O Teatro está mais pobre – Morreu o encenador Joaquim Benite

A Fundação José Saramago envia um abraço à Companhia de Teatro de Almada e a todos os familiares e amigos de Joaquim Benite, encenador de A Noite e Que Farei com Este Livro? e amigo do Escritor.

Fundador da Companhia de Teatro de Almada tinha 69 anos. “Os encenadores nunca ficam na história”, disse um dia.

O encenador Joaquim Benite, director do Teatro Municipal de Almada e do Festival de Almada, morreu esta noite de quarta-feira, aos 69 anos, na sequência de complicações respiratórias motivadas por uma pneumonia, anunciou a companhia em comunicado. “O país perde assim um dos seus mais prestigiados encenadores, ligado ao movimento de renovação do teatro português no período que antecedu e que se seguiu à revolução de 1974”, diz a companhia.

Benite foi o rosto de um dos mais importantes projectos de teatro em Portugal. O Festival de Teatro de Almada, que começou em 1984 no Beco dos Tanoeiros, tornou-se, ao longo das suas 28 edições, um dos mais relevantes festivais de teatro do mundo. Foi, ao lado dos Encontros Acarte, na Gulbenkian, o lugar por onde passaram as mais importantes companhias e os mais significativos nomes da cena mundial. O encontro em Almada, todos os anos de 4 a 18 de Julho, é considerado como um momento alto da programação teatral não apenas em Portugal mas um ponto de encontro para especialistas e público vindos de vários países. Foi por Almada que passaram companhias vindas da América do Sul e de África, quando ainda não existiam circuitos de programação instituídos. Foi também neste festival que se começaram a ver os primeiros nomes vindos da Europa de Leste, quando ainda não estavam abertas as fronteiras.


A Noite

Nascido em Lisboa em 1943, filho de um empresário do teatro, Joaquim Benite foi actor quando tinha 17 anos, antes de perceber que “não tinha jeito nenhum”, e depois jornalista e crítico de teatro, com passagem pelas redações de vários diários. Começou a trabalhar como jornalista aos 20 anos, no jornal República. Fez parte da redacção do Diário de Lisboa e foi chefe de redacção dos jornais O Século e O Diário. Foi crítico de teatro no Diário de Lisboa em diversas revistas e publicações.

Abandonou a crítica – porque “não tinha muito sentido escrever sobre o teatro dos outros. Se uma pessoa gosta, é fazê-lo”, defendeu, numa entrevista ao jornal i, em Julho deste ano. Fundou em 1971 o Grupo de Campolide: estreou-se na encenação com a peça O Avançado-Centro Morreu ao Amanhecer, de Agustin Cuzzani. Sete anos depois, em 1977, o Grupo de Campolide profissionalizou-se e instalou-se no Teatro da Trindade.

No ano seguinte, saiu de Lisboa e mudou-se para Almada. Achou que “era bom ir para a periferia” por “uma razão estética e uma cívica”. Começou a fazer teatro com a utópica esperança de ver os trabalhadores da Lisnave a subirem a Avenida 25 de Abril, de marmitas vazias, para se virem alimentar ao velho, e hoje antigo, Teatro de Almada, explicou ao Ípsilon em 2010. Mas cedo percebeu que essa defesa de um teatro capaz de mobilizar as massas era pouco condizente com as condições em que as pessoas viviam.

Em Almada estreou-se com Aventuras de Till Eulenspiegel, de Charles de Coster e Virgílio Martinho. A designação de Companhia de Teatro de Almada (CTA) viria mais tarde.

Em 1987, inaugurou, com a peça de García Lorca Dona Rosinha, a Solteira, o Teatro Municipal de Almada (desde 2005 instalado no Teatro Azul, edifício da autoria dos arquitectos Manuel Graça Dias, Egas José Vieira e Gonçalo Afonso Dias).

Ao longo de 40 anos de carreira, Benite encenou textos de Molière, Brecht, Lorca, Pushkin, Beckett, Shakespeare, Gogol, Eugene O’Neill, Mikhail Bulgakov, Camus, Edward Albee, Thomas Bernard, Pablo Neruda, Peter Shaffer, Nick Dear, Victor Haim, Sanchis Sinisterra, Marguerite Duras e Antonio Skármeta, entre outros.

Deu igualmente a conhecer, em estreia, autores portugueses como José Saramago, Virgílio Martinho, Fonseca e Lobo e, mais recentemente, Rodrigo Francisco, além de ter também encenado textos de outros autores nacionais, como António José da Silva e Almeida Garrett.

É autor de diversos textos para teatro, bem como de conferências e ensaios e leccionou muitos cursos de teatro. Dirigiu, até morrer, a revista de teatro Cadernos e a coleção de “Textos d’Almada”.

Criou, em 1984, e dirigiu sempre o Festival de Almada que se tornou o maior acontecimento teatral realizado em Portugal, pela qualidade e quantidade de espetáculos de teatro de companhias nacionais e estrangeiras que todos os anos nele se apresentam. Ao Ípsilon, em 2010, Joaquim Benite recordou uma frase de Jorge Silva Melo, onde este dizia que “o festival é o sítio mais civilizado de Portugal”. Benite orgulhava-se de ter criado “um lugar onde se encontram diferentes linhas estéticas mas que discutem, com maturidade, sobre as suas diferenças, sem se agredirem, e de forma flexível, num nível que não é o da confrontação sectária”.

Considerava que o público “cria pressões” e dizia que ao longo dos anos foi trabalhando para um público que se foi formando no festival, tal como ele se foi formando ao mesmo tempo. “Muitas vezes penso que o meu gosto evoluiu como evoluiu o próprio festival”, disse ao Ípsilon. “Todas as pressões que existem encaro-as da mesma forma e tiro delas o melhor partido. Não acho que o festival deva criar situações de desconforto para o espectador, mas deve trabalhar para alargar a dicussão”. Afirmava que se programasse só o que gostava, “o festival seria mais pequeno”.

Várias encenações suas receberam prémios da crítica e outros e ele próprio foi distinguido com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural do Concelho de Almada e a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura, além de ter sido condecorado pelo Governo francês com o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras e pelo rei de Espanha com a comenda da Ordem de Mérito Civil.

Quando lhe perguntaram se achava que ficaria na história, respondeu assim: “Os encenadores nunca ficam na história. Só os escritores, como o Shakespeare. Sabe, acho que vale a pena viver para nos divertirmos. Lutar por coisas, para cumprir missões, não. O teatro é um sinal de civilização que está na origem da sociedade. Até nos animais. Quando chego a casa, o meu cão faz uma dança que parece egípcia, pá. São rituais de representação. Mas o teatro não tem missão nenhuma. É uma coisa que as pessoas fazem porque gostam e as outras vêem porque lhes dá prazer”.

Fonte: Público

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