Mês do Desassossego (20)

HISTÓRIAS DA EMIGRAÇÃO

Que atire a primeira pedra quem nunca teve nódoas de emigração a manchar-lhe a árvore genealógica… (…) se tu não emigraste, emigrou o teu pai, e se o teu pai não precisou de mudar de sítio foi porque o teu avô, antes dele, não teve outro remédio que ir (…) à procura do pão que a sua terra lhe negava. (…) Alguns(…) não perderam nem querem perder a memória do tempo em que tiveram de padecer todos os vexames do trabalho mal pago e todas as amarguras do isolamento social. Graças lhes sejam dadas por terem sido capazes de preservar o respeito que deviam ao seu passado. Outros muitos (…) cortaram as pontes que os ligavam àquelas horas sombrias, envergonham-se de terem sido ignorantes, pobres, às vezes miseráveis, comportam-se, enfim, como se uma vida decente, para eles, só tivesse começado verdadeiramente no dia felicíssimo em que puderam comprar o seu primeiro automóvel. Esses são os que estarão sempre prontos a tratar com idêntica crueldade e idêntico desprezo os emigrantes (…) Aquele que antes havia sido explorado e perdeu a memória de o ter sido, explorará. (…) Em verdade, em verdade vos digo, há certas maneiras de ser feliz que são simplesmente odiosas. 

in O Caderno 2, pág. 170

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