O destino da arquitetura

Victor Pérez Escolano

A arquitetura é a maior manifestação da atividade humana. O espaço e o tempo condicionam a resposta às necessidades e a expressão dos ideais. O espaço configura-se como lugar e o tempo como história. Uma sociedade viva não permite que essas transformações se paralisem. Toda a obra valiosa deve receber novas demandas e responder-lhes.

Também nas crises estruturais, como a que atualmente sofremos, as cidades vivem a sua particular história arquitetónica. A implicação entre uma e outra escala de acontecimentos não é um óbice para que determinadas iniciativas possam iluminar a cidade.

Em décadas aprendemos que a modernidade cultural e a inovação poderiam ser compatíveis com o património. As doutrinas reacionárias resolviam os seus problemas de consciência reduzindo a proteção a um punhado de peças, sendo permissivos com a demolição geral, e enganando com aparências nas novas construções. Avaliou-se a produção contemporânea e integraram-se as leituras morfológicas e tipológicas das estruturas urbanas, elevando extraordinariamente a complexidade patrimonial e o seu desafio de projeção.

Os portugueses alcançaram quotas extraordinárias nas suas respostas dinâmicas às possibilidades da sua herança arquitetónica. Lisboa soube sobrepor-se a terríveis dramas históricos. A cidade surgida após a destruição do terramoto de 1755 esteve à altura do efeito demolidor da catástrofe. A conjunção entre política e arquitetura gerou a Baixa do Marquês de Pombal e uma enorme quantidade de obras dotaram a cidade de um novo carácter. A uma escala menor, o pavoroso incêndio do Chiado de 1988 foi enfrentado de imediato encarregando-se Siza Vieira, o arquiteto de maior reconhecimento internacional, da sua reconstrução. Uma operação de grande envergadura, que se veria apoiada por vetores de especial dinamismo como a capitalidade cultural europeia e a exposição internacional de 1998.

Em 1983, no âmbito da exposição do Conselho da Europa na comemoração dos descobrimentos portugueses no contexto renascentista, um ensaio singular foi a intervenção reabilitadora pós-moderna numa peça sobrevivente do século XVI: a Casa dos Bicos. Agora, depois de quase trinta anos de incerteza, tão singular edifício soube encontrar o seu melhor destino, acolher a sede da Fundação José Saramago, único Nobel da literatura portuguesa.

Um exemplo para o melancólico abandono de edifícios essenciais de Sevilha, como a antiga fábrica de Artilharia. Não será a vulgaridade que os resgatará.

Fonte: El Correo de Andalucía

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