O elefante esteve na Casa dos Bicos

Foi mais do que uma visita de cortesia: o elefante Salomão, conduzido pelo Trigo Limpo teatro ACERT, não quis instalar-se na Praça do Município sem antes visitar o lugar de José Saramago, junto à Casa dos Bicos, em Lisboa. Chegaram os homens, as mulheres e o animal de vime a meio da tarde, montaram o seu acampamento diante da oliveira que acolhe o escritor que nos contou A Viagem do Elefante e começaram as horas mais luminosas, as da lembrança e do agradecimento. Luis Pastor, com o seu cavaquinho particular, cantou à sombra da oliveira os temas compostos para o espetáculo enquanto José Rui e outros atores da peça que veremos no fim de semana contavam a sua experiência de percorrer Portugal pelas melhores razões. Sem ordem, como é natural entre gentes que recriam a vida a cada instante, os artistas conversaram com os meios de comunicação e com as pessoas que se acercaram do Campo das Cebolas atraídas pela presença gigantesca de um paquiderme transparente e aéreo que olhava uma oliveira com a cabeça baixa em sinal de respeito.

A noite trouxe outro grupo heterogéneo de gente, os homens e as mulheres que serão participantes do espetáculo em Lisboa, quase cem pessoas que tinham confirmação para atuar, enquanto outras tantas estão em lista de espera para se vestirem de povo português, soldados austríacos ou portugueses, espanhóis de Valladolid com leque, padres, reis ou trabalhadores quase escravos, ainda que com muita presença humana. E começaram os ensaios dos participantes na Casa dos Bicos, no auditório/biblioteca aonde chegaram imagens de outras representações e o diretor do Trigo Limpo explicou que todos são protagonistas – tal como os que creem que vão ser apenas espectadores – desta viagem singular que vai de Viena a Lisboa e é a vida. Em seguida, na rua, os grupos começaram a aprender as suas marcações, professores passaram a ser atores, atores sem emprego assumiram papeis que pareciam esperá-los, jovens e menos jovens dançaram “palma com palma” como a obra exige e eles quiseram.

À meia-noite, a hora bruxa, Salomão e os seus – talvez houvesse que dizer, os criadores do elefante e da recriação do paquiderme – iniciaram o caminho até à Praça do Município onde o encontro está marcado com muitos outros. O dever que a amizade impõe estava cumprido: chegar a Lisboa passando por José Saramago, autor de A Viagem do Elefante, romance que parece ter nascido para ser obra de teatro.

A partir da Fundação, apenas podemos expressar a nossa gratidão e respeito.

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