Morreu Manuel António Pina, Prémio Camões 2011

O escritor e jornalista português Manuel António Pina morreu na sexta-feira, no Hospital de Santo António, no Porto. O corpo está em câmara ardente na Igreja do Foco, no Porto, de onde sairá para cremação, amanhã às 9h30, no cemitério do Prado do Repouso.

Manuel António Pina, 68 anos, foi galardoado com Prémio Camões em 2011. A sua obra poética está reunida no volume Todas as Palavras (2012), editado pela Assírio & Alvim. A obra “Os Livros” mereceu-lhe o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava, em 2004. No ano seguinte, recebeu o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores/CTT.

A Fundação José Saramago lamenta profundamente a morte de Manuel António Pina e junta-se a todos os que sofrem esta perda como um empobrecimento da cultura e do pensamento cívico.

Poeta, escritor e jornalista, Manuel António Pina nasceu no Sabugal, licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimba e vivia no Porto, onde foi jornalista no Jornal de Notícias por três décadas. Foi repórter, redator, editor e chefe de redação, mantendo até há poucos meses, na última página do JN, a crónica “Por outras palavras”. Foi ainda cronista da “Notícias Magazine”.

 

Da belíssima obra poética deste cronista exemplar, que se dedicou também à literatura infanto-juvenil e ao teatro, aqui deixamos dois poemas:


Uma sombra

Ouves os meus passos nas escadas?
Quando eu bater à porta
não me reconheceremos.

Voltarei de um dia de trabalho,
subirei as escadas
e perder-me-ei para sempre
em qualquer sítio fora de qualquer sítio.

Não foi o caminho de casa que perdi?
Não ficou alguém em qualquer sítio,
uma sombra passando diante de nós,
e principalmente fora de nós?

Agora quem sente
isto fora de mim,
quem é esse ausente?



Completas

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

 

Pin It on Pinterest

Share This