O autor talvez não esteja, os leitores sim estão

O autor talvez não esteja, os leitores sim estão

Ler no outono o que se leu na primavera, pela manhã o que fez diferente uma tarde, com frio o que pareceu insuperável sob o sol do verão: ler a partir da alegria ou da esperança, do amor ou do desalento de não poder partilhar intimamente, ler sempre porque os livros não se terminam nunca ainda que os autores tenham morrido. Mas os leitores não, os leitores dão sentido uma e outra vez a uma obra, esse livro que se guarda num lugar privilegiado da casa ou esse Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas que nos chega agora como um dardo amoroso dirigido ao nosso coração e à nossa consciência.

O último livro de José Saramago aparece agora em vários países da Europa e da América. É o último? por que utilizam esta expressão? Perguntava ontem uma leitora, que acrescentava que para ela o último é o livro que acaba de ler e que relê muito porque cada vez descobre nos livros novas perspectivas. Tem razão, Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas é só o último texto que José Saramago escreveu, mas enquanto houver leitores os livros continuam fluidos e móveis, sempre dispostos, mudando de lugar e de cara, porque já sabemos que os livros se parecem com os seus leitores, adotam a expressão de que os ama e os protege.

Na Fundação José Saramago, quando se apresenta Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas, queremos fazer o elogio dos leitores, destinatários do trabalho dos escritores. Serão, seremos, os leitores quem aceitemos ou não a obra em que José Saramago estava empenhado quando morreu. Com os leitores José Saramago quis partilhar as suas meditações sobre o mundo, marcado pela violência. Inventou personagens e uma situação concreta para refletir sobre a responsabilidade pessoal diante dos abusos do poder. A partir da literatura, com a sua forma de narrar, essa capacidade de levantar mundos com breves pinceladas e palavras precisas, José Saramago visita-nos mais uma vez, a primeira do caminho que teremos de fazer acompanhando-nos uns aos outros. Porque o autor não está, mas nós, os leitores, sim.  (Pilar del Río)

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