha, na província de Granada, a qual consistirá em celebrar, anualmente, a entrada na maioridade, não apenas administrativa, mas também cívica, dos jovens que cumprirão 18 anos. A cada um deles será entregue a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Constituição Espanhola e o Estatuto de Autonomia de Andaluzia. Haverá, claro está, outros atos celebratórios, mais lúdicos, de menor teor de solenidade, mas, como as coisas sérias só seriamente deverão ser tratadas, diga-se que apetrechar os onze mil jovens que se calcula irão dar, de cada vez, o passo em frente que os vai fazer entrar num tempo diferente, o da responsabilização da civilidade, apetrechá-los, digo, com essas três peças fundamentais não poderá deixar de contribuir para uma formação mais sólida, mais consciente, dos novos cidadãos. A ideia é boa e oxalá se generalize. Fazer dela uma festa cívica coletiva irá necessitar muita criatividade e empenho, mas esses, certamente, não faltarão.

A gota de água doce a que me referi no princípio não caiu no mar salgado, mas na minha mão. Sorvi-a como se matasse uma sede nestes dias em que a frustração caiu sobre muitos de nós, vendo como se estão alegrando as forças políticas europeias de direita e de extrema-direita. A democracia ainda não está em perigo, mas é de nós que depende impedir que tal aconteça. Granada está no bom caminho.”

in “O Caderno 2”, pág. 122

Pin It on Pinterest

Share This