Nasce a revista acadêmica de estudos saramaguianos

Nasce a revista acadêmica de estudos saramaguianos

Produto de um encontro entre pesquisadores da obra de José Saramago de três pontos do planeta, a Revista de Estudos Saramaguianos será apresentada no próximo dia 15 de novembro, no âmbito do Dia do Desassossego, programa criado pela Fundação José Saramago para assinalar o aniversário do escritor. A revista, que terá periodicidade semestral, será publicada em dois idiomas (português e espanhol) e reunirá ensaios de pesquisadores de Brasil, Portugal e Argentina.

A publicação terá uma edição electrónica e gratuita. O primeiro número também terá uma versão em papel.

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Leia abaixo o texto de apresentação da revista:

O que é a REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS

A REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS é produto do encontro de pesquisadores da obra de José Saramago de três lugares do mundo. Seu viés é o de uma revista acadêmica, com tiragem semestral, gratuita e eletrônica cuja proposta é a publicação de ensaios, documentos e recensões críticas que tenham como escopo a obra do escritor português. Seu objetivo é o de fortalecer os estudos, intercambiar pesquisas e dar a conhecer as diversas possibilidades de leituras em torno da obra saramaguiana. 

A primeira edição tem uma tiragem impressa pela Editora Patuá. A publicação é apresentada em dois volumes: um em língua portuguesa e outra em língua espanhola, as duas línguas em que circularão os textos publicados de agora em diante.

É notável que desde o final dos anos oitenta a produção acadêmica em torno da obra de José Saramago, até então quase inexistente, tem se avolumado numa proporção sem limite calculável. Dos escritores em língua portuguesa, a obra do Prêmio Nobel de Literatura, tem uma abertura para pesquisas ao redor do mundo cuja proporção não temos alcance exato. Entretanto, uma rápida busca nos arquivos de universidades, em revistas acadêmicas, em eventos organizados, nos coloca sempre diante de uma quantidade surpreende de estudos e abordagens diversos. A REVISTA quer, assim ser um espaço em torno desse interesse em manter vivo o legado construído pela literatura saramaguiana.

É uma revista acadêmica, mas sem resistir aos apelos da sisudez da academia. A parceria editorial é dada entre investigadores da obra de José Saramago de Brasil, representado pelo professor Pedro Fernandes (mentor da ideia), Argentina, pelo professor Miguel Koleff e Portugal, pela Fundação José Saramago.

Tem o interesse de ser um espaço vivo, vozes em torno de uma mesma obsessão, um mesmo nome, uma mesma obra tornada sempre mais necessária ao exercício de compreensão de nós mesmos num mundo que se mostra sempre pela incoerência e pela incapacidade de reunir numa mesma unidade o sentido principal que nos irmana: a humanidade. Não é uma uniformização, evidentemente, o que queremos. É uma abertura a pontos de vista diferentes no intuito não da tolerância, que esta palavra é uma farsa cara à convivência, e sim, uma ampliação do universo de perspectivas desenhado pela obra de José Saramago.

De onde vem a ideia de sua criação

A ideia não nasceu ao acaso e nem se construiu sozinha, pelo que já dissemos anteriormente. Ela é esforço de uma coletividade. A proposta que começou a ser costurada pelo professor Pedro Fernandes na noite de vigília quando lhe veio, de fato, a consciência da partida Saramago naquele 18 de junho de 2010 e lembra ser este também um produto do “que assumiu de si para com os livros do escritor português que estavam à sua frente naquela ocasião”; “a profissão de fé”, segundo ele próprio chama foi “baseada tarefa de todo crítico, que é a de dar a conhecer, pela via mais simples, o esforço de outros homens cujo desejo é sempre o de dizer sobre eles e o mundo onde estão”.

Ele e Miguel Koleff, editores da ideia, compreendem e desenvolvem no texto de apresentação da primeira edição para a REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS que “a tarefa de todo estudioso da literatura é irmanar-se com a obra não para catar louros de glória, mas para continuar a exercer as revisões sempre necessárias, hoje mais que sempre, de um extenso, ardoroso e mais complexo itinerário, o de humanização – esse que vimos construindo entre erros e acertos desde quando assumimos a consciência sobre o mundo e demos por inaugurado o império da razão”.

Pedro Fernandes é pesquisador da obra de José Saramago desde o curso de Licenciatura em Letras, quando conheceu o trabalho do escritor português através da leitura de O evangelho segundo Jesus Cristo. Tem quase oito anos que se dedica a investigação da literatura saramaguiana. Autor da ideia confessou-a ao professor Miguel Koleff, também há muito um leitor e dedicado estudioso da obra de Saramago, com organização de trabalhos de ampla significação para a fortuna crítica do escritor como o Diccionario de Personajes Saramguianos e a coleção Apuntes Saramaguianos a partir de um grupo de pesquisa dedicado à obra do Prêmio Nobel. Juntos, a ideia foi levada ao encontro de Pilar del Río, quem, desde que tomou contato mais concreto com a proposta, em novembro de 2013, se manteve atenta ao andamento da edição ora publicada e abriu, como presidenta da Fundação José Saramago, todo apoio com tudo que estivesse ao seu alcance.

Dados sobre a primeira edição

A REVISTA é apresentada no âmbito do Dia do Desassossego, data pensada pela Fundação José Saramago, que este ano integra as celebrações pelo 92º aniversário do escritor. A edição publicada em dois volumes, um em língua portuguesa e outro em língua espanhola, reúne ensaios de pesquisadores de Brasil, Portugal e Argentina. Cada autor, à sua maneira, abre-se para algum elemento da obra literária saramaguiana, de modo a elucidar o itinerário multifacetado como é o da literatura de Saramago.

É Ana Paula Arnaut, por exemplo, quem se dedica ao romance Levantado do chão e perscruta como o escritor português construiu uma reflexão crítica e árdua sobre a fome e a miséria humanas. Ana que além de ser autora sobre importantes reflexões a partir da literatura portuguesa contemporânea, dedicou-se desde então à obra de Saramago, e sobre a qual tem publicado estudos como Memorial do convento: história, ficção e ideologia, lê o romance de 1980 ainda como um dos textos mais marcantes na constituição do estilo narrativo do escritor.

Mais adiante é Carlos Reis, quem desde a publicação do fundamental Diálogos com José Saramago tem sido uma das referências para os estudos da literatura saramaguiana, dentre a leva de autores e obras da cena portuguesa a que se dedica. Reis volta ao conjunto de telas trabalhadas por José Santa-Bárbara a partir de Memorial do convento e propõe uma reflexão interartes, literatura e pintura, a título não só de demarcar dois distintos territórios, mas o que há de imagético na obra saramaguiana e o que há de narrativo na obra do artista plástico.

Teresa Cristina Cerdeira é também outro nome, um dos primeiros da crítica literária brasileira a dedicar uma tese de doutorado sobre a obra de Saramago, trabalho esse que veio a lume como José Saramago: entre a história e ficção, uma saga de portugueses. Para a REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS ela dedica uma leitura do Ensaio sobre a cegueira em relação com Entre quatro paredes de Jean-Paul Sartre.

Conceição Flores pertence ao mesmo grupo de Teresa Cristina Cerdeira pela perspicácia em ser uma das primeiras estudiosas da obra de Saramago; data de 2000 o importante estudo Do mito ao romance: uma leitura d’O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Agora, ao perscrutar os arquivos de preparação para o romance O ano da morte de Ricardo Reis – disponibilizados on-line pela Biblioteca Nacional de Portugal – Conceição elabora uma leitura sobre a feitura da narrativa, um dos pontos altos da literatura saramaguiana.

Se temas como a fome e a miséria humanas ainda estão inscritos no rol dos poucos ensaios dedicados à literatura saramaguiana, há temas considerados ainda mais fortes porque estão imbricados numa rede de discursos-tabu, quais seja a religião, a morte, os novos papeis e significados dedicados à mulher; estes temas, por reiteradas vezes, fios condutores da obra de Saramago são perscrutados pelos ensaios de Fabiana Takahashi (que examina o tema do suicídio nos principais romances saramaguianos), Salma Ferraz (que examina como o romancista constrói a figura de Deus em Caim), Miguel Koleff (sobre o poder e ânsia do mando perscrutados a partir d’O evangelho segundo Jesus Cristo em relação com a obra de Teolinda Gersão) e Maria Victoria Ferrara (sobre a morte).

Pedro Fernandes dedica-se a partir de determinadas categorias da narrativa, tais como personagem, tempo e espaço, a construção de temas como o feminino, a relação entre ficção e história, entre outros aspectos que reforçam o reconhecimento de Claraboia como elementar na bibliografia de José Saramago por nela está reunida elementos importantes para a compreensão da produção romanesca do escritor, além de referendar a importância exercida por textos da sua juventude sobre a obra da maturidade e destacá-lo como peça original no interior do seu projeto literário.

Lílian Lopondo vai aos diários de Saramago ora publicados em cinco tomos enfeixados pelo título de Cadernos de Lanzarote. Além de examinar a feitura da escrita autobiográfica, a professora dedica-se a estabelecer vincos com a obra do mesmo gênero escrita pelo grande amigo do escritor português, Jorge Amado.

Boa parte dos nomes que escrevem para esta primeira edição integra como corpo científico para a REVISTA composto ainda por professores e pesquisadores de várias instituições brasileiras, portuguesas e estrangeiras (conforme se pode ler no próximo item). Esta edição, portanto, apresenta-se com nomes de convidados, a demarcarem um ponto de partida. A edição por vir deverá manter essa estrutura até que o periódico ganhe a projeção para a recepção voluntária de ensaios e recensões críticas.

Os dois volumes reúnem ainda imagens de José Saramago do período de escrita de Claraboia, fac-similar de páginas de Claraboia e de materiais para a escrita de O ano da morte de Ricardo Reis. O volume em língua portuguesa, além desses arquivos, recebe um conjunto inédito de telas da exposição “O feminino na escrita de José Saramago”, produzida pela artista plástica Lena Gal.

Atual conselho científico

Ana Paula Arnaut (Universidade de Coimbra)
Carlos Reis (Universidade Aberta Nova Lisboa)
Conceição Flores (Universidade Potiguar)
Derivaldo Santos (Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
Eula Carvalho (Universidade Nova Lisboa)
Gerson Roani (Universidade Federal de Viçosa)
Graciela Perrén (Universidad Nacional de La Rioja)
Helena Bonito Couto Pereira (Universidade Mackenzie)
Jerónimo Pizarro (Universidad de Los Andes)
Lilian Lopondo (Universidade de São Paulo)
Maria Alzira Seixo (Universidade de Lisboa)
Marisa Piehl (Universidad Nacional de La Rioja)
Nuno Júdice (Universidade de Lisboa)
Fernando Gómez Aguillera (Fundação Cesar Marinque)
Salma Ferraz (Universidade Federal de Santa Catarina)
Teresa Cristina Cerdeira (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Informações

Site: http://www.estudossaramaguianos.com/

Contato: pedro.letras@yahoo.com.br

Facebook: https://www.facebook.com/saramaguianos/

Twitter: @saramaguianos

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