Morreu Georges Moustaki, judeu errante e pastor grego que cantou os cravos de Abril

O cantor e compositor Georges Moustaki, autor de canções como Le Métèque, morreu esta manhã com 79 anos na sua casa de Paris, na ilha de Saint Louis. Em 1974, saudou o 25 de Abril com a canção “Portugal”, que criou com Chico Buarque (Fado Tropical): “A ceux qui ne croient plus/Voir s’accomplir leur idéal/Dis leur qu’un œillet rouge/A fleuri au Portugal”.

Moustaki deu vários concertos em Portugal, sempre com casas cheias e calorosas. Em 2008, um ano antes de deixar os palcos, atuou na Casa da Música no Porto e no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. José Saramago gostava muito deste cantor e criador, e várias vezes se lhe referiu com carinho e admiração em entrevistas.

O cantor sofria há alguns anos de uma doença respiratória que há alguns anos o impedia de cantar.

Nascido em 1934 em Alexandria, no Egito, com o nome Giuseppe Mustacchi, filho de judeus gregos aí imigrados. Da cidade egípcia comparada à Torre de Babel, Moutstaki foi para Paris aos 17 anos, onde começou por vender livros de poesia porta a porta. Nunca deixou de se sentir um estrangeiro sem pátria, um homem do mundo, e chegou a dizer-se “brasileiro do coração”. Pouco a pouco, foi-se integrando o meio artístico e intelectual de Saint Germain des Prés, mas dizia-se sempre “dentro e fora” de todos os ambientes, e em especial no meio do espetáculo. 

Escreveu cerca de 300 canções para Edith Piaf, Yves Montand, Juliette Gréco, Barbara, Dalida ou Serge Reggiani, e ele próprio as interpretou com um enorme êxito. Em 1969, correu mundo a canção “Le Métèque”, com um poema que o definia como “meteco, judeu errante e pastor grego, com os cabelos aos quatro ventos”. Muitas das suas composições tornaram-se clássicos, como “Milord” composta em 1958 para Edith Piaf, “Ma Liberté” e “Ma solitude”, para Serge Reggiani, “La Dama Brune”, para Barbara.

Considerado umas das vozes do Maio de 1968, Moustaki afirmou nessa altura à agência Lusa que dessa revolução “resta uma certa arte de viver, um certo código ético que, mesmo que não seja unânime, impregnou-se na nossa cultura”.

Numa entrevista ao jornal L’Humanité, em 2008, a propósito do disco “Solitaire”, Moustaki explicou a escolha deste título: “É uma palavra que se adequa ao meu estado de espírito. A imagem de alguém que gosta de traçar o seu próprio caminho, sem demasidas diretivas, sem preparação. Sou uma pessoa sociável mas sou um marginal. Não tenho os mesmos horários, não utilizo o meu tempo como a maior parte das pessoas que vejo. Não é uma hierarquia de funções. Sou assim. É o meu carácer e a minha forma de vida.”

 

Site oficial de Georges Moustaki

Libération

L’Humanité

Público

Diário de Notícias

El Pais

 

PORTUGAL, o Fado Tropical de Chico Buarque

Oh muse ma complice
Petite sœur d’exil
Tu as les cicatrices
D’un 21 avril

Mais ne sois pas sévère
Pour ceux qui t’ont déçue
De n’avoir rien pu faire
Ou de n’avoir jamais su

A ceux qui ne croient plus
Voir s’accomplir leur idéal
Dis leur qu’un œillet rouge
A fleuri au Portugal

On crucifie l’Espagne
On torture au Chili
La guerre du Viêt-Nam
Continue dans l’oubli

Aux quatre coins du monde
Des frères ennemis
S’expliquent par les bombes
Par la fureur et le bruit

A ceux qui ne croient plus
Voir s’accomplir leur idéal
Dis leur qu’un œillet rouge
À fleuri au Portugal

Pour tous les camarades
Pourchassés dans les villes
Enfermés dans les stades
Déportés dans les îles

Oh muse ma compagne
Ne vois-tu rien venir
Je vois comme une flamme
Qui éclaire l’avenir

A ceux qui ne croient plus
Voir s’accomplir leur idéal
Dis leur qu’un œillet rouge
À fleuri au Portugal

Débouche une bouteille
Prends ton accordéon
Que de bouche à oreille
S’envole ta chanson

Car enfin le soleil
Réchauffe les pétales
De mille fleurs vermeilles
En avril au Portugal

Et cette fleur nouvelle
Qui fleurit au Portugal
C’est peut-être la fin
D’un empire colonial

Et cette fleur nouvelle
Qui fleurit au Portugal
C’est peut-être la fin
D’un empire colonial

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