Mês do Desassossego (5)

“Eu sou um pessimista, acho que nasci numa hora má, porque se pode dizer que sou pessimista desde sempre. Não me lembro como me comportava quando andava de fraldas, mas acho que já era assim. O que eu não entendo e procuro entender é como é que a humanidade chegou a um tal ponto de desenvolvimento científico e tecnológico que um leigo julgará que temos tudo para resolver uma grande parte dos problemas da humanidade. Mas a verdade é que não temos. Terá algum sentido um mundo em que se morre literalmente de fome numa parte, ao mesmo tempo que, noutra parte, se matem quatrocentas mil vacas porque estão a produzir demasiado leite?”

“José Saramago, escritor: Poderia ter continuado em Portugal, mas não aguentei”, Canarias 7, Las Palmas, Canárias, 20 de fevereiro de 1994 [Entrevista de Esperanza Pamplona] 

in “Saramago nas suas palavras”, pág 145



“Eu acabaria de vez com esse debate do pessimismo e do otimismo. Não me parece que tenha um interese especial, porque se há pessimistas, esses que se dizem pessimistas têm algum motivo, e se há otimistas também dirão que algum motivo têm. (…) os pessimistas são os únicos que têm motivos para querer mudar o mundo, porque o mundo não está bem, portanto querem mudá-lo e melhorá-lo. Os otimistas não. Eles não fazem nada, estão contentíssimos. (…) no plano pessoal, tenho todos os motivos para ser otimista. Mas tenho um que me amarga a vida, e que se chama mundo. Posso fechar esta casa (…) construo aqui uma ilha, ponho uma espécie de arame em volta da minha casa e aqui não se passa nada. Não posso fechar-me, porque é preciso recordar que o mesmo arame que impediria o mundo de entrar me impediria a mim de sair.”

Halperín, Jorge (2002)

Saramago: Soy un comunista hormonal, Le Monde Diplomatique, pág. 36/37


 


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