Mês do Desassossego (21)

Guerra nuclear, guerra bacteriológica, guerra química, guerra biológica. Destes quatro cavalos do Apocalipse, cavalgue o diabo o que quiser. O corpo do homem é uma excelente cobaia. O espírito, também. Já passou por todas as torturas antigas, medievais e modernas, já uivou em campos de concentração, já se volatilizou no clarão cegante de uma modesta bomba atómica, já deu a pele para quebra-luzes melhores que pergaminho. Está treinado e preparado para mais altas aventuras.
O Planeta dos Horrores. Se eu tivesse ambições de escritor de ficção científica, ia ali à Propriedade Intelectual e Artística e registava este excelente título. Ou este, mais para livro policial, que não é pior: A Morte Paga a Pronto. Como se vê, imaginação não me falta. Como não falta também àqueles que querem que a morte pague a pronto – e por atacado. Ah, leitor, como nós andamos distraídos!

in “Deste Mundo e do Outro”, pág. 193

HOMEM NOVO
Culturalmente, é mais fácil mobilizar os homens para a guerra que para a paz. Ao longo da história, a Humanidade sempre foi levada a considerar a guerra como o meio mais eficaz de resolução de conflitos, e sempre os que governaram se serviram dos breves inter- valos de paz para a preparação das guerras futuras. Mas foi sempre em nome da paz que todas as guerras foram declaradas. É sempre para que amanhã vivam pacifica- mente os filhos que hoje são sacrificados os pais…
Isto se diz, isto se escreve, isto se faz acreditar, por saber-se que o homem, ainda que historicamente edu- cado para a guerra, transporta no seu espírito um per- manente anseio de paz. Daí que ela seja usada muitas vezes como meio de chantagem moral por aqueles que querem a guerra: ninguém ousaria confessar que faz a guerra pela guerra, jura-se, sim, que se faz a guerra pela paz.

in O Caderno 2, pág. 80

Pin It on Pinterest

Share This