Padre António Vieira, um dos expoentes do Século de Ouro dos Prosadores Portugueses

Prosador, orador, político, agitador e diplomata são algumas das facetas do Padre António Vieira cuja Obra Completa foi apresentada na noite de 25 de junho na Fundação José Saramago, com uma intervenção de António Mega Ferreira que sublinhou ainda as capacidades de estratega da economia nacional deste jesuíta do séc.XVII.

Perante uma audiência que encheu o 4.º andar da Casa dos Bicos, Mega Ferreira confessou-se um apaixonado da obra de Vieira, um dos autores essenciais do que considera o “século de ouro dos prosadores portugueses”. Depois de felicitar o Círculo de Leitores pela iniciativa corajosa de, num tempo de incerteza, lançar esta coleção de grande fôlego, afirmou que o seu interesse não é apenas pela vasta obra do jesuíta mas também pela figura do autor. “É tempo de fazer uma nova biografia do Padre António Vieira”, comentou.

Foi pegando nestas palavras que Pilar del Río iniciou a sua intervenção, ao recordar que escrever a biografia de Vieira foi um dos sonhos de José Saramago. “Não havia semana em que não lesse páginas dele.”

Guilhermina Gomes, do Círculo de Leitores, que apresentou a sessão, valorizou o trabalho da equipa que preparou este conjunto de 30 volumes, sob a direção dos professores José Eduardo Franco e Pedro Calafate.

O pianista João Vasco interpretou composições portuguesas, brasileiras e de inspiração asiática, numa evocação dospercursos do padre António Vieira. O ator Rogério Jacques, do Grupo Éter, leu trechos de sermões de Vieira, entre os quais estes dois do “Sermão de Santo António aos Peixes”, de 1654:

“A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. (…) “Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer, e como se hão-de comer.”

Círculo de Leitores

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