Os conflitos da ciência no Memorial do Convento

No “Memorial do Convento”, José Saramago “aborda como ninguém as tensões entre diversas formas de conhecimento, as paixões que desencadeia e o conflito entre diferentes formas de poder”, observa a professora catedrática de sociologia María-Ángeles Durán, num artigo publicado no site do SINC, a agência estatal espanhola especializada em informação científica:

 O meu primeiro encontro com a obra de Saramago foi “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Tinham passado mais de quatro décadas – quando, aos 17, li “A Peste” de Camus – desde que um livro me provocara uma mistura tão intensa de reflexão e prazer literário. Pensei que aquele livro era suficiente para que dessem o Nobel ao autor.

Depois fui lendo outras obras dele e constatei que tratava com frequência questões ligadas ao conhecimento, ao saber e à ciência, em diferentes ângulos. Para apreender melhor a cadência e a subtileza da sua linguagem, esforcei-me por lê-lo em português, embora aqui e ali tivesse de saltar por cima de palavras que não entendia.

 

Ri-me muito, ou melhor, sorri com a”Jangada de Pedra” e “As Intermitências da Morte”. Neles reconheço, em tom de paródia ou fantasia, as preocupações dos meus colegas politólogos, geógrafos, sociólogos e demógrafos.

No entanto, não é nenhum desses livros que quero agora recomendar-vos, mas sim o “Memorial do Convento”. Como uma obra tem tantos conteúdos como os leitores que dela se apoderam, é possível que algum crítico diga que neste caso o protagonista é o povo português, os infinitos personagens evocados na crónica da construção do grande Convento de Mafra.

 

A maioria dos leitores estará de acordo em que o fulcro da obra é o amor de Baltazr, um soldado manco recém-chegado da guerra contra Espanha, e Blimunda, uma camponesa capaz de ver o interior das pessoas. Apesar disso – e desculpem-me os leitores se a minha perspetiva pode estar profissionalmente enviesada – eu creio que o verdadeiro protagonista do Memorial é Bartolomeu Lourenço, o prestigiado pregador decidido a construir um aparelho que sulque os céus. Baltazar e Blimunda são os seus ajudantes clandestinos, entrançam vimes, forjam ferros ou recolhem o alento dos moribundos para fazer voar a passarola. A sua história de amor é tão bela que enche e ilumina todas as páginas da obra.

Escolho este romance porque Saramago conta aqui melhor do que ninguém as tensões entre diversas formas de conhecimento, as paixões que desencadeia e o conflito entre diferentes formas de poder. Também descreve magistralmente as alianças, as barreiras defensivas, os enrocamentos, a fragilidade das instituições e o risco que correm todos os envolvidos nestes processos. Apesar de o romance se situar no Portugal do início do séc. XVIII, a sua trama transcende o lugar e o tempo.

No séc. XXI, a produção de ciência ou de conhecimento deveria ser um processo livre de constrangimentos, onde o cenário que Saramago recriou tivesse desaparecido para sempre. Mas não é assim. O saber e a ciência continuam submetidos a mil controlos e condicionamentos, e é raro o cientista, nos campos da biologia ou da física tal como nas ciências sociais, que não tenha sentido em algum momento o aguilhão de esperança e medo que acompanhava nas suas peripécias Baltazar e Blimunda. Também hoje os investigadores continuam a fazer perguntas semelhantes às que inquietavam Bartolomeu Lourenço e, como no seu caso, habitualmente continuam sem resposta.

 

María-Ángeles Durán  é catedrática de sociologia e professora investigadora no Instituto de Economia, Geografia e Demografia do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC). Foi pioneira no estudo da fronteira entre o trabalho e o emprego, o trabalho não remunerado como força da economia, a situação social das mulheres, os cuidadores dos dependentes, os doentes de longa duração e a desigualdade no custo do tempo.

 

Fonte: SINC

 

 

Pin It on Pinterest

Share This